Romeu Zema (Novo) abriu a série de entrevistas com presidenciáveis exibida pela Globo logo após o “Jornal Nacional” e viu quatro de suas principais afirmações serem analisadas em tempo real pela equipe de verificação da emissora. Dos pontos checados, três foram classificados como imprecisos ou falsos; apenas um, relativo ao alcance territorial de facções criminosas, mostrou‐se consistente com estudos recentes.
O encontro, conduzido por Renata Vasconcellos e César Tralli, inaugurou a rodada de sabatinas que ainda terá Ronaldo Caiado, Renan Santos, Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury até sábado, 29. A seleção dos seis candidatos seguiu o último levantamento Quaest, e a ordem de exibição foi definida em sorteio com representantes partidários.
Declaração sobre exclusividade de visita a El Salvador cai por terra
Viagem ocorreu, mas não foi a única entre os concorrentes
Zema citou a experiência de três dias em El Salvador, em maio de 2025, para defender políticas de segurança inspiradas no presidente Nayib Bukele e garantiu ser “o único candidato” a ter ido ao país. A checagem encontrou registro da passagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) por San Salvador em novembro do mesmo ano, com fotos e reuniões oficiais publicadas nas redes do parlamentar. Dessa forma, a fala recebeu selo de falsa.
Contas de Minas Gerais: números não batem com balanços oficiais
Diferenças entre déficit herdado, superávits apurados e projeções
Outro ponto contestado refere-se ao resultado fiscal mineiro. O ex-governador disse ter assumido o estado em 2019 com déficit de R$ 11 bilhões e encerrado a gestão com superávit de R$ 5 bilhões. Documentos da Secretaria de Fazenda indicam:
- Déficit de R$ 11,4 bilhões ao fim de 2018, último ano antes de Zema tomar posse;
- Superávit de R$ 1,1 bilhão em 2025, último exercício completo antes de sua renúncia para concorrer ao Planalto;
- Salto atípico para R$ 5,1 bilhões positivos em 2024, impulsionado por receitas extraordinárias dos acordos de Mariana e Brumadinho;
- Previsão de retorno ao vermelho, com déficit estimado em R$ 5 bilhões, para o fechamento de 2026.
Com base nesses dados, os verificadores concluíram que a comparação usada por Zema distorce a série histórica, atribuindo-lhe o selo “não é bem assim”.
Taxa de feminicídio acima da média nacional
Minas não está entre os oito estados com indicadores mais baixos
Ao defender avanços na segurança pública, o candidato afirmou que “Minas tem taxa menor que a média Brasil” no combate ao feminicídio. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 mostra índice de 1,6 feminicídio por 100 mil mulheres em território mineiro, contra 1,4 no âmbito nacional. Amazonas, Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe apresentaram números inferiores à média do país — Minas não figura nessa lista. A declaração foi carimbada como falsa.

Imagem: Internet
População sob domínio de facções: fala procede
Dado é corroborado por pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Zema acertou ao dizer que “estatísticas apontam que 60 milhões de brasileiros vivem em áreas controladas por facções”. Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com o Datafolha, divulgado em maio, estima que 68 milhões de pessoas percebem a presença de grupos ligados ao tráfico ou a milícias no bairro onde moram. Pesquisas acadêmicas da Universidade de Cambridge reforçam a ordem de grandeza, calculando entre 50,6 e 61,6 milhões de residentes submetidos às regras de organizações criminosas. O veredicto, nesse caso, foi de verdadeiro.
Calendário das entrevistas
Além de Romeu Zema, outros cinco postulantes ao Palácio do Planalto participam da série nesta semana:
- 24/8 – Romeu Zema (Novo)
- 25/8 – Ronaldo Caiado (PSD)
- 26/8 – Renan Santos (Missão)
- 27/8 – Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
- 28/8 – Flávio Bolsonaro (PL)
- 29/8 – Augusto Cury (Avante)
Por que a verificação importa
As sabatinas exibidas em horário nobre alcançam milhões de eleitores e ajudam a formar opinião sobre propostas e histórico dos concorrentes. Checagens em tempo real funcionam como ferramenta de transparência, pressionando candidatos a sustentar declarações com dados corretos e contextualizados. No caso de Zema, a vistoria expôs equívocos em áreas-chave de sua gestão à frente de Minas Gerais e em indicadores de violência contra a mulher, ao mesmo tempo que confirmou a preocupação expressa com a expansão territorial do crime organizado.
