Entre uma multidão de mortos-vivos na tela e um enxame de fãs indignados fora dela, o diretor Zach Cregger estreia nesta quinta-feira (17) seu Resident Evil, longa que troca os célebres Chris Redfield e Leon Kennedy por um entregador atrapalhado. A ausência dos ídolos dos jogos gerou acusações de “traição” antes mesmo de a produção chegar aos cinemas, mas analistas de bilheteria projetam números robustos para o lançamento classificado para maiores de 18 anos.
Cregger, que ganhou notoriedade com o terror independente “Noites Brutais” (2022) e consolidou seu nome em “A Hora do Mal” (2024), responde dizendo que buscou preservar “a atmosfera de sobrevivência” do universo criado pela Capcom em 1996, ainda que tenha se afastado da cronologia original. “Copiar os games ao pé da letra renderia um filme de doze horas”, justifica.
Enredo condensado e ritmo alucinante
No novo longa, um mensageiro interpretado por Austin Abrams recebe a missão de transportar um recipiente médico até uma cidade isolada. O que deveria ser uma entrega rotineira converte-se em pesadelo quando ele descobre que o local foi dominado por infectados violentos. Sem treinamento militar nem arsenal de ponta, o protagonista precisa improvisar para escapar de ruas tomadas por cadáveres ambulantes.
A Umbrella Corporation — multinacional farmacêutica responsável pelo vazamento viral na mitologia da série — aparece pontualmente e vira alvo de piadas internas, sinalizando que a produção prefere a tensão contínua a grandes exposições de roteiro. Quase não há respiros: perseguições, becos apertados e munição escassa lembram partidas do gênero survival horror, ainda que comprimidas em 118 minutos de ação frenética.
Fidelidade em debate: o que os fãs contestam
Logo após os primeiros trailers, começaram os protestos em fóruns de jogos e redes sociais. O principal motivo: nenhuma menção aos heróis clássicos da franquia — caso de Jill Valentine, Claire Redfield ou Leon Kennedy. Uma ala mais radical acusa a Sony de “vender gato por lebre” ao usar o título Resident Evil num filme que, argumentam, poderia ostentar outro nome.
Não é a primeira vez que uma adaptação da marca gera discórdia. Entre 2002 e 2016, Paul W. S. Anderson dirigiu seis produções estreladas por Milla Jovovich, que colecionaram críticas pelo excesso de pirotecnia, mas arrecadaram o suficiente para manter a série viva. Já em 2022, a Netflix cancelou a própria tentativa de reinvenção após uma única temporada; a mistura de tramas adolescentes e referências pop virou meme na internet.
Evolução desigual nos videogames
- 1996-1999 – Trilogia original estabelece o survival horror: cenários claustrofóbicos, munição contada e quebra-cabeças.
- 2005 – “Resident Evil 4” injeta ação e câmera sobre o ombro, dividindo o público.
- 2017 – “Biohazard” devolve o terror intimista, agora em primeira pessoa e com um protagonista comum.
A própria Capcom, portanto, alternou rumos ao longo das décadas, argumento que Cregger usa para rebater as críticas. “Se os jogos mudam, por que o cinema não pode arriscar?” questiona.
Um herói ordinário contra o apocalipse
Inspirado justamente na guinada de “Biohazard”, o cineasta plantou sua história nos ombros de alguém distante das forças especiais. O mensageiro vivido por Austin Abrams tropeça mais do que acerta, erra disparos e se desespera ao fitar os monstros de perto. “Personagens vulneráveis aproximam o público da tela. Ninguém aqui é John Wick”, comenta o ator.

Imagem: Internet
Esse ponto de vista cotidiano também dialoga com temas recorrentes na filmografia de Cregger, como o medo da paternidade. No roteiro, o protagonista tenta aceitar a gravidez da namorada enquanto corre para permanecer vivo — dilema íntimo emoldurado por viscera espalhada.
Bastidores: de terror indie a superprodução
“Noites Brutais” custou US$ 5 milhões; Resident Evil recebeu quinze vezes mais, segundo a equipe. A promoção turbinada por um estúdio grande não impediu o diretor de preservar o corte final. “Entreguei o filme que escrevi”, comemora. O elenco ainda reúne Zach Cherry, Kali Reis e Paul Walter Hauser, cada um interpretando moradores da cidade sitiada com diferentes níveis de infecção.
Enquanto isso, acusações paralelas de etarismo — levantadas porque as antagonistas de “Noites Brutais” e “A Hora do Mal” eram mulheres mais velhas retratadas de modo grotesco — voltaram a circular. Cregger nega: “Nunca pensei nesses vilões em termos de idade. Neste novo filme, o vírus não discrimina ninguém”.
O futuro da franquia no cinema
Executivos da Sony evitam falar em sequência antes dos primeiros resultados, mas já existem esboços de roteiro caso a bilheteria confirme a aposta. A ideia, de acordo com pessoas ligadas à produção, é seguir a perspectiva de diferentes cidadãos comuns em vários pontos dos EUA, em vez de retornar a personagens consagrados dos jogos.
Para boa parte do público, a grande questão é se a ousadia de Cregger se manterá rentável. Caso o longa atinja as projeções de estreia — algo em torno de US$ 35 milhões somente no mercado norte-americano —, a rota alternativa poderá se firmar como novo caminho para adaptações de games, que historicamente oscilam entre reverência absoluta e liberdade total.
Serviço
- Estreia: quinta-feira, 17
- Classificação: 18 anos
- Elenco: Austin Abrams, Zach Cherry, Kali Reis, Paul Walter Hauser
- Direção: Zach Cregger
- País: EUA
- Duração: 118 minutos
