Num vídeo divulgado neste domingo (26), a ex-deputada federal Carla Zambelli contestou publicamente o deputado italiano Angelo Bonelli, que havia afirmado não se saber o paradeiro da brasileira. Zambelli garantiu viver em endereço fixo na Itália, sob conhecimento das autoridades locais, e assegurou estar “cumprindo rigorosamente” as determinações judiciais do país europeu.
A resposta da ex-parlamentar veio poucos dias depois de Bonelli, em passagem pelo Brasil, insinuar que Zambelli aguardaria as eleições de outubro para tentar eventual anistia se o senador Flávio Bolsonaro (PL) ascender à Presidência. “Não sou fugitiva”, rebateu a ex-deputada, acrescentando que buscou proteção em “um país do qual também sou cidadã”.
Confronto com Angelo Bonelli
No vídeo de cerca de três minutos, Zambelli acusa Bonelli de propagar “informações inverídicas” sobre sua localização. “Meu endereço é conhecido das autoridades italianas. Não há absolutamente nada de clandestino na minha situação”, afirmou. A ex-deputada ainda declarou que sente dever “satisfação” apenas a apoiadores “que rezaram” por ela, e não ao parlamentar italiano.
Bonelli, integrante da bancada ecologista do Parlamento italiano, veio ao Brasil na semana anterior para reuniões com congressistas sobre temas ambientais. Em entrevista no dia 22, disse que “ninguém sabe onde está Carla Zambelli” e que ela aguardaria possível mudança de governo no Brasil para receber perdão judicial. O italiano sustenta ter comunicado a polícia de seu país sobre o paradeiro da brasileira quando esta chegou à Itália, em 2025.
Disputa narrativa
- Versão de Bonelli – O deputado afirma que Zambelli permanece “fora do radar” e que seu processo de extradição se arrasta porque a brasileira tenta politizar o caso.
- Contraponto de Zambelli – Ela diz que Bonelli “não detém qualquer autoridade” sobre sua situação e que seu status legal está formalizado nos tribunais italianos.
- Interesse público – A polêmica reacendeu na Itália o debate sobre cooperação judiciária com o Brasil e, em Brasília, trouxe novamente Zambelli ao centro das discussões sobre anistia a condenados por motivos políticos.
Situação judicial na Itália
Zambelli chegou ao território italiano em 2025, após ser condenada no Brasil em dois processos: invasão hacker ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e porte ilegal de arma de fogo. Em julho daquele ano, foi detida em Roma. À época, Bonelli alegou ter repassado às forças de segurança o endereço da brasileira.
Em maio deste ano, porém, a Corte de Cassação – última instância da Justiça italiana – anulou decisões anteriores relacionadas ao pedido de extradição vinculado ao caso de invasão hacker. Para os magistrados, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não teria imparcialidade para julgar o processo, pois figurava como vítima do crime. A Suprema Corte ordenou a libertação imediata de Zambelli, que hoje responde em liberdade.
Dupla condenação no Brasil
- Invasão hacker ao CNJ – Pena de prisão em regime fechado. Processo de extradição: anulado pela Corte de Cassação, que determinou nova avaliação, entendendo haver dúvida sobre a isenção de Moraes.
- Porte ilegal de arma – Também resulta em pena de reclusão. Processo de extradição: reiniciado pela Corte de Apelação de Roma, após decisão da Suprema Corte que exigiu garantias médicas para a ex-deputada, caso fosse enviada à Penitenciária Feminina do Distrito Federal, a Colmeia.
Foto: Igo Estrela/Metrópoles – Carla Zambelli deixa tribunal em Roma após audiência que reviu seu processo de extradição.
Saúde como ponto central
Os juízes italianos determinaram o reinício do julgamento sobre o porte de arma devido à ausência de comprovação, por parte do governo brasileiro, de que Zambelli receberia tratamento médico adequado na Colmeia. Laudos apresentados pela defesa descrevem um “quadro clínico complexo e multifacetado”, que exigiria acompanhamento permanente, inclusive psiquiátrico.
Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados – Zambelli nos tempos de mandato em Brasília; ex-parlamentar diz ser vítima de perseguição.
Alegação de perseguição política
Durante o vídeo, a ex-deputada sugeriu ser alvo de “quem hoje, na prática, manda no Brasil”, referência velada a Alexandre de Moraes. Segundo ela, a “perseguição” foi o motivo para buscar refúgio no exterior. “Estou exercitando um direito que a lei me garante”, declarou, argumentando deter também cidadania italiana, o que lhe assegura residência e acesso à Justiça local.

Foto: Reprodução
Amparo constitucional x narrativa de fuga
- A Constituição brasileira impede a extradição de cidadãos natos, mas permite a de naturalizados em casos específicos. Como Zambelli nasceu no Brasil e adquiriu cidadania italiana posteriormente, a entrega ao país de origem depende unicamente da legislação italiana e dos acordos bilaterais.
- No entendimento da defesa, a invocação de perseguição política e a suspeição de Moraes reforçam pedido de negação definitiva da extradição.
- Já o Ministério da Justiça do Brasil sustenta que os crimes atribuídos a Zambelli não têm natureza política e, portanto, preenchem requisitos legais para a transferência.
Próximos passos
O novo julgamento na Corte de Apelação de Roma, referente ao porte ilegal de arma, ainda não possui data. Quando for retomado, o colegiado deverá analisar duas frentes: se há motivação política para intervenção judicial e se o sistema prisional brasileiro oferece condições médicas adequadas à ex-deputada. Caso a corte mantenha dúvidas sobre a assistência no presídio da Colmeia, o processo pode voltar mais uma vez à Suprema Corte italiana.
Paralelamente, a Procuradoria-Geral da República acompanha a tramitação para garantir que documentos complementares sobre a infraestrutura médica da Colmeia cheguem a tempo à Justiça italiana. A estratégia oficial é sanar rapidamente as pendências técnicas e derrubar, ainda em solo europeu, o argumento de risco à saúde.
Impacto político
A permanência de Zambelli em liberdade na Itália mantém viva a discussão sobre eventual anistia a condenados alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A declaração de Bonelli acerca da eleição de Flávio Bolsonaro, por sua vez, reacendeu especulações sobre o uso eleitoral do caso. Integrantes da campanha do senador evitam comentar, enquanto adversários reforçam acusações de “proteção” a investigados.
Até que a Justiça italiana bata o martelo, Carla Zambelli seguirá em solo europeu, gravando vídeos para redes bolsonaristas e sustentando que “nada deve” à lei brasileira. O desfecho do processo, no entanto, poderá definir não só o futuro da ex-deputada, mas também o alcance das decisões do Supremo brasileiro no exterior.
