Uma força-tarefa formada por 40 voluntários da ONG Por1Sorriso desembarcou nesta segunda-feira (17) na Aldeia Ilha Grande, Território Indígena do Xingu, para realizar uma semana inteira de atendimento odontológico gratuito a cerca de 170 pessoas das etnias Ikpeng e Kaiabi. A estrutura móvel de consultórios, montada em Querência — município a 912 km de Cuiabá —, permanecerá até 22 de agosto com o objetivo de realizar mais de mil procedimentos e repassar orientações de saúde bucal.
É a terceira vez que a organização chega ao Xingu, agora com apoio logístico do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI Xingu) e aporte financeiro da Embaixada da Nova Zelândia. A mudança para o polo Pavuru, considerado ponto mais acessível, pretende ampliar o alcance da ação e facilitar o retorno de pacientes em futuras etapas.
Estrutura em campo reduz espera de meses para dias
Ao erguer consultórios completos dentro da comunidade, a ONG consegue condensar, em poucos dias, tratamentos que normalmente exigiriam deslocamentos longos até centros urbanos e meses de espera na rede pública. “Quando chegamos com toda a infraestrutura, conseguimos resolver de imediato casos que dificilmente teriam acompanhamento contínuo por causa da distância”, explica Juliana Fanaro, diretora de ações da Por1Sorriso.
A prioridade é atender indígenas previamente selecionados pelas equipes de saúde e lideranças locais. Os pacientes vêm de diversas aldeias do Médio e Baixo Xingu, ligadas aos Polos Base Pavuru e Diauarum. Cada um pode passar por múltiplos procedimentos, o que faz a meta de mil intervenções ser alcançada rapidamente. Entre as demandas mais frequentes estão tratamento de canal, extrações, cirurgias de baixa complexidade e confecção de próteses.
Especialidades oferecidas
- Dentística restauradora
- Endodontia (tratamento de canal)
- Cirurgia oral menor
- Odontopediatria
- Próteses parciais e totais
Dez anos de estrada e mais de 100 mil procedimentos
Fundada em 2016 pelo cirurgião-dentista Felipe Rossi, a Por1Sorriso comemora uma década de atuação em 2026 com números expressivos: mais de 100 mil procedimentos gratuitos realizados para 30 mil pacientes em 40 cidades de dez estados brasileiros. O formato itinerante também já levou voluntários a comunidades no Quênia e em Moçambique.
Todo o trabalho é mantido por doações de pessoas físicas, parcerias com empresas e editais de cooperação internacional, que garantem desde a compra de insumos até o transporte de equipamentos para áreas de difícil acesso. Entre os voluntários há dentistas de várias especialidades, protéticos, auxiliares e equipes de apoio administrativo.
Compromisso de longo prazo
Para evitar que o cuidado se encerre com a retirada dos consultórios, a ONG articula o acompanhamento posterior com dentistas que já atuam no território. A intenção, segundo Juliana Fanaro, é retornar ao Xingu no próximo ano e monitorar os resultados obtidos. “Só faz sentido se pudermos ver a evolução dos pacientes e aperfeiçoar o que foi iniciado”, afirma.
Educação em saúde como legado
Além dos atendimentos clínicos, a missão inclui rodas de conversa, distribuição de kits de higiene e oficinas lúdicas para crianças, abordando escovação correta, uso de fio dental e alimentação saudável. A metodologia foi desenvolvida para respeitar a cultura local: materiais visuais são traduzidos para os idiomas das etnias e atividades são conduzidas por monitores indígenas sempre que possível.
Para o DSEI Xingu, essas ações preventivas ajudam a reduzir casos de cárie em comunidades onde o acesso a insumos básicos, como creme dental fluoretado, ainda é limitado. O órgão também participa no transporte de pacientes de aldeias distantes até a Ilha Grande e fornece alojamento aos voluntários.

Imagem: Internet
Missões anteriores e escolha do novo polo
As duas primeiras passagens da Por1Sorriso pelo Xingu ocorreram em 2018 e 2025, ambas na região do Território Indígena Wawi. Em 2026, a equipe decidiu mudar o foco para a Ilha Grande, ponto considerado estratégico por receber moradores de aldeias dispersas às margens do rio Xingu. A previsão é que a mudança permita ampliar em 30 % o número de pessoas contempladas em relação à última visita.
Segundo as lideranças Ikpeng e Kaiabi, a presença de serviços especializados dentro do território gera confiança e adesão. “Muitos têm medo de sair para a cidade, porque não falam português ou se sentem inseguros. Quando o atendimento vem até nós, todos participam”, relata um dos caciques envolvidos na organização local.
Logística desafiadora
Todo o material clínico — cadeiras odontológicas portáteis, compressores, autoclaves e geradores — viajou por estrada até a base do DSEI em Canarana e, de lá, seguiu de caminhão em trajeto de 180 km por vias não pavimentadas. Uma vez na aldeia, as equipes trabalharam durante o fim de semana para erguer a tenda principal, instalar pontos de energia e garantir abastecimento de água tratada.
Rede de apoio e financiamento
A edição atual conta com investimento da Embaixada da Nova Zelândia, que liberou recursos por meio de seu Fundo de Parceria para Desenvolvimento Comunitário. O montante cobre a compra de materiais descartáveis, medicamentos e parte da logística. Empresas do setor odontológico doaram resinas, anestésicos e equipamentos de proteção individual.
Já o DSEI Xingu cedeu veículos, combustível e agentes de saúde bilíngues que fazem a ponte entre os profissionais e as famílias indígenas. A prefeitura de Querência disponibilizou alojamento para as equipes em trânsito e o transporte de grandes volumes do aeroporto regional até a base terrestre.
Expectativa de impacto
Com a entrega prevista de 30 próteses totais, 50 próteses parciais removíveis e dezenas de tratamentos endodônticos, a Por1Sorriso estima que ao menos 80 % dos pacientes atendidos voltarão às aldeias sem dor ou infecção ativa. Para muitos, será a primeira vez diante de equipamentos de radiografia digital e resinas estéticas, tecnologia ainda rara nas regiões isoladas do Xingu.
No encerramento da missão, a equipe coletará dados clínicos e relatos das famílias para compor um relatório que servirá de base para novas captações de recursos. O documento também será compartilhado com o Ministério da Saúde e poderá orientar políticas de atenção básica em territórios indígenas.
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