Em um auditório lotado no Marina Park, em Fortaleza, Ciro Gomes (PSDB) oficializou na noite de sábado (1º) sua entrada na disputa pelo Governo do Ceará com um discurso centrado na segurança pública. O ex-governador acusou Elmano de Freitas (PT), que busca a reeleição, de ter “entregado as chaves” do Estado às facções criminosas, situação que, segundo ele, transformou municípios cearenses em reféns do crime organizado e comprometeu o futuro da juventude local.
O ato de lançamento reuniu nomes de peso da oposição, como o ex-prefeito Roberto Cláudio (União), escolhido para a vice, os candidatos ao Senado Capitão Wagner (União) e Alcides Fernandes (PL) e o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB). A violência — apontada por pesquisa Quaest como o maior problema estadual — pautou a maioria das falas e serviu de eixo para justificar uma coligação que tenta se apresentar como alternativa viável ao petismo no Ceará.
Ataques à política de segurança do governo Elmano
Do palco, Ciro descreveu o cenário atual como um “cerco” de facções que, em sua avaliação, passaram a controlar territórios e cofres públicos. “Viramos reféns de um pequeno grupo que sequestrou o poder em proveito próprio”, afirmou, sob aplausos. O presidenciável derrotado em 2022 argumentou que a situação de insegurança não decorre apenas da expansão do crime, mas de uma “cumplicidade” política que preferiu o silêncio a medidas duras de enfrentamento.
O discurso encontra eco em números recentes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 23 de julho, indicou que três das dez cidades mais violentas do país em 2025 estão no Ceará. O dado, recorrentemente explorado pela oposição, reforça a percepção captada pela Quaest na quinta-feira anterior ao evento: para a maioria dos entrevistados, a violência é o principal gargalo da gestão Elmano.
Chapa heterogênea e a promessa de “projeto alternativo”
A coligação PSDB-Cidadania lançou Ciro após convenção de 20 de julho. O acordo inclui a Federação União Progressista, que abriga União Brasil e Progressistas, e ainda o PL. Ao subir ao palco, Roberto Cláudio celebrou o que chamou de “desprendimento” pessoal e político: “Temos votos diferentes para presidente, pensamentos diversos, mas fomos unidos pela indignação de milhões de cearenses”.
Capitão Wagner e Alcides Fernandes, cada qual com bases eleitorais próprias, completam a fórmula rumo ao Senado. Wagner, ex-deputado com trajetória ligada à segurança pública, elogiou o tom combativo de Ciro; Alcides, por sua vez, frisou a necessidade de investimento federal no combate às facções.
Divergências sobre a eleição presidencial
A heterogeneidade da chapa se reflete na disputa pelo Palácio do Planalto. Enquanto setores do PSDB mantêm diálogo com a candidatura de centro, o PL no Estado segue dividido entre apoiar o bloco de Jair Bolsonaro e o alinhamento local a Ciro. A falta de consenso nacional, porém, não impediu o acordo regional em torno do ex-governador.
Impasse jurídico sobre convenções partidárias
A montagem da aliança enfrenta questionamentos internos. Em convenções separadas, União Brasil e Progressistas declararam apoio a Elmano, contrariando a decisão da Federação União Progressista cearense que se alinhou a Ciro. As executivas estaduais dos dois partidos acionaram a Justiça Eleitoral para anular a ata que homologou o apoio ao tucano.
A direção nacional da federação sustenta que a convenção validada é a que chancelou a candidatura de Ciro, posição também defendida por Capitão Wagner. O Tribunal Regional Eleitoral ainda não se pronunciou. Situação semelhante ocorre no PL: de um lado, o presidente estadual André Fernandes e o senador Flávio Bolsonaro endossam o ex-governador; de outro, Michelle Bolsonaro posicionou-se junto ao senador Eduardo Girão (Novo), acirrando o racha interno.

Imagem: Internet
Trajetória de Ciro e retorno às origens
Governador entre 1991 e 1994, Ciro renunciou ao cargo para assumir o Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco, durante o plano que estabilizou a economia. Depois, foi ministro da Integração Nacional no governo Lula e concorreu quatro vezes à Presidência — a última delas em 2022. Agora, volta a disputar o Palácio da Abolição pela segunda vez, declarando ter “uma bússola afetiva e política” apontada para o Ceará.
Aliados interpretam esse retorno como tentativa de revigorar o capital político regional após sucessivas campanhas nacionais frustradas. Críticos enxergam apenas um reposicionamento diante do enfraquecimento do PSDB no cenário federal. Ciro, entretanto, afirma que o desafio estadual não é trampolim, mas “compromisso definitivo” com a segurança, a retomada econômica e a geração de empregos.
Violência em números e agendas propostas
Embora o Anuário de Segurança traga redução discreta nos homicídios em algumas áreas metropolitanas brasileiras, o Ceará figurou no ranking nacional pelos maus motivos: três municípios — Caucaia, Maracanaú e Sobral — apareceram entre os dez com maiores taxas de mortes violentas. O crescimento de facções ligadas ao tráfico e a dificuldade de integração entre polícias civil e militar são apontados por especialistas como causas principais.
Diante do quadro, Ciro prometeu recriar um gabinete de crise permanente, ampliar o uso de inteligência policial e expandir programas de prevenção em áreas de maior vulnerabilidade social. Detalhes sobre orçamento e metas serão apresentados, segundo ele, nas próximas semanas. Elmano, por sua vez, defende que o Estado já executa estratégias de repressão e inclusão, destacando investimentos em tecnologia e aumento do efetivo.
Próximos passos da campanha
A equipe do tucano pretende intensificar carreatas e encontros regionais, sobretudo no interior, onde o PT construiu base sólida nas últimas eleições. Está prevista ainda a participação de Ciro em debates televisivos que devem começar após o prazo final de registros oficiais. O calendário aguarda definição da Justiça Eleitoral, que também decidirá sobre os pedidos de impugnação das convenções.
Com a segurança pública no centro do debate, a eleição cearense caminha para ser decidida pela percepção de quem poderá, de fato, combater o avanço das facções e reduzir indicadores de violência. Nos bastidores, a incógnita jurídica sobre o apoio partidário adiciona instabilidade a uma disputa já marcada por alianças improváveis e rivalidade histórica entre PSDB, PT e PL.
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