O embate tarifário imposto por Washington colocou o Brasil no centro de uma crise diplomática às vésperas das eleições de 2026 e transformou a política externa em tema obrigatório da campanha. Na disputa pelo Planalto, os presidenciáveis apresentam estratégias antagônicas para reagir às barreiras norte-americanas, reposicionar o país na América do Sul e proteger um setor exportador que sustenta boa parte do PIB.
Essas diferenças foram dissecadas em episódio especial do podcast “O Assunto”. A apresentadora Natuza Nery conversou com o repórter Ricardo Abreu, que cobre o Itamaraty, e trouxe ainda trechos de entrevistas conduzidas pelo produtor Carlos Catelan com cinco especialistas em relações internacionais. O debate expôs como as decisões a partir de 2027 podem redefinir não apenas o comércio exterior, mas o lugar geopolítico do Brasil num mundo em rápida reorganização.
Tarifas de Trump e reação brasileira
O ponto de partida da discussão são as sobretaxas adotadas pelos Estados Unidos, classificadas por Brasília como “infundadas”. O governo Lula pediu a abertura de um painel na Organização Mundial do Comércio (OMC) e tenta costurar apoio de outros países, como a China, que manifestou interesse em ingressar na ação. Para empresários do agronegócio e da indústria, retaliar seria arriscado: preferem que o Itamaraty insista no diálogo para evitar danos bilionários às exportações brasileiras.
A ofensiva norte-americana também escancarou tensões políticas. Em telefonema divulgado pela imprensa, Lula contestou diretamente Donald Trump e apontou motivação eleitoral no tarifaço. Em resposta, o Departamento de Estado negou qualquer tentativa de interferência no pleito brasileiro. Ainda assim, a troca de acusações elevou a temperatura e forneceu munição à oposição, que cobra “firmeza” sem pôr em risco o principal mercado de produtos industrializados de alto valor agregado.
Visões contrastantes entre os candidatos
Prioridade multilateral ou acordos bilaterais?
Ricardo Abreu resume o cenário: alguns postulantes defendem reforçar organismos multilaterais — OMC, ONU, Banco Mundial — para conter a escalada protecionista. Outros preferem negociar diretamente com Washington em busca de concessões rápidas, mesmo que isso signifique abrir parte do mercado interno.
- Bloco multilateralista: aposta no diálogo coletivo, afasta risco de acordos “um a um” e mantém coerência com a tradição diplomática brasileira.
- Ala bilateralista: argumenta que a fragmentação atual da ordem global exige pragmatismo e que resultados concretos dependem de negociações diretas com grandes potências.
Oliver Stuenkel lembra que a postura multilateral foi a marca registrada do Itamaraty desde a redemocratização, mas reconhece que a eficácia desse modelo “nunca esteve tão contestada”. Já Guilherme Casarões aponta que presidencialismos fortes tendem a personalizar a política externa, gerando mudanças bruscas de direção a cada ciclo eleitoral.
Relação com China e BRICS no radar
Com o maior parceiro comercial do Brasil, o debate é igualmente dividido. Enquanto parte dos candidatos quer aprofundar vínculos com Pequim e buscar investimentos em infraestrutura, outro grupo teme dependência excessiva e propõe diversificar destinos para commodities agrícolas. Marcus Vinícius de Freitas, que leciona em Pequim, calcula que a tentativa chinesa de reduzir importações de alimentos pode pressionar produtores brasileiros, “mas abre espaço para que o país ganhe escala em produtos de maior valor”.
A participação nos BRICS é outro ponto de fricção. Há quem veja o bloco como carta estratégica para contrabalançar a influência dos Estados Unidos; outros o consideram “instrumento ultrapassado” que não oferece ganhos tangíveis. Para Leonardo Trevisan, a resposta pode estar em usar o grupo como fórum de articulação política, sem abandonar as estruturas clássicas de comércio multilateral.
América do Sul: liderança contestada
Internamente ao continente, o Brasil tenta manter a posição de liderança, mas enfrenta vizinhos ideologicamente divididos. Quito, Assunção e Buenos Aires já sinalizaram desconforto com o que chamam de “interferência” de Brasília em assuntos domésticos. O próprio chanceler argentino afirmou que as relações serão mantidas “no nível que o Brasil decidir”, jogando a responsabilidade para o Itamaraty.

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Bruna Santos destaca que a falta de convergência política na região dificulta projetos de integração, do gasoduto binacional a sistemas de pagamento conjuntos. Mesmo assim, ela avalia que a dimensão do mercado brasileiro mantém o país como parceiro indispensável.
Aliança ou distanciamento do Mercosul?
No Mercosul, as propostas variam entre reforçar o mercado comum ou flexibilizar as regras para permitir acordos individuais. Os defensores da flexibilização alegam que o bloco, criado em 1991, não acompanhou o dinamismo do comércio global. Os tradicionalistas respondem que a união aduaneira é ferramenta de barganha indispensável frente a economias maiores.
Exportações recordes e vulnerabilidades
Dados recentes mostram exportações brasileiras batendo recordes, especialmente para China e Índia, mas o sucesso esconde fragilidades: o país continua concentrado em commodities de baixo valor, como soja, minério de ferro e carne bovina. Caso a Casa Branca mantenha tarifas, o mapa das vendas externas pode mudar rapidamente, afetando empregos e arrecadação de tributos.
O professor Leonardo Trevisan nota que o aumento das vendas não significa diversificação. “Seguimos dependentes de poucos produtos e poucos mercados”, diz ele no podcast. Para Casarões, qualquer governo que assumir em 2027 precisará combinar incentivos à industrialização com estratégias de redução de risco geopolítico.
O que pensa o Itamaraty
Segundo Ricardo Abreu, a chancelaria avalia que processos na OMC dificilmente serão concluídos antes de 2028, mas considera crucial abrir o contencioso para estabelecer jurisprudência contra barreiras futuras. Ao mesmo tempo, diplomatas trabalham em frentes paralelas: aproximação com Índia e Sudeste Asiático, negociação de salvaguardas fitossanitárias na Europa e revisão de acordos de bitributação para atrair investimentos.
No âmbito doméstico, há preocupação com a possibilidade de a política externa virar “palanque” e comprometer negociações em andamento. Abreu relata que, apesar de divergências entre candidatos, existe consenso mínimo sobre a necessidade de preservar o status de “fornecedor confiável” de alimentos e energia limpa.
Especialistas sugerem caminhos
- Reforço institucional – Oliver Stuenkel defende blindar as carreiras diplomáticas de oscilações partidárias, garantindo continuidade estratégica.
- Foco em tecnologia – Bruna Santos propõe priorizar cooperação internacional em pesquisa agropecuária para ampliar a competitividade brasileira.
- Integração regional pragmática – Marcus Vinícius de Freitas sugere projetos concretos, como corredores logísticos, em vez de grandes declarações políticas.
- Diversificação de mercados – Leonardo Trevisan recomenda consolidar o avanço na Índia e abrir frentes no Oriente Médio e na África.
- Diálogo direto com Washington – Guilherme Casarões avalia que, mesmo acionando a OMC, o Brasil precisa manter canais diplomáticos abertos para evitar escalada protecionista.
Enquanto a campanha esquenta, o podcast reforça que a política externa será peça-chave para quem assumir o Planalto. As decisões sobre tarifas, alianças regionais e modelos de desenvolvimento podem definir o lugar do Brasil na nova ordem global — e, sobretudo, o futuro da economia doméstica.
