Alckmin chama críticas de Milei ao Brasil de “lamentáveis”, mas diz que Mercosul segue fortalecido

    0

    O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, classificou como “lamentáveis” as recentes declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o governo brasileiro. Segundo Alckmin, o tom adotado pelo vizinho é um “desserviço” à própria Argentina, mas não tem força para travar a integração econômica em curso no Mercosul. “O bloco atravessa um momento favorável”, afirmou, citando acordos firmados com Singapura, a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e a União Europeia, além do interesse da Coreia do Sul em fechar entendimento comercial com o grupo sul-americano.

    As declarações foram dadas em São Paulo, ao fim da Brazil-Korea Business Roundtable, que reuniu empresários brasileiros e sul-coreanos na presença do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung. O encontro marcou mais um passo na aproximação econômica entre os dois países, enquanto Alckmin reforçava que tensões políticas externas, como a trocada com Milei ou a disputa tarifária com os Estados Unidos, não desviam o Brasil da agenda de abertura de mercados e diversificação de parcerias.

    Integração regional sem abalo

    Alckmin evitou prolongar a polêmica com o mandatário argentino, mas ressaltou que a retórica de Milei “não contribui com a estabilidade necessária para atrair investimentos” e, por isso, prejudica principalmente Buenos Aires. Mesmo assim, frisou, o comércio intrabloco avança, impulsionado pelos recentes tratados assinados e pela intenção de negociar novas frentes com países da Ásia-Pacífico.

    Para o vice-presidente, o êxito do Mercosul neste momento se deve à postura de negociar coletivamente, sem embargo de eventuais divergências políticas entre governos. “Comércio é ponte, não muro”, resumiu. Ele também reforçou que o Planalto seguirá trabalhando para reverter as sobretaxas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, mas sem recorrer a retaliações precipitadas. “Reciprocidade existe como instrumento, não como vingança”, declarou.

    Brasil e Coreia miram dobrar fluxo comercial

    Em 2025, o intercâmbio comercial entre Brasil e Coreia do Sul somou US$ 10,8 bilhões, enquanto o estoque de investimentos sul-coreanos no país atingiu US$ 8,9 bilhões. Diante de uma plateia de executivos de setores como automotivo, semicondutores, energia e defesa, Alckmin lançou a meta de “quase dobrar” esses números até o fim da década.

    A rodada de negócios foi organizada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações (ApexBrasil) e pela Federação das Indústrias da Coreia (FKI) e integrou a visita oficial de Lee Jae Myung. No dia anterior, em Brasília, os dois governos assinaram sete memorandos de entendimento nas áreas de minerais críticos, energia, tecnologia industrial, atividades espaciais, segurança de redes, educação e audiovisual.

    Parceria deixa de lado a venda de matéria-prima

    O vice-presidente destacou que a meta brasileira é avançar da simples exportação de insumos para projetos de coprodução e transferência de tecnologia. “Não basta mandar minério bruto; queremos processar e industrializar em parceria”, insistiu. Ele citou a cadeia de lítio, essencial para baterias, e a de terras-raras, insumos chave para a indústria eletrônica sul-coreana.

    Na mesma linha, Alckmin apontou o potencial de expansão de centros de dados e projetos de inteligência artificial em território brasileiro. A matriz elétrica majoritariamente renovável, a disponibilidade hídrica e a previsibilidade regulatória foram apresentadas como trunfos nacionais para atrair empresas de tecnologia de ponta.

    Aeroespacial, carne e café na pauta

    O setor aeroespacial ganhou atenção especial: a Coreia do Sul foi o primeiro país asiático a adquirir o cargueiro KC-390 produzido pela Embraer e prevê, para setembro, o lançamento de um foguete próprio a partir do Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão. Segundo Alckmin, a cooperação nessa área “abre horizontes que vão do satélite ao desenvolvimento conjunto de novos aviões”.

    Na agricultura, Suwon enviará em agosto uma missão para vistoriar frigoríficos brasileiros como etapa final para a habilitação de novas plantas exportadoras de carne bovina. “Temos o maior rebanho comercial do planeta, aliado a rigor sanitário e baixa pegada de carbono”, argumentou o vice-presidente.

    Já o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, lembrou que o Brasil responde por apenas 1% do total de importações coreanas – algo em torno de US$ 600 bilhões anuais. A cifra evidencia, segundo ele, amplo espaço para crescimento em proteínas animais, frutas, biocombustíveis, defesa, mineração e fármacos. No nicho de cafés especiais, contudo, o Brasil já ocupa posição de destaque: quatro em cada dez xícaras consumidas na Coreia têm grãos brasileiros.

    Indústria e inovação no radar

    O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, listou gigantes como Samsung, LG e Posco para ilustrar a presença coreana no Brasil. Ele ressaltou que novas frentes se concentram em inteligência artificial, soberania digital, descarbonização e propriedade intelectual – tema citado pela delegação coreana como crucial para expandir investimentos.

    Na agenda verde, o ministro defendeu o etanol, o bioetanol e o biogás como combustíveis de baixa emissão capazes de conciliar competitividade econômica e ambiente. Também apontou o agronegócio e a indústria de cosméticos – ainda com vendas tímidas ao mercado coreano – como segmentos prontos para escalar exportações com valor agregado.

    EUA fora da conversa, mas na estratégia

    Perguntado sobre a influência das tarifas aplicadas por Washington na busca de novos parceiros, Alckmin negou que o assunto tenha sido discutido no encontro com os coreanos. Reiterou, porém, que o Palácio do Planalto mantém diálogo permanente com os Estados Unidos e presta auxílio direto às empresas atingidas. A estratégia oficial se apoia em três frentes: suporte às companhias, diversificação de mercados e negociação diplomática.

    Para Alckmin, a ampliação de acordos multilaterais é a melhor resposta a eventuais barreiras. “Abrir mercados gera produtos melhores, mais baratos e impulsiona a competitividade interna”, disse, em defesa do multilateralismo regulado pela Organização Mundial do Comércio.

    Próximos passos

    Nos próximos meses, Brasil e Coreia aceleram consultas internas para retomar a mesa de negociação entre o país asiático e o Mercosul. A expectativa dos dois lados é concluir, ainda em 2027, um acordo que reduza tarifas industriais, normalize barreiras fitossanitárias e estabeleça capítulos específicos de comércio digital e economia verde.

    Enquanto isso, a chancelaria brasileira monitora a relação com a Argentina, buscando impedir que a retórica de Milei extrapole o campo político e atinja fluxos comerciais. O vice-presidente confia que a “força do mercado” falará mais alto do que eventuais tensões retóricas. “Os empresários querem previsibilidade. E é isso que vamos garantir”, concluiu.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.