Uma operação do Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc) resultou, em 20 de junho, na prisão de uma técnica de enfermagem de 31 anos em Cariacica e de um homem de 37 anos em Vila Velha. Segundo a Polícia Civil do Espírito Santo, ela retirava de forma clandestina fentanil, morfina, adrenalina e cetamina de unidades de saúde e repassava o material a intermediários ligados ao tráfico. O comprador, apontado como responsável por “batizar” outras drogas com os fármacos, também foi detido. A ação só foi divulgada nesta quarta-feira (29).
Durante o cumprimento de mandados de busca, os agentes recolheram comprimidos de ecstasy, porções de haxixe, uma pistola, munições e balança de precisão, além de 80 comprimidos e três ampolas de morfina, evidenciando a movimentação de substâncias tanto lícitas quanto ilícitas. Ambos tiveram a prisão em flagrante convertida em preventiva e permanecem à disposição da Justiça.
Como a operação chegou aos suspeitos
Prisão em flagrante revelou o esquema
A investigação começou em novembro do ano passado, após a detenção de um homem em Cariacica com pequenas quantidades de fentanil. No interrogatório, ele admitiu atuar como elo entre uma profissional de saúde que “esquecia” medicamentos no bolso e traficantes interessados em potencializar entorpecentes. A partir desse depoimento, o Denarc cruzou dados de plantões hospitalares, conversas interceptadas com autorização judicial e movimentações financeiras até identificar a técnica de enfermagem.
De acordo com a delegada adjunta Fernanda Prado, a profissional atua há seis anos na área e conseguia acesso a estoques sensíveis de analgesia e sedação. Em nenhum momento, segundo a polícia, houve contato direto entre ela e o comprador final — ambos utilizavam o intermediário detido em 2023, o que dificultou rastrear as conversas.
O que foi apreendido
- 80 comprimidos de sulfato de morfina
- 3 ampolas de morfina injetável
- 1 ampola de haloperidol
- 18 comprimidos de ecstasy (MDMA)
- 3 porções de haxixe
- 1 pistola calibre .380
- 15 munições
- 1 balança de precisão
Na residência da técnica, além dos medicamentos de uso hospitalar, foram localizados “catuques” — bilhetes destinados a detentos. A mulher é casada com um preso por roubo, e os recados seriam enviados ao companheiro.
{internal_links}
Linha de investigação sobre a origem dos remédios
Os delegados ainda não conseguiram determinar em qual hospital ocorreu o desvio. A profissional circulou por diferentes turnos e unidades públicas e privadas, o que exige confronto de registros de dispensação com escalas de trabalho. A Polícia Civil oficiou todas as instituições onde ela prestou serviço nos últimos meses para obter listas de lotes de fentanil e morfina aparentemente faltantes.
Versão da técnica de enfermagem
Em depoimento, a suspeita negou ter agido com dolo. Disse que “esqueceu” a morfina no jaleco e não informou a farmácia do hospital para evitar advertência. Quanto aos comprimidos de ecstasy, admitiu intenção de venda, alegando necessidade financeira. Ela não se pronunciou sobre o fentanil citado na investigação, mas tem direito constitucional ao silêncio.

Imagem: Internet
Por que substâncias hospitalares interessam ao tráfico
Fentanil e morfina são opioides de alto potencial analgésico, utilizados sob prescrição e controle rígido. Misturados a cocaína ou crack, elevam a dependência química e prolongam o efeito, estratégia que garante lucro rápido aos traficantes. O chefe do Denarc, delegado Ricardo Almeida, explica que cada ampola de fentanil consegue “render” dezenas de papelotes adulterados, vendidos a preço superior ao da cocaína pura.
Além do risco de overdose — já que doses mínimas de opioides podem ser letais — o uso indiscriminado dificulta o trabalho das equipes de saúde, que desconhecem a composição das drogas ingeridas pelos pacientes. As apreensões recentes reforçam a preocupação das autoridades sanitárias com o desvio de medicamentos controlados no Espírito Santo.
Situação judicial dos envolvidos
A técnica de enfermagem e o homem preso em Vila Velha respondem por tráfico de drogas, associação para o tráfico, posse ilegal de arma de fogo e furto qualificado de bens públicos. Se condenados, podem pegar mais de 20 anos de reclusão. O processo corre na Vara de Tóxicos de Cariacica, que já deferiu a conversão do flagrante em prisão preventiva.
Enquanto a investigação caminha para descobrir a origem exata do desvio, a Polícia Civil não descarta novas diligências e prisões. A expectativa é que a análise de mensagens nos telefones apreendidos revele outros elos do esquema, inclusive possíveis servidores coniventes com a retirada dos medicamentos.
