Lula usa fenômeno K para destacar novos acordos com a Coreia do Sul

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    Em meio a um encontro marcado por assinaturas de acordos econômicos e tecnológicos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu ao sucesso dos doramas e da animação “Guerreiras do K-Pop” para ilustrar a proximidade cultural entre brasileiros e sul-coreanos. Ao lado do chefe de Estado da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, Lula afirmou que “a juventude brasileira se vê refletida na música, na gastronomia e nas séries coreanas”, e usou o exemplo para defender a ampliação da cooperação bilateral.

    A visita oficial ocorre num momento em que o governo brasileiro busca diversificar parceiros comerciais para atenuar os efeitos das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. A comitiva asiática chegou a Brasília com empresários e a primeira-dama sul-coreana, que manterá agenda cultural em São Paulo, enquanto os presidentes concentraram-se na assinatura de memorandos sobre minerais críticos, inovação digital e abertura de mercado agropecuário.

    Visita de Estado reforça parceria estratégica

    Retrospecto de encontros

    Lee Jae-myung desembarcou no Palácio da Alvorada cinco meses depois de receber Lula em Seul. Embora o petista tenha visitado o país asiático em 2005 e 2010, a viagem de fevereiro deste ano foi a primeira com o status de Visita de Estado, reservado a agendas de alto nível diplomático. O retorno de cortesia confirma a intenção de transformar a cooperação Brasil-Coreia em política de longo prazo.

    Na recepção, o presidente brasileiro elogiou a trajetória sul-coreana de investimentos em educação, pesquisa e indústria, fatores que, segundo ele, “colocaram o país entre as potências tecnológicas do planeta”. Lee respondeu citando a vocação brasileira para a produção de energia limpa e alimentos, áreas onde enxerga “sinergias imediatas”.

    Acordos assinados

    • Memorando para exploração, processamento e reciclagem de minerais críticos e terras raras;
    • Parceria em inteligência artificial voltada a cadeias produtivas sustentáveis;
    • Convênio de intercâmbio cultural, com foco em audiovisual e preservação de patrimônios imateriais;
    • Entendimento sobre segurança cibernética e combate a crimes transnacionais;
    • Compromisso de acelerar a negociação comercial entre Mercosul e Coreia do Sul.

    Minerais críticos entram na mira dos dois governos

    Do subsolo brasileiro às fábricas asiáticas

    O documento mais aguardado foi o que trata dos chamados minerais críticos — lítio, nióbio, cobalto e terras raras, insumos essenciais para a produção de baterias, semicondutores e ímãs de motores elétricos. Pelo texto, Brasília e Seul passam a cooperar em todo o ciclo de vida desses recursos: prospecção, extração, beneficiamento, logística, reciclagem e descarte. A expectativa é oferecer previsibilidade de oferta às indústrias sul-coreanas de alta tecnologia, ao mesmo tempo em que o Brasil agrega valor a sua mineração.

    Lula mencionou que “a transição energética precisa de minerais estratégicos, mas também de regras trabalhistas e ambientais claras”, sinalizando que o Palácio do Planalto exigirá contrapartidas de transferência de tecnologia e respeito a normas socioambientais em eventuais concessões. Lee, por sua vez, destacou que o acordo “cria base estável de fornecimento” para empresas coreanas e abre espaço para investimentos em infraestrutura de transporte no território brasileiro.

    Mercado agropecuário no radar

    A equipe econômica brasileira pressionou para avançar na abertura do mercado sul-coreano a produtos como carne bovina, aves processadas e frutas tropicais. Técnicos agrícolas dos dois países farão visitas recíprocas nos próximos meses. Segundo o Itamaraty, caso o acesso se confirme, o setor pecuário nacional pode ganhar um dos maiores consumidores de proteína animal da Ásia com tarifas competitivas.

    Impacto do “tarifaço” dos EUA

    Os entendimentos com Seul tornaram-se ainda mais estratégicos depois que Washington elevou impostos sobre aço, alumínio e bens manufaturados brasileiros. O Planalto vê na Coreia do Sul um canal alternativo para escoar produtos industrializados e, ao mesmo tempo, receber componentes eletrônicos e automotivos em condições mais favoráveis.

    Intercâmbio cultural e tecnológico

    Séries, música e cinema como pontes

    A popularidade de dramas televisivos e grupos de K-pop entre os jovens do país foi tratada como ativo diplomático. O acordo cultural prevê coproduções audiovisuais, intercâmbio de estudantes de cinema e a realização de mostras temáticas em ambos os territórios. A animação “Guerreiras do K-Pop”, citada por Lula, já é exibida em canais infantis nacionais e deve ganhar versão dublada em coreano com participação de estúdios brasileiros.

    Hospitais inteligentes e 5G

    Na área de saúde, as delegações discutiram a adoção de plataformas de monitoramento remoto de pacientes e prontuários eletrônicos integrados, tecnologias nas quais conglomerados coreanos despontam. O Ministério da Saúde brasileiro estuda implementar projetos-piloto em hospitais universitários, com financiamento compartilhado.

    Próximos passos

    Para manter o ímpeto, autoridades definiram um calendário semestral de reuniões ministeriais. A primeira, sobre agricultura e sanidade animal, ocorrerá em Seul em novembro. Já em janeiro, Brasília receberá especialistas em semicondutores e baterias para detalhar oportunidades nos polos industriais do Sudeste e do Nordeste.

    Lula encerrou o discurso defendendo “um mundo governado pela cooperação, não pela imposição”, numa alusão às tensões comerciais globais. Ao citar doramas e K-pop, o presidente quis mostrar que, antes dos contratos e tabelas de tarifas, há um terreno fértil de afinidades entre as populações dos dois países — terreno que os governos pretendem transformar em parcerias de alto impacto econômico, tecnológico e cultural.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.