Uma fileira de bicicletas silenciou o trânsito da zona Sul de Porto Velho na manhã desta segunda-feira (24). O cortejo acompanhou o carro funerário que levava o corpo de Waldirene Miranda, 58 anos, conhecida como Dona Wal, atropelada por um caminhão na BR-319 no domingo. Embora o trajeto fosse curto, o gesto revelou a dimensão do luto de uma comunidade que, entre lágrimas e buzinas de bicicleta, clamava por justiça e segurança nas rodovias.
Enquanto pedalavam, amigos recordavam a ciclista que transformava passeios em aulas de entusiasmo. “Ela sorria mais do que pedalava”, resumiu Elias Ferraz, parceiro de longas distâncias. O adeus coletivo expôs uma cidade que acumula acidentes fatais e ainda travessa um debate urgente sobre quem tem direito à via pública.
O acidente que tirou a vida de uma referência do pedal
Waldirene seguia com um grupo pela altura do km 136 da BR-319, rodovia que liga Porto Velho a Humaitá (AM), por volta das 6h30 de domingo (23). O caminhão Mercedes-Benz conduzido por Maicon de Oliveira Brandão avançou sobre a ciclista, arremessando-a ao acostamento. Testemunhas relataram à Polícia Rodoviária Federal (PRF) que o caminhoneiro sequer reduziu a velocidade.
De acordo com o boletim de ocorrência, Brandão fez um retorno cerca de 200 metros adiante, observou a movimentação por alguns segundos e, em seguida, dirigiu o veículo em direção às pessoas que tentavam prestar socorro. Um automóvel estacionado para sinalizar o local foi atingido e despencou numa ribanceira de três metros. O motorista do carro sobreviveu com escoriações.
Fuga e prisão em flagrante
Após o segundo choque, o caminhoneiro fugiu sem oferecer ajuda. A PRF iniciou buscas e o localizou horas depois, escondido dentro da própria cabine, já em outro ponto da rodovia. O auto de constatação de embriaguez apontou hálito etílico, fala desconexa e olhos avermelhados. Ele foi preso em flagrante pelos crimes de homicídio culposo na direção de veículo automotor, lesão corporal e omissão de socorro.
Última homenagem sobre duas rodas
Desde as primeiras horas da segunda-feira, grupos de ciclismo se concentraram em frente à Capela São Cristóvão, onde ocorreu o velório. Às 9h10, o carro funerário iniciou o deslocamento até o cemitério Jardim da Saudade. Cerca de 200 ciclistas, vestidos de lycra colorida e coletes refletivos, formaram um cordão até a Avenida Jatuarana.
Vídeos gravados pela Rede Amazônica mostram o momento em que o cortejo toma a pista. Motoristas reduzem, alguns buzinas soam em solidariedade, e o comboio avança em velocidade constante. “Queríamos transformar a dor em movimento, porque foi assim que ela viveu,” explicou Gilberto Mota, que organizou o ato pelas redes sociais na noite anterior.
‘Ela deixava qualquer iniciante confortável’
Dona Wal pedalava há mais de uma década e era presença frequente em provas amadoras na região Norte. Segundo companheiros, costumava carregar suprimentos extras para quem ficava sem água ou energia no caminho. “Ali não existia tempo ruim. Se alguém desistia, ela voltava para buscar,” relatou a ciclista Selma Farias.
Para o mecânico de bicicletas e amigo próximo José Márcio, o legado de Waldirene vai além do esporte: “Ela mostrava que, mesmo aos 58 anos, era possível começar algo novo. Muitos senhores compraram a primeira bike por causa dela.”
Rodovias federais: estatísticas que preocupam
Dados preliminares da PRF apontam que, em 2025, Rondônia registrou 112 acidentes envolvendo ciclistas em rodovias federais, crescimento de 18% em relação ao ano anterior. Dessas ocorrências, 23 terminaram em morte. A falta de acostamento regular e a iluminação precária são as principais queixas relatadas por grupos de pedal.

Imagem: caminhão RO
A BR-319, palco do acidente, acumula trechos com buracos e sinalização apagada. “Não temos ciclovia, não temos espaço; dependemos da atenção dos motoristas e de fiscalizações que raramente chegam”, afirmou o instrutor de ciclismo Jackson Lima.
Fiscalização de alcoolemia
Somente no primeiro semestre, a PRF em Rondônia aplicou 2.814 testes de bafômetro, mas multou 427 condutores por embriaguez. A corporação admite que a extensão das BRs dificulta coberturas constantes. “Nos fins de semana, priorizamos pontos de lazer, mas há lacunas”, reconheceu o inspetor Maurício Andrade.
Investigação e próximos passos judiciais
O inquérito sobre a morte de Waldirene será encaminhado ao Ministério Público Federal, porque o crime ocorreu em rodovia federal. Maicon de Oliveira Brandão, 36 anos, permanece no Presídio Urso Branco em flagrante. A defesa informou que aguardará a audiência de custódia para decidir estratégia, mas não se pronunciou sobre o exame de alcoolemia.
A família da vítima já estuda pedir indenização por danos morais e materiais. O advogado Marcelo Rattes explica que, além da via criminal, a legislação de trânsito prevê reparação civil: “Há jurisprudência para responsabilizar o motorista e a transportadora proprietária do caminhão, se for o caso.”
Projetos de lei em discussão
Na Câmara Municipal de Porto Velho, vereadores articulam proposta que obriga a instalação de placas educativas em pontos críticos da BR-319 e cria um banco de dados sobre sinistros envolvendo ciclistas. O texto deve ser protocolado ainda esta semana.
Comunidade se mobiliza por segurança
Após o sepultamento, ciclistas confirmaram um novo ato para o próximo sábado, partindo da Praça Três Caixas D’Água rumo ao local do atropelamento. O grupo pretende pintar uma “bike fantasma” – bicicleta branca que simboliza ciclistas mortos – e fixá-la no acostamento como alerta permanente. “Não queremos que Dona Wal seja só estatística; queremos que ela provoque mudança”, declarou Gilberto Mota.
Enquanto isso, grupos de pedal intensificam campanhas de iluminação e uso de sinalizadores entre iniciantes. Lojas de bicicletas da capital prometeram descontos em faróis e capacetes até o fim do mês. “Se o poder público demora, nós mesmos damos a resposta”, concluiu Selma Farias.
Relembre pontos-chave
- Waldirene Miranda, 58 anos, morreu no domingo (23) após ser atingida por caminhão na BR-319.
- Motorista Maicon de Oliveira Brandão fugiu, foi preso horas depois e apresentava sinais de embriaguez.
- Comunidade ciclística organizou cortejo de bicicleta e prepara instalação de ‘bike fantasma’ no local do acidente.
- Estatísticas da PRF indicam aumento de 18% nos sinistros com ciclistas em rodovias de Rondônia.
- Familiares estudam ação indenizatória; Câmara discute medidas de sinalização e educação no trânsito.
