Polícia Federal desmantela célula brasileira de rede internacional que vendia vídeos de estupro de mulheres dopadas

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    Uma operação da Polícia Federal, deflagrada após alerta da Europol, levou à prisão de quatro brasileiros suspeitos de integrar uma rede mundial que dopava mulheres da própria família, filmava os estupros e vendia o material em grupos fechados na internet. Os investigadores identificaram que o esquema, inicialmente desvendado pela polícia alemã, atuava em pelo menos oito países e contava com a participação ativa de cidadãos brasileiros responsáveis por produzir um “manual” de como drogar as vítimas, negociar os vídeos e recrutar novos agressores.

    A ofensiva resultou na captura de suspeitos nos estados do Pará, Ceará, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul, além da apreensão de computadores, celulares e substâncias controladas usadas para incapacitar as vítimas. As autoridades estimam que novas prisões devem ocorrer nos próximos meses, já que o material apreendido indica a existência de outros brasileiros conectados ao grupo.

    Como a investigação começou

    O caso chegou ao Brasil em 2023, quando a Europol enviou à PF uma lista de perfis virtuais associados a crimes sexuais graves. A polícia alemã, durante monitoramento de fóruns na dark web e aplicativos de mensagens, descobriu trocas de arquivos que exibiam mulheres desacordadas sendo abusadas. A análise de metadados apontou conexões com perfis hospedados e administrados por usuários brasileiros.

    Responsável pela investigação nacional, a Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos de Ódio mapeou conversas em que um brasileiro, tratado nos grupos como “especialista”, explicava passo a passo o uso de antidepressivos e sedativos de prescrição restrita. Ele indicava exatamente como triturar os comprimidos, misturá-los a bebida alcoólica e registrar em vídeo cada etapa do abuso para valorizar o “produto” oferecido on-line.

    Material de apoio para criminosos

    • Lista de medicamentos com efeito rápido de sonolência profunda;
    • Doses recomendadas conforme peso da vítima;
    • Orientações para não deixar marcas de violência visíveis;
    • Roteiro de gravação em que o rosto do agressor fosse encoberto;
    • Tabela de preços que variava entre 59 e 300 dólares por pacote de vídeos e fotos.

    Segundo o delegado Flávio Rolim, chefe da unidade da PF, as instruções transformaram o brasileiro em um dos líderes do esquema global. Ele foi preso em fevereiro deste ano em São Paulo, quando tentava apagar arquivos e trocar seus dispositivos eletrônicos.

    Abusos dentro de casa

    Grande parte das vítimas tinha relação afetiva ou parental com os criminosos. Em um dos casos, o marido triturou quatro comprimidos, dissolveu em água e ofereceu à esposa, que acreditava estar tomando apenas um analgésico. Ao despertar, não tinha memória do que ocorrera. A mulher só descobriu o crime quando agentes da PF a procuraram para confirmar sua identidade encontrada em vídeos apreendidos.

    Outras duas mulheres relataram que notavam frascos de calmantes entre os pertences dos companheiros, mas ouviam explicações sobre insônia ou ansiedade. Os relatos confirmam a estratégia identificada pelos investigadores: usar a confiança doméstica para facilitar a administração da droga sem levantar suspeitas. Quando inconscientes, as vítimas eram violentadas pelo agressor e, às vezes, por terceiros convidados pelo grupo.

    Conversas reveladas

    O inquérito reúne centenas de mensagens que explicam a dinâmica do crime. Em um dos diálogos, um recém-chegado ao grupo pergunta: “É raro ela beber muito. Qual antidepressivo tu recomenda?”. O mentor responde sugerindo um medicamento “difícil de triturar” e detalha que a dose deve ser misturada a algo “além da cerveja” para evitar detecção.

    Noutra troca, os participantes negociam valores:

    • “Queria saber os preços?”
    • “A partir de 59.”
    • “59 é um vídeo?”
    • “Até 5 vídeos e fotos.”

    Essas provas, segundo a PF, foram cruciais para a decretação das prisões preventivas. Além do líder, um marido flagrado nos vídeos foi detido esta semana e confessou o crime durante interrogatório.

    Perfis dos investigados

    Até agora, cinco brasileiros foram formalmente identificados:

    1. São Paulo – apontado como mentor e autor do “manual” de dopagem;
    2. Pará – marido que confessou dopar a esposa;
    3. Ceará – suspeito de recrutar novos integrantes em fóruns de debate;
    4. Bahia – acusado de armazenar e distribuir os arquivos pelo aplicativo de mensagens;
    5. Rio Grande do Sul – investigado por oferecer infraestrutura digital para hospedagem do conteúdo ilícito.

    Quatro estão presos preventivamente e um responde em liberdade mediante medidas cautelares, como proibição de acessar a internet. A PF não divulga nomes para preservar as vítimas, muitas delas com exposição pública nas redes sociais.

    Aspecto inédito do crime

    Para Davi Jacobs de Souza, chefe da Delegacia de Crimes Cibernéticos da PF no Rio Grande do Sul, o caso causa perplexidade até mesmo entre agentes experientes. “É uma prática recente que combina estupro, filmagem não consentida e comércio de pornografia extrema num mesmo pacote. A sofisticação técnica contrasta com a brutalidade do ato”, afirma.

    Próximos passos da investigação

    A perícia da PF analisa agora terabytes de dados recolhidos nos computadores e celulares. O principal objetivo é:

    • Identificar cada pessoa presente nos vídeos para garantir apoio psicológico e amparo jurídico;
    • Mapear contas bancárias e carteiras de criptomoedas usadas para receber pagamentos;
    • Solicitar cooperação internacional para prisões nos demais países onde o grupo operava.

    Os crimes em apuração incluem estupro de vulnerável, divulgação de material contendo cena de estupro, associação criminosa e tráfico de entorpecentes, todos com agravantes previstos no Código Penal. Somadas, as penas ultrapassam 30 anos de prisão.

    Rede ainda em funcionamento

    Embora a célula brasileira tenha sido parcialmente desmantelada, os investigadores ressaltam que o braço internacional permanece ativo. A PF trabalha com agências estrangeiras para rastrear servidores, derrubar canais de distribuição e identificar novas lideranças. Paralelamente, a Polícia Federal encaminhou ofícios à Agência Nacional de Vigilância Sanitária para reforçar o controle de medicamentos usados no crime.

    Proteção e orientações às vítimas

    As mulheres identificadas recebem acompanhamento psicológico e orientação jurídica via Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas. A PF reforça que qualquer pessoa que suspeite ter sido dopada ou encontre imagens próprias em contextos de abuso deve procurar imediatamente a delegacia mais próxima, evitando apagar possíveis evidências de dispositivos eletrônicos.

    As investigações continuam sob sigilo, mas a PF adiantou que novas fases da operação serão deflagradas assim que a análise do material apreendido revelar outros envolvidos.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.