Nem a garoa insistente que cobriu a Barra da Tijuca no domingo (20) esfriou o clima quando Halsey pisou pela primeira vez no Palco Mundo. Das 21h35 às 22h50, a artista norte-americana entregou um espetáculo carregado de teatralidade, fogo real e discursos sobre liberdade feminina, selando o encerramento da edição 2026 do Rock in Rio. Embora o público fosse menor que o registrado para outros nomes da mesma noite, quem enfrentou a chuva saiu hipnotizado pela mistura de rock cru, pop alternativo e cenografia digna de musical.
A debutante do principal palco do festival exibiu a versatilidade que a projetou desde 2015, quando “Badlands” a colocou no mapa pop e lhe rendeu indicação ao Grammy. Alternou drives ásperos, falsetes suaves, solos de guitarra e encenações que pareciam costurar toda a trajetória contida nos álbuns “Hopeless Fountain Kingdom”, “Manic”, “If I Can’t Have Love, I Want Power” e o mais recente, “The Great Impersonator” (2024).
Estreia repleta de narrativa e mudanças de tom
A abertura com “Castle” e “I’m Not a Woman, I’m a God” mergulhou diretamente na fase rock de Halsey, marcada por riffs densos e vocais rasgados. As imagens no telão aludiam a castelos em ruínas, reforçando a ideia de renascimento pessoal — tema que atravessa boa parte da discografia da cantora, cujo nome de batismo é Ashley Nicolette Frangipane.
Em seguida, “You Should Be Sad” trocou a distorção por violões country-pop, demonstrando como a artista se sente à vontade em qualquer terreno sonoro. Essa elasticidade foi reforçada quando ela pegou a guitarra em “You Asked for This”, comandando a própria banda enquanto corria de um canto a outro do enorme palco.
Cenografia sombria em “Dog Years”
O primeiro grande impacto visual ocorreu em “Dog Years”. Uma projeção que lembrava vitrais de igreja tomou o telão; ao centro, Halsey surgiu com uma corrente pesada no pescoço, simbolizando amarras sociais e religiosas. À medida que a bateria crescia, a artista libertava-se dos elos, arrancando aplausos em cascata. Foi a senha para o público perceber que cada faixa teria um enredo próprio, quase como atos de uma peça.
Discurso de exaltação feminina
Perto da metade do set, a cantora desceu a passarela, atravessou a chuva fina e se misturou aos fãs na grade para “Colors”. Depois, solicitou silêncio e emitiu um recado direto: “Há poucas coisas que amo mais do que ver mulheres brilhando, livres, sensuais e felizes”, disse, em português pontuado por palavrões em inglês. A fala ecoou o teor confessional de “The End”, faixa que expõe sua luta pela saúde física e mental — momento intimista em meio ao espetáculo de luzes.
Sequência final: fogo, sangue simulado e catarse
Na reta derradeira, Halsey empilhou hits que dialogam com os extremos da carreira. “Hurricane” e “Lie” reacenderam o coro do público, mas foi “Gasoline” que transformou o Palco Mundo num cenário infernal: labaredas envolvendo a passarela e clarões que refletiam na água acumulada pela chuva, criando reflexos alaranjados sobre o público.

Imagem: Internet
“Lonely Is the Muse” encerra em tom de martírio
Para fechar, a cantora elegeu “Lonely Is the Muse”. Entrou sozinha, o rosto marcado por sangue cenográfico que escorria do nariz, evocando a imagem de um messias pop ferido. Ao comparar a dor sentida na indústria musical à paixão de Cristo, Halsey transformou a canção em manifesto sobre exposição, pressões e solidão. Mesmo com o horário avançado, ninguém arredou pé durante o refrão final, cantado em uníssono sob os últimos fogos de artifício do festival.
Perfil de uma camaleoa sonora
Se a apresentação serviu como cartão de visitas ao público brasileiro do Palco Mundo, ela também consolidou a reputação de Halsey como artista camaleônica. Desde o synthpop sombrio de “Badlands” até o rock alternativo de “If I Can’t Have Love, I Want Power”, a musicista de 31 anos carrega influências de Nine Inch Nails, Alanis Morissette e Lorde, mas insiste em quebrar rótulos. O álbum “The Great Impersonator”, de 2024, levou essa premissa ao limite, com faixas que dialogam com Bowie e Kate Bush tanto na sonoridade quanto na estética.
Comprometida com temas sociais, a cantora já usou as redes para discutir direitos reprodutivos, saúde mental e representatividade bissexual, militância que ganhou extensão física no Rock in Rio. Ao escolher cadeado, correntes e sangue falso como elementos cênicos, Halsey transformou o palco em plataforma política, algo que parte do público talvez não esperasse de um line-up dominado por riffs clássicos e pop radiofônico.
Reação do público e balanço do festival
Embora os organizadores não tenham divulgado números oficiais, o setor frontal permaneceu cheio, mas com folgas visíveis em relação aos shows anteriores do dia. Isso não impediu que os espectadores se mantivessem engajados: celulares erguidos, coros afinados e gritos especialmente altos quando a artista elogiou “as mulheres mais bonitas que já vi na minha vida”. Nas laterais, a plateia improvisava capas de chuva enquanto repetia os versos de “Gasoline”.
Para o Rock in Rio, a performance encerrou o Palco Mundo com uma dose de novidade. A edição 2026 privilegiou veteranos do rock, mas reservou espaço para vozes contemporâneas que utilizam o espetáculo visual como extensão da música. Halsey, debutante em um dos maiores palcos do planeta, mostrou que o formato ainda pode surpreender, desde que haja narrativa, identidade e determinação para cantar — ou berrar — sob qualquer tempestade.
