Condenado por homicídio entrega à PF indícios de propina e cita governador do Maranhão

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    Um dossiê entregue à Polícia Federal colocou o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), e familiares no centro de uma investigação por corrupção. O material foi apresentado por Gilbson César Soares Cutrim Júnior, condenado a 13 anos de prisão pelo homicídio ocorrido em 2022 num centro empresarial de São Luís. Ele afirma ter atuado como cobrador informal de “recebíveis” de governos anteriores, tarefa que, segundo a defesa, envolvia a devolução de parte dos valores pelos empresários em forma de propina.

    Entre os itens apresentados estão um papel com números de processos administrativos, a etiqueta de um maço de dinheiro vivo supostamente retirado no Banco do Brasil e a foto de um automóvel que, de acordo com o detento, era usado para a entrega periódica de R$ 30 mil em espécie para comprar seu silêncio. As suspeitas já provocaram o afastamento do presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), Daniel Brandão, sobrinho do governador, por decisão do ministro Flávio Dino, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

    Como funcionaria o esquema, segundo o delator

    Em petição enviada à PF, a defesa de Gilbson Júnior relatou que a missão dele era procurar empresas credoras do governo estadual nas gestões passadas e propor o pagamento das dívidas na administração atual. A contrapartida seria a devolução de parte do valor recebido. O delator diz ter recebido uma lista de processos – reproduzida em foto entregue aos investigadores – com débitos superiores a R$ 5 milhões.

    O grupo que, segundo ele, comandava a operação envolveria o governador, o irmão Marcus Brandão e outros aliados próximos. As reuniões teriam ocorrido dentro do Palácio dos Leões, sede do Executivo maranhense, onde Gilbson afirma ter transportado dinheiro em espécie.

    Documento manuscrito com números de processos

    • A listagem conteria processos de cobrança contra o Estado, indicando qual empresa seria abordada.
    • O papel, segundo a defesa, foi repassado a Gilbson como roteiro de trabalho.
    • A PF agora cruza a numeração com dados da Secretaria da Fazenda para identificar a trajetória de cada pagamento.

    Etiqueta de dinheiro e rastreio bancário

    Outro ponto considerado sensível é a foto de uma etiqueta de maço de notas de R$ 100. A identificação impressa — agência, data e valor — pode permitir rastrear quem retirou o montante. Peritos ouvidos pelo inquérito avaliam se é possível reproduzir o caminho do dinheiro até chegar às mãos do grupo descrito pelo delator.

    Foto do carro usado nas entregas

    Para reforçar a narrativa de pagamentos mensais, a defesa apresentou a imagem de um automóvel estacionado em frente à residência do pai de Gilbson. O veículo seria dirigido por um homem identificado como Erick, motorista de Marcus Brandão. A placa está legível e já foi consultada nos sistemas da PF para confirmar a propriedade.

    Pagamentos de R$ 30 mil por mês e a quebra do acordo

    De acordo com o depoimento, após o assassinato no Tech Office, o grupo político decidiu pagar R$ 30 mil em espécie ao condenado para evitar que ele revelasse a verdadeira motivação do crime — uma discussão sobre divisão de propina. Com o passar dos meses, o valor teria caído à metade, o que levou a família de Gilbson a procurar a Polícia Federal.

    Nesse período, os repasses aconteceriam na porta da casa dos pais do preso. A defesa afirma ter apresentado à PF capturas de tela com contatos telefônicos, registros de entrada de chamadas e até o recibo do pagamento que gerou a briga e culminou no homicídio.

    A morte que desencadeou a investigação

    O assassinato ocorreu em agosto de 2022, em plena luz do dia, dentro de um centro empresarial movimentado de São Luís. Inicialmente, a Polícia Civil classificou o crime como resultado de desavença pessoal. Em 2024, Gilbson Júnior foi julgado e condenado como único autor dos disparos. A entrada da Polícia Federal no caso, porém, redesenhou o cenário: a corporação encontrou indícios de que a discussão tinha por pano de fundo a partilha de propinas vindas de contratos públicos.

    As investigações apontam que outras pessoas estavam presentes na reunião que terminou em morte, entre elas Daniel Brandão, então presidente do TCE-MA. Foi esse elo entre a cúpula do governo e o homicídio que levou o ministro Flávio Dino a determinar o afastamento de Daniel do cargo na Corte de Contas.

    Reações dos citados

    Governador Carlos Brandão

    Em nota, o chefe do Executivo maranhense classificou as acusações como “inadmissíveis” e afirmou ser “revoltante” ver o depoimento de um “réu confesso” pautar o debate público. Brandão disse ter 35 anos de vida pública sem processos até o recente rompimento político que, segundo ele, motivou ataques à sua reputação. O governador sustenta não haver prova concreta contra si e reclama que sua defesa ainda não teve acesso integral ao inquérito.

    Daniel Brandão

    Afastado do comando do TCE-MA, o sobrinho do governador declarou que provará “absoluta inocência” e se colocou à disposição das autoridades. Ele confirmou que esteve no local do homicídio, mas nega qualquer ligação com cobrança de propina.

    Outros envolvidos

    Até o momento, Marcus Brandão e o motorista citado não se pronunciaram publicamente. A reportagem solicitou, mas não recebeu resposta até o fechamento deste texto.

    Próximos passos da investigação

    A Polícia Federal aguarda resultados de perícias nos documentos e nas mídias apresentadas para decidir se pedirá diligências complementares ou novas quebras de sigilo bancário e telefônico. A Procuradoria-Geral da República já opinou pelo envio do caso à Justiça Federal de primeira instância, entendimento que ainda será analisado pelo STF.

    Paralelamente, a Controladoria-Geral da União estuda abrir procedimento administrativo para vasculhar contratos firmados pelo governo do Maranhão com as empresas listadas no documento manuscrito. Caso sejam confirmados pagamentos suspeitos, executivos poderão ser responsabilizados por participação em esquema de devolução de valores ao grupo político.

    Impacto político no Maranhão

    O caso estourou a poucos meses do ano pré-eleitoral e já provoca desgaste no Palácio dos Leões. Embora pesquisas internas — citadas pelo próprio governador — indiquem aprovação superior a 70%, líderes de oposição articulam convocações na Assembleia Legislativa para que secretários e servidores prestem esclarecimentos.

    Entre aliados, o discurso é de confiança na inocência de Brandão, mas há receio de que uma denúncia formal da PF reverbere nacionalmente e contamine possíveis alianças de 2026. Nos bastidores, fala-se em reorganização de cargos estratégicos, especialmente na área financeira, para afastar suspeitas de uso político da máquina estadual.

    Possíveis desdobramentos judiciais

    Se confirmada a participação de agentes públicos, o Ministério Público Federal pode oferecer denúncia por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Dependendo do avanço das provas, o caso pode chegar ao STJ ou ao próprio STF, caso permaneçam autoridades com foro privilegiado.

    Gilbson Júnior, por sua vez, pleiteia redução da pena em troca da colaboração. O benefício dependerá da utilidade das informações prestadas e da comprovação de que ele não ocultou fatos relevantes. A defesa negocia com a PF um eventual acordo de delação premiada.

    O inquérito segue sob sigilo. Novas manifestações oficiais devem ocorrer somente após a conclusão dos laudos periciais e análise do Ministério Público.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.