Brasília e Washington retomam diálogo sobre tarifaço após conversa direta entre Lula e Trump

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    O governo brasileiro volta à mesa de negociações com os Estados Unidos na próxima segunda-feira (31), às 14h30, para tentar brecar o tarifaço que encareceu parte das exportações nacionais neste ano. A reunião virtual reunirá o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, num primeiro passo de uma agenda pactuada logo depois do telefonema de 1h20 entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

    Brasília quer, num primeiro momento, ampliar a lista de exceções às sobretaxas de até 37,5% impostas por Washington; em seguida, buscará reverter definitivamente as medidas. É a primeira conversa formal entre os dois governos desde que o aumento tarifário foi anunciado, e ocorre após mais de 30 contatos bilaterais sem acordo.

    Reaproximação nasce de um telefonema

    O degelo comercial começou na semana passada, quando Lula ligou para Trump e argumentou que as novas tarifas ferem a competitividade de empresas dos dois lados. Trump concordou sobre a necessidade de “preservar relações comerciais estratégicas” e sugeriu que as equipes técnicas retomassem o diálogo “o mais rápido possível”. Poucas horas depois, Greer trocou mensagens com Márcio Elias Rosa para marcar a data de 31 de agosto.

    Desde o início do ano, Brasília tentava, sem sucesso, levar Washington a reavaliar as sobretaxas. O movimento envolveu embaixadores, ministros e técnicos, mas esbarrava na falta de sinal verde da Casa Branca. A conversa presidencial destravou o impasse e devolveu a negociação ao nível técnico, considerado o caminho mais curto para resultados práticos.

    Entenda o tarifaço

    Os Estados Unidos aplicaram duas rodadas de sobretaxas sobre produtos brasileiros:

    • Primeira rodada: acréscimo de 25% depois de investigação que apontou “práticas que oneram ou restringem” o comércio com os EUA, citando o sistema de pagamentos Pix e a regulação de plataformas digitais.
    • Segunda rodada: mais 12,5%, elevando a incidência total para até 37,5% sobre parte das mercadorias.

    Apesar da rigidez, milhares de itens escaparam da cobrança adicional, entre eles petróleo, café e carne bovina. Já calçados, máquinas, madeira e açúcar seguem pagando a alíquota máxima. O MDIC calcula que esses setores concentram parte significativa do impacto sobre a balança comercial brasileira.

    O que o Brasil pretende negociar

    A estratégia elaborada pela pasta do Desenvolvimento prevê duas frentes:

    1. Ampliar exceções imediatas – Inserir novos produtos na lista já isenta, aliviando pressões de curto prazo sobre indústrias exportadoras.
    2. Reverter o aumento tarifário – Trabalhar por um acordo que volte às condições anteriores às investigações comerciais abertas por Washington.

    Segundo Márcio Elias Rosa, a meta inicial é “gerar confiança” com resultados rápidos, enquanto equipes jurídicas analisam os caminhos para contestar as sobretaxas nos fóruns previstos pelos tratados bilaterais.

    Impacto sobre setores-chave

    Dados internos do governo apontam que:

    • Fabricantes de calçados perderam entre 8% e 10% de competitividade no mercado norte-americano desde a primeira tarifa.
    • Produtores de máquinas agrícolas relatam adiamento de contratos estimados em US$ 250 milhões.
    • Indústrias madeireiras registram alta de custos logísticos que anulou margens de lucro.
    • O setor sucroalcooleiro teme desvio de vendas para mercados com preços menos vantajosos.

    Autoridades brasileiras avaliam que, mantidas as regras atuais, o país pode fechar 2026 com perda acumulada próxima de US$ 4 bilhões em exportações.

    Como será a agenda de trabalho

    O encontro de segunda-feira servirá para:

    • Definir cronograma de reuniões temáticas sobre sistemas de pagamentos, tecnologia e agroindústria;
    • Reabrir grupos de trabalho já existentes no Acordo de Relações Econômicas Brasil-EUA;
    • Estabelecer mecanismos de monitoramento de barreiras comerciais para evitar novos choques tarifários.

    Os dois governos devem adotar encontros alternados: ora virtuais, ora presenciais em Washington ou Brasília. A expectativa é fechar um primeiro pacote de exceções antes do fim do ano, quando entram em vigor revisões anuais de alíquotas nos Estados Unidos.

    Reações do setor privado

    Entidades empresariais brasileiras comemoraram a retomada do diálogo. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos informou que já enviou ao MDIC uma lista de 127 NCMs prioritários para exclusão imediata do tarifaço. A Abicalçados calcula que a medida pode salvar 18 mil empregos diretos.

    Nos Estados Unidos, a Câmara de Comércio Brasil-EUA divulgou nota ressaltando que o país “continua necessitando de fornecedores confiáveis” em áreas como energia e alimentos, e que reduzir barreiras é “do interesse estratégico dos dois lados”.

    Perspectivas e desafios

    Apesar do clima positivo, negociadores brasileiros reconhecem que o processo será complexo. O governo norte-americano sustenta que a combinação Pix-regulação digital cria distorções contra empresas dos EUA e, portanto, enquadra-se nas regras que permitem medidas compensatórias. Para Brasília, as sobretaxas não guardam relação direta com subsídios ou barreiras e violam princípios da Organização Mundial do Comércio.

    Diplomatas lembram que, na última década, contenciosos semelhantes levaram anos para ser resolvidos. A diferença, agora, é o engajamento político direto dos presidentes, capaz de acelerar consensos técnicos. “Sem suporte no topo, as mesas ficam travadas; com suporte, tudo anda”, resume um negociador envolvido nas tratativas.

    Próximos passos

    Ao final da reunião de segunda, espera-se uma nota conjunta apontando:

    • A criação de subgrupos técnicos;
    • Um calendário preliminar de isenções;
    • Compromisso de evitar novas tarifas enquanto durarem as negociações.

    Membros da equipe econômica brasileira já reservam espaço na agenda de setembro para um possível encontro presencial em Washington. Caso avance, será o primeiro tête-à-tête ministerial com Greer desde que as sanções comerciais começaram.

    Enquanto isso, empresas afetadas revisam planos de exportação com base na expectativa de redução de custos. Se a diplomacia conseguir ao menos ampliar a lista de exceções, o impacto imediato pode ser sentido ainda no quarto trimestre pelas cadeias produtivas de calçados, máquinas e açúcar.

    O que está em jogo

    O comércio bilateral Brasil-EUA ultrapassou US$ 88 bilhões em 2025, tornando o sócio norte-americano o segundo maior destino das exportações brasileiras. No entanto, analistas alertam que as sobretaxas, se mantidas, podem reordenar fluxos globais e levar compradores a substituir produtos do Brasil por opções de mercados asiáticos.

    Do lado político, a retomada do diálogo após o telefonema Lula-Trump indica que, apesar das diferenças de estilo, Brasília e Washington seguem dispostos a alinhar interesses econômicos estratégicos. O teste real virá na capacidade de converter boa vontade em números: menos porcentagem na alíquota e mais dólares entrando no caixa das empresas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.