Uma investigação por homicídio náutico foi aberta em Veneza contra o piloto de um táxi aquático que, na madrugada de sábado (14), colidiu com a pequena embarcação do pescador italiano Sean Michieli, de 25 anos, e de sua esposa, a brasileira Gabriela Querino Elorriaga, 26. Michieli sofreu traumatismo craniano, teve a morte cerebral confirmada no domingo e, desde o impacto, Gabriela não é mais vista, dando início a uma operação de buscas que já dura três dias.
Segundo a polícia veneziana, o táxi aquático trafegava acima do limite de velocidade permitido no canal de Tessera, na Lagoa de Veneza, quando atingiu o barco do casal. O condutor prestou depoimento ao Ministério Público local e aguarda o resultado de exames toxicológicos e perícias técnicas que medirão a velocidade exata no momento da batida, além das condições de visibilidade e do estado da maré.
Inquérito mira possível excesso de velocidade
Fontes ligadas à Promotoria confirmam que a principal linha de apuração é o excesso de velocidade, infração que, somada à morte de Michieli, enquadra o caso no artigo de homicídio náutico – figura jurídica italiana equivalente ao homicídio culposo de trânsito no Brasil. Se condenado, o piloto pode pegar até sete anos de prisão.
Os investigadores também requisitaram imagens de câmeras de segurança instaladas em pontes próximas e o registro de rotas de aplicativos de navegação utilizados por taxistas aquáticos. A intenção é reconstruir minuto a minuto o trajeto das duas embarcações.
Depoimento preliminar do taxista
Em declaração inicial, o suspeito admitiu estar “acima da marcha recomendada” para a área, mas alegou ter sido surpreendido pela presença do barco do casal em um ponto onde, segundo ele, “quase não há tráfego noturno”. A versão contrasta com o relato de moradores, que afirmam ser comum a presença de pescadores na região antes do amanhecer.
Buscas por Gabriela entram no terceiro dia
Mergulhadores dos bombeiros, equipes da Guarda Costeira, jet skis e um helicóptero participam da varredura no canal de Tessera. Autoridades locais acreditam que a correnteza pode ter arrastado a jovem para trechos mais profundos da lagoa. Os destroços do barco já foram içados e analisados, mas nenhum pertence de Gabriela foi localizado.
Família enfrenta falta de informações
A mãe da brasileira, Gisele Querino, tenta embarcar rumo à Itália para acompanhar de perto as buscas. Ela afirma ter dificuldades para conseguir detalhes oficiais sobre o andamento do caso: “Estamos desesperados e sem respostas”, escreveu nas redes sociais.
O Ministério das Relações Exteriores, por meio do Itamaraty, confirma que acompanha o episódio e presta assistência, mas, amparado na Lei de Acesso à Informação, não divulga pormenores sobre cidadãos brasileiros no exterior.
Recém-casados e rotina de pescaria
Gabriela e Sean haviam oficializado a união há três meses. Moradores da região de Mestre, costumavam sair para pescar juntos na madrugada, prática herdada da família de Sean. Naquela noite, repetiam o ritual quando foram atingidos pelo táxi aquático.
Após o impacto, o casco de fibra do barco rompeu-se e afundou em poucos minutos. Sean foi resgatado inconsciente e levado ao hospital dell’Angelo, onde passou por cirurgia neurológica, mas não resistiu ao traumatismo craniano.
Homicídio náutico na legislação italiana
Introduzido em 2016, o crime de homicídio náutico pune condutores de barcos que provoquem mortes por imprudência, imperícia ou negligência. O dispositivo abrange excesso de velocidade, condução sob efeito de álcool ou drogas e desrespeito a regras de navegação.
No caso concreto, se o laudo toxicológico comprovar sobriedade, a acusação deve concentrar-se nos fatores técnicos: velocidade acima do limite, distância de segurança e sinalização luminosa obrigatória.
Penas e agravantes
- Base: até 7 anos de prisão.
- Agravante automático: fuga do local — não aplicada, pois o piloto permaneceu.
- Agravante especial: condução sob efeito de álcool acima de 1,5 g/l ou de drogas, podendo elevar a pena a 12 anos.
Próximos passos da apuração
- Entrega dos laudos periciais sobre velocidade e visibilidade.
- Conclusão dos exames toxicológicos do taxista.
- Oitiva de testemunhas que estavam em bares e marinas próximas.
- Reconstituição virtual da rota, a partir dos dados de GPS das duas embarcações.
- Decisão do Ministério Público sobre eventual pedido de prisão preventiva.
Cenário para a família no Brasil
Enquanto o inquérito avança, parentes de Gabriela articulam uma campanha online para custear a viagem à Itália e manter pressão sobre as autoridades. Eles pedem, sobretudo, celeridade nas buscas e transparência nos relatórios oficiais.
Repercussão local
Em Veneza, a tragédia reacendeu o debate sobre os limites de velocidade dos táxis aquáticos, que convivem com gôndolas, barcos de pescadores profissionais e amadores, além do intenso fluxo turístico. Entidades de condutores reclamam de regras “excessivamente rígidas”, enquanto associações de moradores exigem fiscalizações mais frequentes, especialmente nas madrugadas.
Medidas emergenciais
A prefeitura estuda instalar radares náuticos fixos e ampliar blitzes noturnas. Há ainda proposta para tornar obrigatória a presença de coletes salva-vidas vestíveis — não apenas disponíveis a bordo — em embarcações particulares de pequeno porte.
Memória de acidentes recentes
O canal de Tessera já foi palco de outros choques envolvendo táxis aquáticos nos últimos cinco anos, todos entre 23h e 5h. Em dois casos, vítimas foram lançadas à água em pontos sem iluminação adequada, levantando críticas sobre a sinalização da laguna.
Desdobramentos esperados
Se o corpo de Gabriela não for encontrado nos próximos dias, especialistas não descartam ampliar a área de busca para trechos externos da lagoa, onde correntes mais fortes podem ter levado a jovem para o Mar Adriático. Paralelamente, a defesa do piloto estuda solicitar perícia independente, argumentando possível “concorrência de culpa” do casal, hipótese recebida com cautela pelo Ministério Público.
A tragédia, que entrelaça luto, desaparecimento e responsabilização criminal, mantém moradores e autoridades em estado de alerta, enquanto a família da brasileira aguarda, entre a esperança e a dor, por respostas definitivas.