Um ataque verbal ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e a convocação do embaixador argentino em Brasília pelo Itamaraty marcaram o fim de semana da política brasileira. O gatilho para a crise foi a participação do presidente da Argentina, Javier Milei, na convenção do PL que sacramentou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro ao Planalto em 2026.
Sem alianças formais fechadas e com o partido politicamente isolado, o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro transformou a presença de Milei em peça-chave para projetar musculatura ideológica, enquanto o argentino tentou reforçar sua imagem de liderança da direita regional em meio à queda de popularidade em casa.
Convite em meio a isolamento político
A convenção realizada no estádio do Pacaembu, em São Paulo, reuniu a cúpula do PL e simpatizantes, mas careceu de apoios partidários relevantes. A ausência de siglas do centrão, que preferiram postura de neutralidade, expôs fragilidades da candidatura. Ao colocar Milei no palco, Flávio buscou sinalizar coragem programática e radicalismo econômico, bandeiras que ecoam no seu eleitorado mais fiel.
Analistas, porém, veem limitações dessa estratégia. Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, o presidente argentino não deve converter eleitores de centro nem atrair o voto feminino, ponto sensível para o senador. “A energia gerada fica restrita ao núcleo duro da direita”, resume.
O evento também serviu para unir no mesmo palanque o governador paulista Tarcísio de Freitas, pré-candidato à reeleição, e Flávio. No Palácio dos Bandeirantes, poucas horas antes, Tarcísio concedeu a Milei a Ordem do Ipiranga, maior honraria do Estado, reforçando a vitrine conservadora.
Discurso explosivo e reação do governo brasileiro
Ovacionado ao som de rock, Milei falou por quase 30 minutos em espanhol. No auge da fala, chamou Alexandre de Moraes de “lixo careca” por ter barrado visita que pretendia fazer a Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar. A declaração levou o Itamaraty a convocar o embaixador argentino, Daniel Scioli, para expressar “repulsa” e exigir explicações.
A chancelaria brasileira classificou a manifestação como “inaceitável intromissão em assuntos internos”. Em resposta reservada, Buenos Aires argumentou que se tratava de evento partidário, não de agenda oficial de Estado, tentativa de esvaziar o peso diplomático do episódio.
Estratégia regional de Milei
O giro pelo Brasil integra roteiro que inclui participações em posses ou reuniões com políticos conservadores no Peru, Equador e Colômbia. O objetivo declarado é impulsionar uma “onda liberal” na América Latina e preencher o vácuo de liderança após o enfraquecimento de mandatários como o chileno Gabriel Boric e o mexicano Andrés Manuel López Obrador.
Turnê para além de Flávio Bolsonaro
No Peru, Milei pretende prestigiar a posse de Keiko Fujimori; no Equador, debate reformas econômicas com Daniel Noboa; e, em Bogotá, se encontrará com Abelardo de la Espriella, outsider que surpreendeu ao vencer as eleições presidenciais com discurso ultraliberal. O roteiro reforça a aposta do argentino numa rede continental de aliados, replicando a estratégia que aproximou Donald Trump de lideranças da direita europeia.
Impacto eleitoral no Brasil
A despeito da visibilidade internacional, levantamentos recentes mantêm Flávio Bolsonaro em segundo lugar, atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O PL tenta colar no candidato a imagem de modernizador econômico, enquanto enfrenta desgaste com eleitores moderados por acusações de repasses do Banco Master para a cinebiografia do pai e pelas divergências públicas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

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Para o cientista político Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, a aproximação com Milei se insere em um “círculo de fogo” que governos alinhados a Trump tentam construir em torno do Brasil, de olho em pressões comerciais e narrativas ideológicas. A recente adoção de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, que Flávio diz ter tentado evitar sem sucesso, expõe a complexidade desse tabuleiro.
Crises na Casa Rosada e busca por palco externo
Se internamente Milei enfrenta desaprovação de 58%, segundo pesquisa AtlasIntel, no exterior ainda colhe elogios de parte do mercado por cortar gastos públicos e reduzir a inflação de três dígitos para 33% em junho. O contraste, porém, é evidente: salários e aposentadorias encolhem, e o fenômeno dos “trabalhadores pobres” se agrava.
Escândalos corroem a credibilidade do governo argentino. A renúncia de Manuel Adorni, ex-chefe de Gabinete, após suspeitas de patrimônio oculto, e áudios que vinculam Karina Milei a suposto esquema de propinas na agência estatal Andis, são exemplos. Há ainda investigação nos EUA sobre criptomoeda promovida pelo próprio presidente que derreteu em segundos. Todos negam irregularidades.
Vitória legislativa e limites do fôlego político
Mesmo pressionado, Milei garantiu, nas eleições de meio de mandato em outubro, avanço de sua coalizão no Congresso. Na sequência, a revista britânica The Economist celebrou medidas “sensatas, embora duras”. Dois meses depois, a publicação alertou: “Milei está em apuros”, apontando corrupção e recessão como freios ao experimento libertário.
Para Regiane Bressan, os reveses domésticos têm pouco peso quando Milei atua no exterior. “Lá fora, ele vende a imagem de reformador ousado; por dentro, enfrenta empobrecimento acelerado”, sintetiza a professora. Esse descolamento explica por que o presidente argentino vê em palanques aliados, como o de Flávio Bolsonaro, oportunidade de fortalecer sua marca política sem encarar o desgate interno.
Próximos capítulos
Enquanto o Itamaraty avalia os danos diplomáticos e Flávio corre contra o relógio para montar coligações, Milei deixa o Brasil com a convicção de ter falado para plateia receptiva. O episódio, contudo, elevou o termômetro entre Brasília e Buenos Aires e adicionou novo ingrediente às eleições de 2026: o peso — ou o limite — que líderes estrangeiros podem ter no voto do brasileiro.
Resta saber se o capital simbólico de Milei ultrapassará as fronteiras do nicho conservador ou se, ao contrário, servirá de munição para adversários enquadrarem Flávio Bolsonaro como porta-voz de uma agenda que, até agora, não conseguiu suavizar a desconfiança do centro.
