Executivos brasileiros e sul-coreanos selam pacotes bilionários de cooperação em São Paulo

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    A maior rodada de negócios já realizada entre Brasil e Coreia do Sul terminou nesta terça-feira (28) com a assinatura de cinco memorandos de entendimento que envolvem desde carne bovina até inteligência artificial. Reunidos num hotel de São Paulo, o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, e o vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ouviram 30 executivos dos dois lados traçarem um roteiro de investimentos, cooperação tecnológica e abertura de mercado capaz de driblar as tarifas impostas recentemente pelos Estados Unidos.

    Divididos em três painéis — manufatura e infraestrutura, indústrias avançadas, além de bens de consumo e distribuição — os grupos expuseram gargalos regulatórios, pediram celeridade em acordos sanitários e defenderam previsibilidade jurídica para sustentar aportes de longo prazo. Ao fim, as propostas que obtiveram consenso foram formalizadas em documentos que devem nortear os próximos anos da agenda bilateral.

    Negociações setoriais

    Indústria, infraestrutura e transição energética

    O primeiro bloco concentrou empresas como Hyundai, Posco, LG Electronics, Hanwha Ocean, Vale, Suzano, Braskem, Inpasa, Tupy e HD Hyundai Construction Equipment. Os debates giraram em torno da modernização de cadeias produtivas e da descarbonização da matriz industrial. A Vale, por exemplo, apresentou projetos de mineração de baixo carbono, enquanto a Suzano detalhou sua estratégia de celulose como insumo para bioprodutos. Houve ainda interesse da Hanwha Ocean em coproduzir eixos de navios no Brasil, usando estaleiros nacionais.

    Do lado coreano, a Posco sugeriu instalação de fornos elétricos no Sudeste, reduzindo emissões no setor de aço. Já a LG colocou na mesa planos de ampliar fábricas de painéis solares no país. Para viabilizar esses movimentos, os executivos pediram a Alckmin pacote de incentivos que inclua crédito verde e regras estáveis de licenciamento ambiental.

    Tecnologia, saúde e setor aeroespacial

    No segundo painel, Samsung Electronics, Embraer, Eurofarma, WEG, Stefanini, SK Biopharmaceuticals, NAVER, Korean Air e Korea Aerospace Industries (KAI) focaram em semicondutores, IA, fármacos e espaço. A Samsung mostrou interesse em participar do programa brasileiro de chips, enquanto a WEG propôs parceria para motores elétricos de última geração.

    Eurofarma e SK Biopharmaceuticals assinaram memorando que amplia a cooperação em neurociência na América Latina. O acordo prevê uso de inteligência artificial para diagnóstico de epilepsia e expansão do medicamento cenobamato. Já Embraer e KAI selaram compromisso para identificar projetos conjuntos em aviões leves, drones e futuras missões espaciais, aproveitando o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão.

    Alimentos, bebidas, cosméticos e distribuição

    Proteínas animais e bebidas dominaram o último painel, que reuniu JBS, Minerva Foods, Ambev, Amorepacific, APR, Silicon2 e a associação importadora KOIMA. O CEO da Minerva, Fernando Queiroz, disse que Seul importa mais de 60% dos alimentos que consome e ainda depende de Estados Unidos e Austrália. Segundo ele, o rebanho bovino brasileiro “é mais que o dobro da soma de Austrália e Índia”, o que garantiria fornecimento estável e preços menores para os consumidores coreanos.

    Jerry O’Callaghan, presidente do conselho da JBS, destacou que a empresa já dispõe de logística na Ásia para exportar proteína, biodiesel, sebo e colágeno. Ele citou a procura crescente por sorgo de alto teor proteico. Na mesa, a vice-presidente da Ambev, Carla Crippa, reforçou a necessidade de segurança jurídica: “cadeias complexas só investem onde há previsibilidade”, afirmou, lembrando que a Ambev e a coreana OB pertencem ao mesmo grupo controlador.

    Memorandos formalizados

    • ApexBrasil – KOTRA: intercâmbio de inteligência de mercado e facilitação de investimentos bilaterais.
    • Embrapii – KIAT / Finep – KIAT: projetos de pesquisa em IA, descarbonização e inovação industrial.
    • Eurofarma – SK Biopharmaceuticals: desenvolvimento conjunto de terapias em neurociência, com foco em epilepsia.
    • JBS – Highland Foods: expansão de proteínas brasileiras na Coreia e em mercados asiáticos estratégicos.
    • Embraer – Korea Aerospace Industries: estudos para coprodução de aeronaves, drones e lançamento de foguetes em Alcântara.

    Impacto para as empresas brasileiras

    A ofensiva diplomática chega num momento em que o governo brasileiro procura diversificar mercados depois que Washington elevou tarifas sobre aço, alumínio e baterias fabricadas no país. Embora Estados Unidos não tenham sido citados durante os painéis, a preocupação em reduzir dependência ficou clara. Proteínas e bebidas, justamente poupadas pelas barreiras americanas, ganharam força na agenda com Seul.

    Para o agronegócio, o maior ganho será a aceleração do acordo sanitário que habilita a carne bovina brasileira na Coreia. Com a parceria JBS–Highland, a estimativa é de embarcar até 50 mil toneladas anuais já no primeiro ciclo, movimentando mais de US$ 400 milhões. No setor de bebidas, Ambev aposta em sinergias logísticas com a OB para lançar rótulos brasileiros no varejo coreano e importar insumos de cevada do país asiático.

    Na indústria de base, o diálogo aberto com Posco e Hyundai pode destravar investimentos em siderurgia verde, área em que o Brasil dispõe de minério de ferro de baixo teor de impurezas e potencial para hidrogênio renovável. A coalizão Embrapii–KIAT, por sua vez, tende a multiplicar laboratórios conjuntos de semicondutores, fortalecendo a meta brasileira de produzir sistemas integrados em território nacional.

    Próximos passos

    Alckmin e Lee Jae Myung instruíram suas equipes a detalhar os cronogramas dos memorandos nas próximas oito semanas. Técnicos dos ministérios da Fazenda e da Indústria brasileiros devem revisar incentivos fiscais e linhas de crédito do BNDES para projetos de transição energética. Do lado coreano, o foco será acelerar licenças de importação e ajustar regras sanitárias a padrões brasileiros.

    A expectativa é que as primeiras liberações de recursos ocorram ainda neste semestre, começando por um fundo conjunto de US$ 200 milhões direcionado a startups de IA. No agro, a assinatura do protocolo sanitário para carne bovina está prevista para o quarto trimestre, dependente de auditorias dos veterinários coreanos. Já o comitê aeroespacial discutirá, em setembro, a participação de engenheiros brasileiros no lançamento do próximo foguete coreano, usando a pista de Alcântara.

    Visão política

    Embora a rodada tenha sido conduzida sob atmosfera corporativa, os resultados oferecem dividendos políticos para Brasília e Seul. O Palácio do Planalto ganha argumento no Congresso para aprovar a nova política industrial, enquanto Lee Jae Myung reforça a narrativa de que seu governo busca parceiros além das potências tradicionais. Ambos apostam que a cooperação econômica servirá de anteparo caso a escalada tarifária dos EUA se aprofunde nos próximos meses.

    Para analistas de comércio exterior, a tônica do encontro deixou uma mensagem clara: Brasil e Coreia do Sul pretendem transformar complementaridades — abundância de commodities de um lado, tecnologia de ponta do outro — em vantagem competitiva mútua. Se os cronogramas forem cumpridos, a estimativa é de que o fluxo comercial bilateral, hoje em US$ 11 bilhões por ano, possa ultrapassar US$ 20 bilhões até 2030.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.