Quem cruza a faixa de pedestres em frente ao Hospital Universitário da USP, na Zona Oeste da capital paulista, talvez não perceba, mas ali funciona há um ano um experimento que pode mudar a forma como se atravessa a cidade. Trata-se de um semáforo inteligente, desenvolvido por pesquisadores das engenharias Elétrica e de Transportes da Universidade de São Paulo, capaz de aumentar ou reduzir automaticamente o tempo de travessia de acordo com a quantidade de pessoas e veículos esperando.
O teste ganha urgência em um cenário de 190 mortes de pedestres por atropelamento apenas no primeiro semestre na capital, segundo dados oficiais. Enquanto cruzamentos como o das avenidas Rebouças e Oscar Freire dedicam 90 segundos aos carros e apenas 15 aos transeuntes, o protótipo universitário tenta equilibrar a balança usando câmeras e algoritmos de visão computacional.
Como funciona o equipamento
Câmeras instaladas no próprio poste observam continuamente as filas de pedestres e de veículos. Os algoritmos contam quantas pessoas aguardam, mensuram o tempo de espera de cada grupo e recalculam, em tempo real, quanto tempo o sinal precisa ficar verde para que todos atravessem em segurança. A professora Laisa de Biase, da Engenharia Eletrônica, explica que o sistema também monitora a temperatura, a umidade e possíveis falhas, avisando quando é necessária manutenção.
Mais do que abrir e fechar o sinal
- Visão computacional identifica fluxos em 360 graus.
- Sensores internos checam condições climáticas para prevenir panes.
- Relatórios automáticos indicam desgaste de lâmpadas ou falhas elétricas, acelerando reparos.
O problema dos cinco segundos
Levantamento do Instituto Corrida Amiga revelou que quase metade dos semáforos destinados a pedestres em São Paulo oferece somente cinco segundos para a travessia completa. A mesma entidade constatou concentração de equipamentos no centro expandido, embora mais de 80 % dos deslocamentos a pé ocorram em bairros periféricos. A disparidade expõe vulnerabilidades de infraestrutura e segurança viária, aponta a diretora Silvia Stuchi.
Quando a pressa vira risco
Para o professor Claudio Marte, do Departamento de Engenharia de Transportes da USP, a impaciência do pedestre diante da escassez de tempo é um dos fatores que levam ao avanço sobre as pistas ainda movimentadas. “Quem está dentro do carro pode buzinar, mas continua protegido; já o pedestre toma a decisão de cortar caminho entre os veículos”, costuma alertar o docente. A consequência aparece nas estatísticas de sinistros fatais.
Testes e próximos passos
Desde julho do ano passado, o único exemplar instalado no entorno do campus do Butantã coleta dados 24 horas por dia. Segundo os pesquisadores, os tempos médios de espera para o pedestre caíram quase 30 % nas horas de pico, sem causar prejuízo significativo ao fluxo de carros. Relatórios preliminares já foram encaminhados à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).
Olhar da Prefeitura
A administração municipal informou que técnicos farão vistoria no cruzamento da Rebouças com a Oscar Freire para avaliar se o equipamento universitário poderia atenuar o conflito entre fluxos. Também está em estudo a assinatura de um convênio formal com a USP, que permitiria instalar novas unidades em pontos com alto índice de atropelamentos.

Imagem: Internet
Por que ajustar o tempo importa
Cálculos de engenharia de tráfego mostram que cada segundo extra concedido ao pedestre em cruzamentos críticos reduz em até 4 % a probabilidade de acidentes graves. Em vias largas, como as avenidas da região oeste, poucos segundos a mais podem significar dois passos completos de quem tem mobilidade reduzida, lembra Laisa de Biase.
Impacto social
- Amplia a sensação de segurança de idosos e crianças.
- Incentiva a escolha do deslocamento a pé em trajetos curtos.
- Pode reduzir custos de saúde pública ao evitar traumas de trânsito.
Barreiras para escalar a tecnologia
Apesar dos resultados promissores, a implantação em larga escala esbarra no custo unitário estimado em cerca de R$ 35 mil, valor que inclui câmeras de alta resolução, processador embarcado e integração à rede semafórica. A CET possui hoje mais de seis mil cruzamentos semaforizados na capital; substituir parte desse parque exigiria investimentos elevados e revisões na central de controle de tráfego.
Perguntas que ainda precisam de resposta
- Como o sistema reagiria a panes na rede elétrica ou à perda momentânea de sinal de dados?
- Há garantia de privacidade para as imagens coletadas, ainda que desfocadas para identificação pessoal?
- Qual será o protocolo de manutenção e atualização de software?
Rumo a uma cidade caminhável
Especialistas em urbanismo defendem que o experimento da USP dialoga com a meta de reduzir a dependência do automóvel e de priorizar modos ativos de transporte. A experiência internacional mostra que semáforos responsivos diminuem reclamações de motoristas quando percebem que os ciclos se ajustam de modo transparente ao fluxo real, evitando esperas ociosas.
Enquanto o poder público decide se abraça ou não a inovação, o protótipo segue salvando segundos — e, possivelmente, vidas — na porta do maior campus universitário do país. Para quem a cada dia coloca o pé na rua, a simples sensação de não precisar correr já faz a tecnologia parecer indispensável.
