Faltando pouco mais de dois anos para as urnas, o primeiro levantamento nacional da Quaest sobre a sucessão de 2026 coloca Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em situação de empate técnico: 43% a 40%, respectivamente. A distância de três pontos percentuais está dentro da margem de erro geral de dois pontos, indicando uma disputa aberta e altamente polarizada.
O estudo destaca faixas do eleitorado em que a diferença praticamente desaparece — jovens de 16 a 34 anos, eleitores de 35 a 59, moradores das regiões Norte e Centro-Oeste e pessoas com renda entre dois e cinco salários mínimos. Nessas parcelas, Lula e Flávio aparecem numericamente empatados ou separados por, no máximo, um ponto.
Empate técnico confirma cenário indefinido
A Quaest entrevistou presencialmente 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto. O nível de confiança é de 95%, o que significa que, se o estudo fosse repetido 100 vezes, o resultado se repetiria em 95 delas. O registro no Tribunal Superior Eleitoral é BR-06773/2026.
O termômetro acende para as duas campanhas: embora Lula mantenha liderança numérica, Flávio encurtou a distância em praticamente todos os segmentos na comparação com a rodada anterior, realizada em julho. À época, o petista ostentava 45%, contra 38% do adversário; agora, a diferença caiu de sete para três pontos.
Faixa etária evidencia disputa voto a voto
- 16 a 34 anos: igualdade perfeita, 41% para cada candidato.
- 35 a 59 anos: novo empate, 42% a 42%.
- 60 anos ou mais: vantagem de Lula, 48% contra 38%.
O comportamento dos mais jovens chama atenção: parte desse grupo não participou ativamente da eleição de 2022 e tende a ser menos fiel a campos ideológicos tradicionais, tornando-se alvo preferencial de ambas as chapas.
Retrato regional: Nordeste consolida Lula; Sul puxa Flávio
- Nordeste: Lula abre 35 pontos (61% x 26%).
- Sul: Flávio reage com 27 pontos de folga (54% x 27%).
- Centro-Oeste/Norte: disputa apertada, 42% para Lula e 41% para Flávio.
- Sudeste: diferença reduzida, 40% a 39% para o petista.
A concentração de votos no Nordeste continua sendo o maior trunfo de Lula, enquanto Flávio herda do pai a fortaleza sulista. O Sudeste, maior colégio eleitoral do país, permanece dividido e deve tornar-se o principal campo de batalha nos próximos meses.
Gênero e renda: movimentos sutis decidem
No eleitorado masculino, o senador bolsonarista abre vantagem de quatro pontos: 45% a 41%. Entre as mulheres, cenário inverso — Lula atinge 44% e Flávio marca 35%, diferença que encolheu de 12 para 9 pontos na comparação com julho.
Quando o critério é renda, o recorte intermediário (2 a 5 salários mínimos) coloca Flávio na dianteira: 43% contra 38% do presidente. Já entre os que ganham até 2 salários, Lula mantém 58% a 27%. Acima de 5 salários mínimos, o parlamentar lidera por 48% a 34%.
Segmentos em que cada lado dispara
Maiores vantagens de Lula
- Nordeste: +35 pontos.
- Renda até 2 salários: +31 pontos.
- Pessoas pretas: +22 pontos (52% x 30%).
- Ensino fundamental: +21 pontos (52% x 31%).
- Católicos: +14 pontos (50% x 36%).
Maiores vantagens de Flávio Bolsonaro
- Região Sul: +27 pontos.
- Evangélicos: +25 pontos (53% x 28%).
- Renda acima de 5 salários: +14 pontos.
- Ensino superior: +11 pontos.
- Ensino médio completo: +9 pontos.
Os dois candidatos repetem padrões observados em 2022: Lula avança nas classes populares, pretos e católicos; Flávio consolida segmentos de maior renda, evangélicos e formados no ensino superior. Nada indica que esses nichos mudarão de lado facilmente, o que reforça a importância dos grupos onde o placar ainda oscila ponto a ponto.
Independentes podem virar o jogo
Um terço do eleitorado se apresenta como “nem lulista, nem bolsonarista”, “nem de esquerda, nem de direita”. Nesse contingente, Flávio lidera por 35% a 29%. Porém, 9% não escolheram candidato e 27% dizem que anulariam, votariam em branco ou sequer compareceriam se a eleição fosse hoje. A margem de erro dentro desse segmento específico é de quatro pontos, o que significa que a dianteira bolsonarista pode ser ilusória.
Em julho, o quadro era inverso: Lula somava 40% e Flávio, 27%. A mudança de 11 pontos ilustra a volatilidade desse público, pressionando estrategistas a calibrar discursos menos ideológicos e mais pragmáticos, capazes de atrair quem rejeita o tom polarizado do debate nacional.

Imagem: Internet
Fator feminino: terreno estratégico
Mulheres continuam definindo pleitos presidenciais e, em 2026, não será diferente. Lula ainda tem vantagem na faixa, mas o recuo de três pontos e a subida equivalente de Flávio mostram que o campo está mais competitivo. Pesquisadores notam sensibilidade maior a temas como saúde, inflação de itens básicos e violência doméstica — tópicos que devem ganhar centralidade nos programas de governo.
Do lado bolsonarista, a aposta recai em agendas de segurança pública e benefícios sociais remodelados; já o PT tenta preservar ganhos anteriores, como a valorização real do salário mínimo e a manutenção do Bolsa Família em patamar elevado.
Recorte por escolaridade também divide eleitorado
Entre brasileiros com ensino fundamental incompleto, Lula alcança 52%, 21 pontos à frente de Flávio. O domínio petista nesse grupo se repete desde a primeira eleição de 2002. Nos formados no ensino médio, a vantagem migra para o PL: 45% a 36%. E, quanto maior o nível de instrução, maior o espaço para Flávio — entre universitários, ele marca 47%, contra 36% de Lula.
Analistas consultados enxergam conexão direta entre escolaridade, renda e exposição a diferentes fontes de informação. Campanhas tendem a intensificar presença em redes sociais segmentadas, focando linguagem simples nos setores em que têm menor penetração e narrativa técnica para nichos de maior escolaridade.
Metodologia e cronograma de pesquisas
O levantamento inaugurou uma série de 130 pesquisas contratadas por um consórcio de veículos de comunicação até a véspera do primeiro turno de 2026. Os resultados servirão de termômetro quinzenal ou mensal, acompanhando Presidência, governos estaduais e Senado.
As entrevistas foram domiciliares, distribuídas proporcionalmente por região, sexo, faixa etária, renda e escolaridade. A margem de erro é de dois pontos percentuais para o total da amostra e varia de três a quatro pontos nos subgrupos analisados.
A cada nova rodada, a Quaest publicará os microdados no site do Tribunal Superior Eleitoral, permitindo auditoria pública dos resultados. O próximo levantamento nacional está previsto para o fim de setembro.
Com o quadro tão ajustado, Lula e Flávio Bolsonaro já enxergam 2026 no horizonte. A disputa, contudo, será travada voto a voto — dos jovens do Norte aos aposentados do Sul, passando pelo decisivo colégio eleitoral feminino e pela massa de independentes que, até aqui, segue sem dono.
