Comentário de Trump sobre reunificação da Irlanda irrita unionistas e eleva tensão com o Reino Unido

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    Uma frase de Donald Trump a jornalistas em Dublin bastou para reabrir uma ferida histórica entre Londres e Belfast. Durante visita de 48 horas à capital irlandesa, o presidente dos Estados Unidos disse que “adoraria ver” a integração da Irlanda do Norte à República da Irlanda, visão que classificou como “fantástica” e “inevitável”. O comentário, feito ao lado do premiê irlandês Micheál Martin, desencadeou críticas imediatas de líderes unionistas e esfriou ainda mais a já complexa relação de Washington com o governo britânico.

    Embora Trump tenha reconhecido que a decisão dependeria de Londres, a simples defesa pública da reunificação foi suficiente para que o Partido Democrático Unionista (DUP) reagisse com veemência. O chefe da sigla, Gavin Robinson, afirmou que tal cenário significaria “a destruição do nosso país” e reforçou que só a população da província pode decidir seu futuro constitucional.

    Repercussão em Londres e Belfast

    Há poucas semanas, o novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, havia descartado qualquer ideia de plebiscito sobre a permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido, chamando o tema de “fora de questão”. O governo conservador avaliou as declarações de Trump como ingerência em assunto interno, mas evitou resposta direta para não agravar a fricção diplomática.

    Em Belfast, a ala unionista acusou o norte-americano de desconhecer a realidade local. Já partidos nacionalistas, como o Sinn Féin, celebraram o apoio de um aliado de peso. Pesquisas recentes mostram maioria estreita a favor da manutenção do vínculo com Londres, mas a diferença tem diminuído desde o Brexit, que retirou a região do mercado comum europeu enquanto a vizinha República da Irlanda permaneceu no bloco.

    Referendo depende de Londres

    Pelo Acordo da Sexta-Feira Santa, assinado em 1998 para pôr fim a três décadas de conflito sectário, somente o governo britânico pode autorizar um plebiscito de unificação. O tratado também obriga que a consulta ocorra caso pareceres indiquem maioria pró-reunificação — critério que ainda não foi atingido, segundo sondagens oficiais.

    Histórico do Acordo da Sexta-Feira Santa

    Concebido com participação decisiva de Washington na década de 1990, o acordo trouxe equilíbrio político à ilha ao partilhar o poder e eliminar barreiras fronteiriças. A neutralidade tradicional da Casa Branca, mantida por presidentes anteriores, sempre foi vista como fundamental para não inclinar a balança em favor de unionistas ou nacionalistas.

    Ao endossar publicamente a unificação, Trump quebrou a postura histórica de “equidistância construtiva” cultivada por nomes como Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Diplomatas veteranos temem que a fala mine o papel de mediador dos EUA em futuras negociações entre Belfast, Dublin e Londres.

    Relações EUA–Irlanda: economia e diplomacia

    Apesar da controvérsia, o encontro com Micheál Martin girou, em parte, em torno do fluxo de investimentos transatlânticos. Multinacionais americanas de tecnologia e farmacêutica empregam cerca de 10% da força de trabalho irlandesa graças a incentivos fiscais considerados generosos.

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    Imagem: Internet

    Em tom de brincadeira, Trump sugeriu que os irlandeses “levaram todas as nossas empresas farmacêuticas” e disse querer “trazer algumas de volta”. O premiê reagiu com um sorriso, afirmando que a relação bilateral “nunca esteve tão forte”. Nos bastidores, porém, assessores irlandeses admitem receio de que eventuais mudanças na política tributária dos EUA dificultem novos aportes no país.

    Encontro com a presidente irlandesa

    Trump também se reuniu com Catherine Connolly, primeira mulher a ocupar a chefia de Estado da Irlanda, eleita no ano passado. A conversa foi descrita como cordial e focada em questões climáticas e cooperação acadêmica. Não houve menção pública à reunificação.

    Tensões recentes entre Washington e Londres

    A irritação britânica com Washington não se resume à questão irlandesa. Nas últimas semanas, Trump ameaçou “reavaliar” a neutralidade dos EUA sobre as Ilhas Malvinas, território britânico no Atlântico Sul reivindicado pela Argentina. Além disso, ele pressiona Londres a elevar gastos de defesa e reclamou da “falta de empenho” do aliado na guerra em curso no Irã.

    Diplomatas britânicos veem nesses gestos uma estratégia do republicano para mostrar força a seu eleitorado interno, mesmo que isso signifique criar atritos com tradicionais parceiros. A chancelaria em Londres preferiu minimizar a controvérsia, mas parlamentares conservadores cobraram resposta “à altura” caso a Casa Branca continue interferindo em temas sensíveis.

    Agenda da visita e protestos nas ruas

    A estadia de Trump em Dublin incluiu um rápido deslocamento até um resort de golfe de sua rede, onde participou de um torneio beneficente. Paralelamente, manifestantes tomaram as ruas da capital com faixas contra o que chamam de “política divisionista” do dirigente americano. Segundo a polícia, os atos foram pacíficos e não houve presos.

    O presidente encerra a viagem neste domingo (13) e retorna a Washington sem previsão de passagem por Londres, onde o clima político permanece tenso. Em solo irlandês, contudo, a fala sobre reunificação já entrou para a lista de declarações que podem moldar o debate futuro na ilha — ainda que o poder de decisão permaneça, por ora, nas mãos do governo britânico.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.