Dois meses depois de sofrer traumatismo craniano e múltiplas fraturas ao cair junto com a Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira (AC), o juiz aposentado Edinaldo Muniz, 54 anos, voltou a ficar em pé. Ainda internado no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, ele deu os primeiros passos com auxílio de um andador, como mostram imagens divulgadas pela família neste fim de semana.
O avanço devolve esperança após uma sequência de nove cirurgias e 13 dias em UTI. Edinaldo era uma das quatro pessoas que estavam sobre a estrutura na noite de 5 de junho, quando a ponte, inaugurada há menos de seis meses, veio abaixo. Dos feridos, apenas o magistrado segue hospitalizado.
Primeiros passos após nove intervenções cirúrgicas
Segundo a irmã, Edileuza Muniz, o paciente iniciou na última semana o protocolo intensivo de fisioterapia para membros inferiores e superiores. O trabalho busca restaurar mobilidade e força muscular perdidas durante o longo período de imobilização. “Cada dia observamos evolução; é impressionante a determinação dele”, relatou.
O quadro considerado mais crítico — um traumatismo craniano — exigiu intervenção neurológica logo nos primeiros dias de internação em Rio Branco. Depois, vieram cirurgias ortopédicas, reparo abdominal e procedimentos renais. A transferência para a capital paulista, realizada em UTI aérea no dia 18 de junho, visou acesso a centro de referência em neurocirurgia.
Sessões de fisioterapia intensificadas
Agora em fase de reabilitação, Edinaldo participa de duas sessões diárias de fisioterapia motora, além de terapia ocupacional para readaptação a atividades cotidianas. Médicos estimam que ele possa deixar o hospital ainda neste semestre, caso não surjam complicações.
Relembre o desabamento
A Ponte Frei Paolino Baldassari, com 232 metros de extensão e custo de R$ 36 milhões, afundou sobre o Rio Iaco apenas 169 dias após a inauguração, jogando no leito 60% da estrutura. Câmeras de segurança registraram o exato momento em que o tabuleiro se partiu. Na ocasião, o juiz transmitia uma live para alertar moradores sobre o risco de colapso — a prefeitura havia interditado o tráfego desde o dia anterior.
Conforme relatório preliminar do Corpo de Bombeiros, rachaduras visíveis e movimentação no solo foram detectadas dias antes. Técnicos da Construtora Cidade, responsável pela obra, atribuíram o desabamento ao fenômeno regional conhecido como “terras caídas” — processo de erosão que provoca o deslocamento das margens dos rios amazônicos.
Outros feridos já receberam alta
Entre as quatro vítimas, o motorista Weverton Murieta, 34 anos, deixou o hospital em 7 de junho com escoriações leves. Dois dias depois, recebeu alta o advogado Edinei Muniz, 51 anos, primo do magistrado, que havia sofrido fratura em um dos braços. No dia 11, o técnico em enfermagem Antônio Morais Lima Filho, 36 anos, saiu do Pronto-Socorro de Rio Branco após cirurgia ortopédica e drenagem torácica.
Construtora tem bens bloqueados
Enquanto as vítimas se recuperam, a Justiça Estadual determinou, em 12 de junho, o bloqueio de até R$ 36 milhões em bens da Construtora Cidade. A decisão, tomada pela Vara Cível de Sena Madureira a pedido do Ministério Público do Acre (MP-AC), pretende garantir recursos para eventuais indenizações e reconstrução da ponte.

Imagem: Internet
Documentos sob guarda judicial
O despacho judicial mandou preservar projetos, relatórios de fiscalização e medições da obra. Governo e empresa têm até 15 dias úteis para apresentar apólices de seguro e comprovar comunicação do sinistro às seguradoras. Um laudo oficial sobre as causas do colapso deve ser concluído em até 30 dias.
Investigações em curso
A Polícia Civil prorrogou o inquérito que apura responsabilidade técnica e criminal, aguardando o laudo pericial do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Paralelamente, o MP-AC conduz procedimento administrativo para averiguar possível falha de projeto, execução ou utilização de material inadequado.
Além da retomada da travessia, a Justiça impôs que Estado e empresa apresentem, no mesmo prazo do laudo, um plano de remoção de escombros e cronograma de reconstrução, bem como ações emergenciais para manter trafegável a Estrada Mário Lobão, principal ligação entre bairros rurais do município.
Impacto na rotina de Sena Madureira
Sem a ponte, moradores passaram a percorrer até 40 km adicionais por rotas alternativas de terra para acessar serviços de saúde, educação e comércio. Protestos bloquearam, no fim de junho, trechos da rodovia AC-090, cobrando soluções imediatas do governo estadual.
Economia local afetada
Produtores rurais relatam dificuldade para escoar hortifrutigranjeiros, elevando custos de frete e redução do abastecimento. A Associação Comercial de Sena Madureira estima queda de 30% nas vendas de pequenos estabelecimentos das comunidades isoladas.
Próximos passos da recuperação de Edinaldo Muniz
Os médicos programam alta hospitalar assim que o juiz atingir autonomia para caminhar sem suporte contínuo de oxigênio e conseguir cumprir tarefas básicas sem risco. Após a saída, ele deverá permanecer em São Paulo por pelo menos mais um mês, fazendo reabilitação ambulatorial.
A família abriu campanha de doações para custear estadia e medicamentos não cobertos pelo Tratamento Fora de Domicílio (TFD) concedido pela Secretaria de Saúde do Acre. Apesar das sequelas, Edinaldo declarou, por meio de nota, esperar “voltar a Sena Madureira para agradecer pessoalmente o carinho da população e acompanhar de perto a reconstrução da ponte”.
