Rede de influenciadores pró-Trump veicula anúncios pagos exaltando Flávio Bolsonaro e plataforma de apostas vetada no Brasil

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    Dias depois de Flávio Bolsonaro (PL) despontar como favorito em mercados de previsão, uma leva de perfis estrangeiros alinhados ao ex-presidente Donald Trump passou a turbinar, com dinheiro, peças publicitárias em defesa do senador e da plataforma de apostas Polymarket — bloqueada pela Justiça brasileira desde abril. Ao menos 11 contas no X (ex-Twitter) divulgaram, entre sexta-feira (18) e segunda-feira (21), posts identificados como “parceria paga”, sempre acompanhados de gráficos que mostram a escalada do político nas cotações do site.

    A movimentação ocorre apesar de a legislação eleitoral proibir impulsionamento por terceiros e vetar qualquer contribuição de origem estrangeira. Questionada, a campanha de Flávio afirmou desconhecer a contratação dos anúncios, que não revelam quem pagou a conta. A prática reforça indícios de interferência internacional na disputa brasileira e expõe a atuação de uma empresa norte-americana que já investiu centenas de milhares de dólares em marketing digital.

    Influenciadores trumpistas entram em campo

    Entre os perfis contratados estão nomes de destaque no ecossistema “Make America Great Again”. O ex-deputado republicano Matt Gaetz, com 3,4 milhões de seguidores, postou que “Flávio pode salvar o Brasil”, classificando o pleito como “o grande prêmio nas Américas”. Gaetz é aliado de Trump desde o primeiro mandato e já foi cotado para a Procuradoria-Geral dos EUA.

    Outro participante da ação é George Behizy, conhecido por propagar teorias de fraude na eleição norte-americana de 2020. Seguido pelo próprio Flávio Bolsonaro, ele escreveu que “o governo comunista de Lula” espalha mentiras contra o senador e acusou o Planalto de “subornar eleitores” com benefícios sociais. Em março, o mesmo influenciador já havia divulgado, também como anúncio pago, a ligeira vantagem de Flávio no Polymarket.

    Nos moldes de um portal de notícias

    O segundo bloco de contas contratadas finge neutralidade jornalística para abordar temas geopolíticos, mas replicou o material pró-Bolsonaro. A principal delas é a UHN Plus, com 1,2 milhão de seguidores e base na Flórida. Registrada como UHN Plus Media Network Inc., a empresa tem como vice-presidente o espanhol Javier Negre, ex-sócio do estrategista argentino Fernando Cerimedo no site “La Derecha Diario”.

    Cerimedo, amigo de Eduardo Bolsonaro, admitiu publicamente o uso de robôs em campanhas na América Latina e enfrenta na Bolívia processo por tentativa de homicídio contra a ex-companheira Nadia Beller. Segundo relato da vítima à imprensa, o consultor disse que “lutaria” pela eleição do filho mais velho de Jair Bolsonaro.

    Polymarket: o mercado de apostas bloqueado no Brasil

    Sediada em Nova York, a Polymarket opera um modelo de “mercado de previsões”, no qual usuários negociam contratos sobre o resultado de eventos futuros — como eleições. Em abril, a plataforma foi alvo da Justiça Eleitoral brasileira, que ordenou o bloqueio do site por considerar que as apostas podem influenciar o voto e constituir pesquisa eleitoral irregular.

    Mesmo assim, a empresa continua contratando criadores de conteúdo no exterior. Reportagem do Politico revelou pagamentos de ao menos US$ 350 mil a influenciadores entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026. Nos anúncios sobre o Brasil, não há menção ao bloqueio nem às restrições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral.

    Trump Jr. e o capital de risco

    O filho do ex-presidente dos EUA, Donald Trump Jr., integra o conselho da Polymarket e da Kalshi, outra plataforma do mesmo segmento. Seu fundo de investimento, a 1789 Capital, já injetou cerca de US$ 500 milhões na Polymarket, segundo o New York Times. Relatos do Wall Street Journal indicam que Shayne Coplan, fundador da empresa, estreitou laços com o Partido Republicano; à convenção nacional de 2024, sentou-se ao lado de Trump Jr. e do investidor Omeed Malik.

    Em novembro passado, Coplan participou de encontro do grupo de doadores Rockbridge, ligado ao vice-presidente J.D. Vance. Seis meses depois, foi registrada em Wyoming a Rockbridge Brazil, sinalizando a expansão de interesses políticos rumo ao país. O presidenciável Renan Santos (Missão) alega que empresários locais tentam canalizar recursos da rede para a campanha de Flávio, mas não apresentou provas até agora.

    Rede de influenciadores pró-Trump veicula anúncios pagos exaltando Flávio Bolsonaro e plataforma de apostas vetada no Brasil - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Choque com a lei eleitoral brasileira

    O artigo 57-C da Lei das Eleições impõe multa e possível cassação ao candidato beneficiado por conteúdo impulsionado por terceiros. O mesmo dispositivo veda doação, em dinheiro ou serviço, de pessoa física estrangeira ou empresa sediada fora do país. A irregularidade torna-se mais grave quando o produtor do conteúdo comercial não é identificado, prática comum em posts marcados apenas como “parceria paga”.

    Especialistas consultados por Tribunais regionais afirmam que, mesmo que Flávio desconheça a ação, ela configura vantagem ilícita. A Procuradoria-Geral Eleitoral pode abrir investigação de ofício; se for comprovado que houve concordância ou simples omissão do candidato, os resultados no Polymarket podem ser apresentados como indício de financiamento externo.

    Impacto difícil de mensurar

    A maior parte dos anúncios circulou em língua inglesa ou espanhola, o que reduz o alcance direto junto ao eleitorado brasileiro. Ainda assim, analistas de desinformação chamam atenção para o efeito de echo chambers: perfis internacionais são replicados por simpatizantes locais, turbinando a narrativa do “favoritismo” do senador e criando sensação de virada inevitável.

    Além disso, a simples reprodução de gráficos da Polymarket pode induzir parte do público a confundir apostas com pesquisas, prática coibida pelo TSE. O tribunal já determinou a remoção de links para a plataforma, mas o conteúdo republicado em prints contorna a ordem judicial.

    Silêncio da campanha e próximos passos

    Procurada, a assessoria de Flávio Bolsonaro limitou-se a dizer que “não tem conhecimento” sobre a contratação dos anúncios e que qualquer questionamento deve ser dirigido às contas que os veicularam. A equipe não respondeu se irá denunciar a prática ou solicitar a remoção dos posts.

    Para o Ministério Público Eleitoral, a negativa não encerra o assunto. Investigadores avaliam cruzar dados de pagamentos de plataformas com registros de financiamento de campanha. Caso se confirme que a Polymarket ou empresas associadas bancaram a publicidade, o senador pode ser enquadrado por receber contribuição de origem estrangeira e abuso de poder econômico.

    Olho na jurisdição americana

    O imbróglio também pressiona autoridades nos Estados Unidos. Em agosto, os senadores democratas Alex Padilla e Mark Warner enviaram carta à Polymarket e à Kalshi manifestando preocupação com a remuneração de influenciadores que propagam “informações falsas” sobre eleições. O documento não cita o Brasil, mas abre margem para que o Departamento de Justiça investigue violações à legislação de financiamento eleitoral internacional.

    Por ora, nada indica que a Polymarket vá recuar. A empresa intensifica o lobby em Washington para liberar apostas em pleitos americanos e, paralelamente, amplia sua presença em disputas de outros países — mesmo onde foi proibida. No Brasil, a ofensiva encontra um sistema jurídico que tipifica o patrocínio estrangeiro como infração grave. O próximo passo depende de a Justiça eleitoral agir antes que a propaganda digital consolide versões que podem influenciar o voto em outubro.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.