Mesmo depois de receber R$ 481,5 milhões do Rioprevidência, o fundo Revolution, administrado pelo conglomerado do Banco Master, comunicou à sua gestora, a Acura, que não tem dinheiro em caixa para arcar com R$ 14,8 milhões de taxas de administração em atraso. A inadimplência estimulou uma nova disputa judicial e acendeu o alerta sobre a saúde financeira da carteira, investigada pela Polícia Federal (PF) por suspeita de má gestão.
O episódio ocorre em paralelo a uma decisão da Justiça fluminense que tenta garantir o resgate integral dos recursos públicos investidos no Revolution e inibir qualquer manobra que possa atrasar o pagamento previsto para agosto de 2026.
Fundo alegou falta de liquidez após aporte milionário
Os primeiros desembolsos do Rioprevidência no Revolution começaram em maio de 2025, totalizando R$ 481,5 milhões. Mesmo assim, entre setembro do mesmo ano e fevereiro de 2026 o fundo deixou de recolher as mensalidades devidas à Acura, calculadas em 0,60% ao ano sobre o patrimônio líquido. O valor pendente, segundo ação protocolada pela própria gestora, varia de R$ 1,6 milhão a R$ 2,7 milhões por mês e já soma R$ 14,8 milhões.
Ao ser cobrado judicialmente, o Revolution afirmou enfrentar “insuficiência momentânea de caixa”. A justificativa surpreendeu integrantes do governo estadual porque, segundo a PF, a carteira segue abastecida por aplicações de longo prazo e títulos que prometem remuneração de até 180% do CDI – percentual considerado “economicamente anômalo” pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE-RJ).
Investigações miram rentabilidade fora da curva
Para os investigadores, a promessa de pagas tão elevadas indica possível desequilíbrio contábil ou prática especulativa. As suspeitas se juntam ao fato de a maior parte dos papéis ter vencimento alongado, o que dificulta a transformação imediata dos ativos em dinheiro fresco caso o cotista solicite resgate repentino.
Gestora também enfrenta bloqueios judiciais
A Acura, responsável pela estratégia de alocação do Revolution até o surgimento do impasse, igualmente alega dificuldades financeiras. Em outro processo, a empresa informou estar sem liquidez depois de ver sua carteira encolher de aproximadamente 70 para 30 fundos na esteira da Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF. O mesmo inquérito levou a Justiça do Rio a bloquear bens da gestora e de dois de seus diretores até o limite de R$ 481,5 milhões, justamente para resguardar possível ressarcimento ao Rioprevidência.
Bloqueio tenta blindar aposentadorias estaduais
A Procuradoria fluminense sustenta que, diante da elevada exposição – o Rioprevidência tem R$ 3,7 bilhões aplicados em produtos ligados ao Banco Master, conforme relatório policial – qualquer oscilação no Revolution oferece risco direto ao pagamento de pensões e aposentadorias de servidores estaduais.
Justiça dá aval para auditoria independente
Para impedir que o patrimônio público sofra novas deteriorações, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro proibiu a administradora do Revolution de adotar práticas capazes de dificultar saques ou realocações de recursos. A corte também determinou a contratação imediata de auditoria independente, com acesso irrestrito a livros, extratos bancários e contratos celebrados pelo fundo.

Imagem: Internet
Resgate agendado para 2026
Oficialmente, o resgate solicitado pelo Rioprevidência só vence em agosto de 2026, já que o regulamento do fundo prevê janela específica para grandes retiradas. A meta do governo é antecipar ou, ao menos, assegurar a devolução integral. Caso o Revolution siga inadimplente, novas medidas coercitivas não estão descartadas, segundo fontes ligadas ao processo.
Como funciona o Revolution e por que ele virou problema
- Perfil: fundo de crédito privado destinado a investidores qualificados;
- Administração: Banco Master, conglomerado que capta recursos e redireciona para operações estruturadas;
- Gestão: Acura era responsável por decidir onde aplicar o dinheiro e acompanhar o risco dos ativos;
- Cobrança: taxa de 0,60% ao ano sobre o patrimônio líquido, apurada diariamente e recolhida todo mês;
- Remuneração prometida: até 180% do CDI, patamar visto como fora do padrão para esse tipo de carteira;
- Liquidez: prazos longos de vencimento que dificultam a geração de caixa rápido.
Impacto para o Estado
O Rioprevidência, maior investidor do fundo, depende dos rendimentos para equilibrar o pagamento de cerca de 250 mil beneficiários. Qualquer atraso ou calote pressiona o Tesouro fluminense, que historicamente já lidou com rombos bilionários em sua previdência.
Próximos passos na Justiça e na PF
Além da ação de cobrança movida pela Acura, tramitam no Ministério Público e na Polícia Federal inquéritos que examinam se houve gestão temerária ou fraudulenta. Entre os pontos de interesse estão:
- Origem dos títulos com rentabilidade fora da curva;
- Critérios internos usados para aprovar as aplicações do Rioprevidência;
- Possíveis conflitos de interesse entre administradora, gestora e distribuidores;
- Eventual repasse de comissões indevidas a intermediários.
Caso as suspeitas se confirmem, envolvidos podem responder por improbidade administrativa, gestão fraudulenta e até lavagem de dinheiro.
Silêncio das partes
Procurados pela reportagem, representantes do Banco Master e da Acura não se pronunciaram até o fechamento desta edição.
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