Diante de sete jurados no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, a defesa dos cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima recorreu a uma sequência de fotos do príncipe William para tentar suavizar a força das câmeras corporais que registraram a morte de Igor Oliveira de Moraes Santos, 24 anos. Os advogados exibiram imagens feitas em 2018, quando o herdeiro britânico deixava o hospital após o nascimento do terceiro filho: em um enquadramento lateral, o gesto do príncipe parece um sinal obsceno; em outro, revela-se que ele apenas mostrava três dedos. A estratégia pretende convencer o júri de que, assim como na comparação real, os vídeos dos policiais podem induzir a leituras equivocadas.
O argumento chega após os jurados já terem visto, de dois ângulos diferentes, o instante em que Igor é baleado durante operação da Rocam em Paraisópolis, em 2025. Nas gravações, o jovem aparece desarmado, com as mãos erguidas e deitado no chão antes dos disparos, quadro que a Promotoria define como execução. O julgamento, iniciado na terça-feira (28) e previsto para terminar ainda nesta quinta (30), entrou no terceiro dia marcado por tensão, reinterrogatório de testemunha protegida e troca de acusações sobre falso testemunho.
Recurso inusitado para questionar provas visuais
As fotografias do príncipe britânico foram projetadas por volta das 15h30, durante os debates orais. Ao comparar os cliques, a defesa sustentou que “a realidade depende da lente” e que as bodycams oferecem apenas um “recorte da verdade”. Para os advogados João Carlos Campanini e Wanderley Alves dos Santos, a suposta limitada profundidade de campo das câmeras impossibilita compreender o contexto tático da operação.
O Ministério Público rebateu imediatamente: lembrou que as duas câmeras corporais mostram a mesma sequência de ordens de rendição, a ausência de armas com os suspeitos e os disparos à curta distância. “Não há ambiguidades”, disse o promotor, apontando que as imagens ainda revelam conversas posteriores dos próprios policiais tentando simular a existência de armamento no local.
Reprise de testemunha protegida
Antes do início dos debates, a juíza que preside o Júri solicitou que imprensa, público e jurados se retirassem do plenário. Uma testemunha protegida, ouvida no primeiro dia, voltou ao banco para esclarecer pontos que, segundo o MP, indicavam possível falso testemunho. O sigilo da oitiva foi mantido para preservar a identidade do depoente. A sessão foi retomada apenas no início da tarde, comprimindo o cronograma de interrogatórios e empurrando a previsão de sentença para o início da noite.
O que mostram as câmeras corporais
As gravações liberadas à acusação e exibidas à TV mostram quatro suspeitos sendo surpreendidos dentro de um quarto nos fundos de uma residência. Logo na entrada, ouve-se: “Perdeu, perdeu”. Igor ergue as mãos, coloca-as na cabeça e se deita no chão ao comando dos PMs. Segundos depois, o cabo Renato pergunta se alguém está armado, efetua dois disparos contra a parede e exige que Igor se levante. No movimento de obediência, ele dispara de novo; em sequência, o cabo Robson atinge o jovem. Nenhuma arma aparece nas imagens nem foi apreendida mais tarde.
Depois dos tiros, as bodycams registram conversas entre os próprios agentes: “Tava armado, caralho”. Um novo disparo é feito contra a parede enquanto se repetem gritos de “Solta a arma”. Em seguida, os policiais colocam luvas e prosseguem na varredura da casa. Até o fim dos registros, não há prova de armamento entre os suspeitos.
Acusação de motivo torpe e recurso que dificultou defesa
Os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima respondem por homicídio qualificado — motivo torpe e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Presos preventivamente, eles tornaram-se réus junto aos soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus, considerados colaboradores dos executores. O processo de Hugo e Victor, porém, foi desmembrado e ainda não tem data para julgamento.
Segundo a denúncia, os policiais decidiram matar Igor para impor uma vingança privada contra suspeitos de tráfico na região, extrapolando a atuação legal do Estado. A Promotoria sustenta que houve “justiçamento” motivado por ódio.
Dinâmica da operação em Paraisópolis
Na noite do crime, a equipe da Rocam do 16º Batalhão patrulhava o cruzamento das ruas Rudolf Lotze e Pasquale Gualupi quando, segundo os policiais, três homens armados fugiram e se esconderam em um imóvel em viela próxima. Investigadores do DHPP, porém, afirmam que as câmeras mostram os agentes arrombando a casa sem mandado, vasculhando cômodos e encontrando Igor e outros dois jovens escondidos atrás da cama — todos rendidos de imediato.
Ao longo da apuração, peritos constataram que os disparos fatais partiram das armas dos cabos. O laudo de necropsia indica dois projéteis: um no tórax, outro no abdômen, compatíveis com curta distância. Nenhum vestígio de troca de tiros foi localizado no quarto.

Imagem: Internet
Tese da defesa: ação legítima
“A acusação é frágil”, afirmou o advogado Wanderley Santos ao tribunal. Para ele, as imagens não captam o momento em que Igor supostamente empunhou arma e representam “vieses cognitivos”. João Carlos Campanini acrescentou que a pressão do corredor estreito, a pouca iluminação e a tensão típica de abordagens em comunidades precisam ser considerados. Ambos insistem que o padrão tático adotado seguiu treinamento e que os disparos ocorreram diante de “risco iminente”.
Do outro lado, os assistentes de acusação que representam a família do jovem argumentam que o vídeo é cristalino. “Vieram na maldade”, disse Magdo de Moraes Santos, pai de Igor. O rapaz deixou uma filha de cinco anos.
Composição do Conselho de Sentença e próximos passos
O conselho é formado por cinco homens e duas mulheres, escolhidos entre 27 convocados. Depois da fase de debates — 1h30 para cada lado, com possibilidade de réplica e tréplica —, os jurados responderão a quesitos sobre materialidade, autoria e qualificadoras. A juíza lê o resultado em seguida e fixa a pena, caso haja condenação.
Ainda que o veredicto saia nesta quinta, a defesa já sinaliza intenção de recorrer. Se condenados, os cabos podem pegar de 12 a 30 anos de prisão. Permanecem detidos preventivamente desde o indiciamento pelo DHPP.
Impacto sobre uso de bodycams
O caso reacende o debate sobre transparência policial. As câmeras corporais foram instituídas como política de controle externo no estado, mas investigações recentes apontam desligamentos propositais ou adulteração dos equipamentos. No episódio de Paraisópolis, os PMs não teriam percebido que os aparelhos estavam gravando durante toda a ação, o que resultou nas imagens cruciais para a acusação.
Organizações de direitos humanos veem no julgamento um termômetro para medir a efetividade das bodycams como prova judicial contra a letalidade policial. Caso os réus sejam absolvidos mesmo com registros visuais contundentes, entidades temem enfraquecimento do instrumento.
Família busca reparação
Assistido por advogados pro bono, o pai de Igor afirma que, além da esfera criminal, ingressará com ação cível contra o estado. “Não somos contra a Polícia Militar, mas contra o abuso”, disse. A família diz não ter recebido apoio psicológico ou indenização prévia.
Se o júri confirmar a tese de execução, o MP deverá requisitar ainda investigação sobre eventual fraude processual — há indícios de que armas teriam sido plantadas em cenas parecidas por outros grupos. Promotores veem repetição de padrão nas unidades de elite da PM que não identificam quando as câmeras estão ligadas.
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