O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 81 anos, já discute com ministros e ex-ministros os rumos de um possível quarto mandato. Nas conversas, relatadas por auxiliares que participaram dos encontros, o chefe do Executivo reconhece que a eleição de outubro deverá ter resultado apertado e afirma que sua principal meta, caso reeleito, será garantir crescimento sustentado da economia, evitando o chamado “voo de galinha”.
Orçamento no centro do debate
Os interlocutores ouvidos pelo presidente convergem na avaliação de que o atual desenho orçamentário, com mais de 90% das despesas carimbadas como obrigatórias e emendas parlamentares consumindo 25% dos investimentos federais, torna a gestão inviável. Entre as propostas examinadas estão:
- fazer as despesas obrigatórias seguirem o limite de 0,6% a 2,5% de crescimento real ao ano, como prevê o arcabouço fiscal;
- usar a economia obtida para ampliar investimento público;
- confirmar, em agosto, o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias que trava novas renúncias fiscais, revisa benefícios, restringe concursos e persegue superávit de 1% do PIB em 2028.
Controle de gastos e reformas
Para pôr o plano em prática, Lula pretende retomar o ciclo tradicional de ajustes no primeiro ano de governo, com elevação gradual de despesas nos anos seguintes. O presidente também estuda:
- reforma do Judiciário, nos moldes sugeridos pelo ministro Flávio Dino, incluindo mandato para ministros do Supremo Tribunal Federal;
- reenvio ao Congresso da proposta que elimina penduricalhos e corta supersalários no serviço público.
Pontos de discordância
Apesar do consenso em torno do Orçamento, há forte divisão sobre outros temas:
- Previdência: parte da equipe defende mudanças na contribuição patronal e em categorias como militares, ideia que enfrenta resistência dentro do PT;
- Juros subsidiados: um grupo considera insustentável ampliar financiamentos abaixo da taxa de mercado; outro vê nos fundos públicos e no BNDES o caminho para destravar investimentos;
- Emendas parlamentares: missão considerada “impossível” será convencer o Congresso a reduzir o volume de recursos que hoje garante base eleitoral aos parlamentares.
Outros focos de atenção
Entre os assuntos que preocupam o presidente estão:
Imagem: CRISTIANO MARIZ
- cenário inflacionário que pode resultar da combinação de câmbio pressionado, efeitos do El Niño e repasses de custos de serviços após a reforma tributária;
- possível crise institucional em 2027, caso avance no Senado uma pauta de impeachment de ministros do STF;
- relações externas: Lula calcula que a convivência com Donald Trump — favorito nas eleições norte-americanas — “voltará ao normal”, mas critica sobretaxas da União Europeia a produtos brasileiros.
O presidente finaliza as conversas lembrando que, após o encerramento da jornada de trabalho 6×1, acredita já ter entregue o essencial na área social. “Agora é fazer o país crescer sem ser voo de galinha”, repete aos auxiliares. Para que o Brasil troque o “voo de galinha” pelo “voo de condor”, avalia, será indispensável combinar investimentos públicos e privados, dívida em trajetória de queda e juros de um dígito.
Com informações de O Globo
