A Convenção Nacional do Partido Novo confirmou, nesta segunda-feira (27), o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema como candidato à Presidência da República nas eleições de 2026. A aclamação, realizada em Brasília, ocorreu de forma unânime e sem a indicação de um nome para a vice-presidência, lacuna que a legenda promete preencher “nas próximas semanas”.
Ao agradecer a confiança dos correligionários, Zema afirmou possuir “todas as credenciais” para comandar o país, reforçou sua trajetória como empresário e intensificou críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Partido dos Trabalhadores (PT), alegando que “o Brasil não aguenta mais quatro anos de Lula”.
Discurso focado em gestão e ataques ao STF
Em um auditório lotado, o presidenciável defendeu o que chama de “experiência real” no setor privado como diferencial em relação aos adversários. “Sou o único que conhece o Brasil que acorda cedo para trabalhar”, disse, repetindo um mote usado nas prévias internas do Novo. O ex-governador citou ainda a melhoria de indicadores fiscais em Minas Gerais durante seu governo – iniciado em 2019 e encerrado em março deste ano, quando renunciou para entrar na corrida ao Palácio do Planalto.
Boa parte da fala, entretanto, foi dedicada a atacar ministros do STF. Zema lembrou ser alvo de uma ação do ministro Gilmar Mendes e associou membros da Corte ao escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Nos últimos dias, o candidato publicou vídeos satirizando Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, movimento que gerou reação de entidades jurídicas e de parlamentares.
Joaquim Barbosa como possível vice
Sem vice definido, Zema voltou a mencionar o nome do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa como alternativa “ideal” para compor a chapa. Segundo o ex-governador, Barbosa “representa o oposto de vários ministros atuais” e seria um símbolo de combate à corrupção. O diálogo entre ambos, garante o Novo, já foi iniciado, mas não há previsão de anúncio.
O partido chegou a negociar com o empresário Geraldo Rufino, filiado ao Podemos, porém o empreendedor optou por disputar uma vaga ao Senado por São Paulo. Internamente, a ala que defende uma união com siglas de centro tenta atrair nomes capazes de ampliar o tempo de TV e furar a bolha do eleitorado liberal.
Alinhamento e distanciamento dos Bolsonaro
Zema mantém relação oscilante com o bolsonarismo. Em 2022, apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno, mas, nesta campanha, trocou farpas com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência. O estopim foi a proximidade do parlamentar com Vorcaro, acusado de fraude bilionária no setor financeiro. O mineiro repudiou “qualquer vínculo com banqueiros envolvidos em esquemas” e rechaçou rumores de que poderia ser vice na chapa do PL.
Apesar do atrito, dirigentes do Novo não descartam diálogo com potenciais eleitores ligados à direita conservadora. “Queremos o voto de quem acredita em responsabilidade fiscal e liberdade, mas sem aparelhamento do Estado”, afirmou o presidente da sigla, Eduardo Ribeiro, ao anunciar a candidatura.
Porta-voz do “antipetismo”
Ribeiro aproveitou o evento para comparar a gestão de Zema em Minas com administrações petistas anteriores. “Mostramos que é possível derrotar o PT com boa gestão, integridade e coragem. Vamos repetir a dose em nível nacional”, discursou, sob aplausos. O bordão “enterrar o PT” foi entoado por militantes que lotavam o salão principal do centro de convenções.
Trajetória política e empresarial
Natural de Araxá, no Triângulo Mineiro, Romeu Zema Neto tem 61 anos e formou-se em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Herdeiro de uma rede varejista de eletrodomésticos, comandou a expansão do grupo familiar no interior do estado por três décadas antes de ingressar na vida pública. Filiou-se ao Novo em 2018, ano em que se elegeu governador de Minas Gerais com discurso liberal e promessa de “romper com a velha política”.
À frente do governo estadual, implantou medidas de austeridade, renegociou a dívida mineira e priorizou a atração de investimentos privados. Críticos apontam, porém, cortes em áreas sociais e embates com servidores. Em março de 2026, deixou o cargo para atender ao prazo legal de desincompatibilização e intensificar a pré-campanha pelo país.

Imagem: Internet
Agenda de campanha e próximos passos
Os estrategistas do Novo programaram viagens de Zema a todas as regiões nas próximas seis semanas, com foco nos estados do Sul e do Centro-Oeste, onde o partido obteve desempenho expressivo nas últimas eleições proporcionais. A meta é apresentar propostas para reforma administrativa, privatização de estatais e redução da carga tributária – temas que aparecerão no plano de governo a ser entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até agosto.
Paralelamente, a cúpula negocia alianças pontuais para fortalecer candidaturas a governador e senador. “Não fazemos coligações loteando ministérios, mas dialogamos em torno de princípios”, disse o secretário-geral da legenda, Tiago Mitraud. Nos bastidores, conversa-se com o Cidadania e setores do PSDB que resistem a uma eventual federação com o MDB.
Desafios jurídicos no horizonte
Os ataques de Zema ao STF podem desencadear novas ações judiciais. Integrantes do tribunal avaliam que a campanha flerta com a litigância temerária ao atribuir condutas ilícitas a ministros sem apresentar provas. A assessoria jurídica do Novo, porém, afirma que “todas as declarações possuem lastro em reportagens e documentos” e que o candidato “exerce o direito constitucional de crítica”.
Além disso, a Procuradoria-Geral Eleitoral monitora o conteúdo digital do presidenciável para verificar eventual abuso de poder econômico, já que empresários próximos ao ex-governador têm financiado a produção de vídeos e caravanas. Se houver indícios de irregularidade, o Ministério Público poderá representar no TSE.
Reação do mercado e de lideranças políticas
Analistas do mercado financeiro veem a candidatura de Zema como “pró-reforma” e apostam em continuidade da agenda liberal, caso ele chegue ao Planalto. A B3 registrou leve alta em papéis de estatais após o discurso, reflexo da defesa de privatizações. No Congresso, a movimentação foi recebida com cautela. Parte da bancada ruralista simpatiza com o mineiro, mas aguarda a escolha do vice e o detalhamento de pautas ambientais antes de declarar apoio.
No campo da esquerda, parlamentares do PT e do PSOL classificaram o lançamento como “mais uma candidatura do rentismo” e criticaram o tom agressivo contra o Supremo. Já o União Brasil e o PSD mantiveram posição de neutralidade, à espera dos índices de intenção de voto que devem sair após a oficialização das chapas em agosto.
O que falta para completar a chapa
Com o relógio eleitoral correndo, o Partido Novo trabalha para anunciar o vice antes do início oficial da propaganda, em setembro. A sigla procura alguém que una densidade eleitoral, trajetória ética e perfil técnico. Além de Joaquim Barbosa, circulam nos bastidores os nomes da senadora Soraya Thronicke (MS) e do economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, embora ambos não confirmem tratativas.
Independentemente da escolha, Zema promete manter o foco em “disciplina fiscal, Estado enxuto e respeito a contratos”. A campanha acredita que o discurso ressoa especialmente entre jovens empreendedores e servidores públicos insatisfeitos com estruturas “inchadas”. Pesquisas internas do partido indicam potencial de crescimento entre eleitores que votaram em Simone Tebet ou em Ciro Gomes em 2022 e que, agora, buscam alternativa fora do eixo Lula-Bolsonaro.
Próximas datas-chave
- Agosto: entrega do programa de governo ao TSE;
- Início de setembro: definição do vice e lançamento da coligação (se houver);
- 20 de setembro: estreia do horário eleitoral gratuito em rádio e TV;
- 6 de outubro: primeiro turno das eleições gerais.
Até lá, Zema seguirá percorrendo o país, defendendo um “choque de gestão” semelhante ao aplicado em Minas Gerais. Resta saber se o discurso liberal, somado aos ataques ao Supremo e à promessa de derrotar o PT, encontrará eco suficiente no eleitorado para levá-lo ao segundo turno.
