Em um auditório lotado no hotel Marina Park, em Fortaleza, Ciro Gomes oficializou na noite de sábado (1º) sua corrida ao Palácio da Abolição nas eleições de 2026. Ex-governador e ex-ministro, o candidato da federação PSDB-Cidadania apresentou uma coligação incomum: conta com Roberto Cláudio (União Progressista) como vice e sustenta duas candidaturas distintas ao Senado — Capitão Wagner (União Progressista) e Alcides Fernandes (PL).
Além de selar alianças improváveis, o ato escancarou disputas internas em dois partidos nacionais. União Brasil e Progressistas, que integram a União Progressista no estado, recorreram à Justiça para anular a convenção que apoiou Ciro. No PL, a aproximação com o ex-governador rachou a sigla entre o presidente estadual André Fernandes, favorável à chapa, e Michelle Bolsonaro, que prefere Eduardo Girão (Novo).
Evento reuniu espectro político diverso
Discurso de retorno às origens
Ovacionado por correligionários, Ciro lembrou que iniciou a carreira política no Ceará e justificou um novo projeto estadual após décadas na cena nacional. “Tenho uma bússola enterrada no peito, e o norte magnético dela é o Ceará”, declarou, prometendo “lutar ao lado” dos eleitores para retomar programas sociais e ampliar investimentos em segurança hídrica e educação.
Presenças no palanque
O ex-senador Tasso Jereissati, o ex-prefeito de Fortaleza José Sarto e lideranças municipais de PSDB, Cidadania e PL compuseram a mesa. A presença de Capitão Wagner, tradicional adversário do grupo de Ciro, simbolizou a tentativa de criar um palanque “amplo e alternativo” ao bloco governista capitaneado pelo PT no estado.
Como ficou a composição da chapa
Papel de Roberto Cláudio
Médico e ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio discursou defendendo que divergências ideológicas foram deixadas de lado para erguer um “projeto competitivo”. “Viemos da indignação de milhões de cearenses que se sentem abandonados; transformamos essa raiva em articulação e desprendimento”, disse, em indireta ao atual governo estadual.
Duas vagas ao Senado
A União Progressista escolheu Capitão Wagner para uma das cadeiras de senador. Wagner tem base no eleitorado da segurança pública e já foi adversário de Ciro em pleitos anteriores. A segunda indicação da coligação é Alcides Fernandes (PL), empresário ligado ao agronegócio. Ambos defenderam pautas econômicas liberais e reforço no combate ao crime organizado.
Briga judicial dentro da União Progressista
Convenções questionadas
Apesar da aclamação no Marina Park, a legalidade do apoio da União Progressista ainda não está definida. Direções estaduais de União Brasil e Progressistas ajuizaram ação para derrubar a ata da convenção conjunta de 26 de julho que selou apoio a Ciro. As duas agremiações, em reuniões separadas, preferiram endossar Elmano de Freitas (PT). A executiva nacional da federação, porém, garantiu validade ao encontro pró-Ciro. O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará analisa o caso.

Imagem: Internet
PL rachado entre aliados de Bolsonaro
Alinhamentos nacionais versus locais
No Partido Liberal o conflito também é exposto. O deputado federal André Fernandes, presidente estadual da sigla e aliado de Flávio Bolsonaro, defende publicamente Ciro Gomes, alegando “autonomia regional”. Do outro lado, Michelle Bolsonaro apoia o senador Eduardo Girão (Novo) e pressiona a direção nacional para rever a coligação. O impasse deve ser resolvido nos tribunais eleitorais ou em eventual intervenção partidária.
Trajetória política de Ciro Gomes
Do Palácio da Abolição ao Ministério da Fazenda
Ciro foi eleito governador em 1990, assumindo em 1991 e permanecendo até 1994, quando deixou o cargo para chefiar o Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco. Também comandou a Integração Nacional na gestão Lula e disputou quatro vezes a Presidência da República. Em 2022 ficou em quarto lugar na votação nacional. O retorno à disputa pelo Executivo cearense marca a segunda tentativa de reconquistar o governo estadual.
Desafios para 2026
Pesquisas internas compartilhadas por aliados indicam forte polarização entre o bloco governista — liderado por Elmano de Freitas — e a coligação de Ciro. O ex-governador aposta em alta rejeição ao atual modelo de segurança pública e no desgaste da aliança PT-PDT que comandou o Ceará nos últimos 20 anos. Do lado petista, a estratégia é associar o candidato do PSDB-Cidadania ao campo conservador, ressaltando o apoio setorial do PL.
Próximos passos da campanha
- Agenda no interior: a equipe de Ciro planeja caravanas semanais para apresentar propostas de saúde regionalizada e incentivos à indústria têxtil.
- Plano de governo: versão preliminar deve ser protocolada até 15 de agosto. Entre os eixos estão reforma administrativa estadual e expansão da energia solar no semiárido.
- Debates: apesar de convites de emissoras locais, ainda não há confirmação de datas. A coligação insiste em ao menos três confrontos diretos com Elmano de Freitas.
Com a candidatura homologada, Ciro Gomes inicia a campanha apostando na imagem de gestor experiente e no discurso de união de forças rivais. A expectativa é que a Justiça Eleitoral se pronuncie nas próximas semanas sobre a validade das convenções contestadas. Até lá, a coligação segue respaldada pelos registros oficiais, mas com o futuro dependente das decisões judiciais e das negociações internas que ainda fervilham nos bastidores da política cearense.
