Brics evita citar EUA, Israel e Irã e aprova texto vago sobre guerra no Oriente Médio

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    A 18ª cúpula dos Brics, encerrada neste sábado (12) em Nova Déli, terminou com um apelo amplo —e sem destinatário definido— pelo fim da violência no Oriente Médio. Apesar da pressão do presidente chinês, Xi Jinping, para que o bloco assuma protagonismo diplomático, o comunicado final limitou-se a expressar “profunda preocupação” com a guerra, pedir “máxima contenção” e defender “abordagem multilateral”, sem mencionar Estados Unidos, Israel, Irã ou qualquer outro ator envolvido.

    A cautela reflete fissuras que crescem à medida que o grupo —formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul em 2009 e hoje com dez integrantes— tenta equilibrar interesses divergentes. A presença simultânea de Irã e Emirados Árabes Unidos, recém-admitidos na expansão patrocinada por Pequim em 2023, tornou impossível um texto mais incisivo. Ainda assim, o premiê indiano, Narendra Modi, comemorou o raro consenso entre os participantes.

    Foto de união, discurso de distância

    Logo na abertura, Modi posou de mãos dadas com Vladimir Putin e Xi Jinping, numa repetição calculada da imagem feita em 2025 na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai. O gesto destinava-se a passar mensagem de coesão, mas não encobriu as diferenças de cálculo estratégico. Enquanto Moscou precisa de aliados para driblar sanções ocidentais, Pequim tenta projetar liderança global, e Nova Déli preserva relações simultâneas com EUA e Rússia para não facilitar a ascensão chinesa.

    Xi quer palco, mas encontra palco dividido

    Em discurso, o líder chinês exortou o Brics a oferecer mediação formal nos conflitos que varrem o Oriente Médio, sinalizando intenção de ver Pequim reconhecida como fiadora de acordos de paz. A retórica, entretanto, ficou isolada: no texto final, o verbo “mediar” nem aparece. O documento traz, como em edições anteriores, condenação genérica a sanções unilaterais —um agrado à Rússia— e críticas às guerras tarifárias, sem identificar países.

    Guerra sob silêncio nominal

    O embate iniciado em 28 de fevereiro, quando o então presidente norte-americano Donald Trump ordenou bombardeios contra instalações iranianas, gerou arrasto bélico envolvendo 13 países da região. Ainda assim, nenhum deles foi citado na resolução. Diplomatas presentes afirmam que, se os autores listassem Washington, Tel Aviv ou Teerã, a declaração teria fracassado.

    Irã vs. Emirados na mesma mesa

    A tensão ficou explícita nos bastidores. Enquanto o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, discursava contra “agressões patrocinadas pelos EUA”, o enviado dos Emirados, o príncipe herdeiro Khaled bin Mohamed bin Zayed, mantinha expressão neutra. Os dois chegaram a conversar à margem da reunião, tentativa alentada por Modi de reduzir riscos de confronto direto no Golfo.

    Crescimento acelerado, consenso escasso

    Desde a onda de adesões anunciada em 2023 —Egito, Arábia Saudita, Emirados, Irã e Etiópia— o Brics passou a somar 45% da população mundial e 30% do PIB global em paridade de poder de compra. A musculatura demográfica, porém, não converteu-se em voz unificada. Tentativas de acrescentar novas cadeiras em 2024, na cúpula de Kazan, terminaram sem acordo; no encontro realizado em Brasília, em 2025, o debate foi praticamente suspenso diante da baixa adesão de chefes de Estado. Agora, a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva —em plena campanha pela reeleição— reforçou a percepção de que o bloco opera em ritmo desigual.

    Brics evita citar EUA, Israel e Irã e aprova texto vago sobre guerra no Oriente Médio - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    India e China: rivais que ensaiam trégua

    Nenhum fator pesa mais sobre a coesão do Brics do que a rivalidade sino-indiana. Xi desembarcou em Nova Déli pela primeira vez em sete anos, após uma série de escaramuças entre tropas dos dois gigantes na fronteira do Himalaia. Na conversa reservada com Modi, o chinês pediu “sinergia pela estabilidade estratégica global”. Fontes indianas descrevem a fala como gesto tático: Pequim busca suavizar o front sul para concentrar fogo diplomático nos EUA, enquanto Nova Déli quer evitar que a disputa degrade cadeias de suprimento cruciais.

    Putin ganha alento contra sanções

    A Rússia saiu satisfeita. Mesmo sem menções diretas à guerra na Ucrânia, o repúdio às sanções unilaterais fortalece o discurso do Kremlin de que medidas impostas por Washington e União Europeia seriam ilegítimas fora do âmbito do Conselho de Segurança da ONU. Diplomatas russos ainda comemoraram a defesa de “reformas nas instituições de Bretton Woods”, eufemismo para reduzir o peso do dólar e do FMI.

    Brasil reduz perfil, mas mantém pauta

    Com Lula retido na campanha, o chanceler Mauro Vieira representou o país. Ele ecoou o mantra brasileiro de “constituição de um bloco de países em desenvolvimento capaz de influir na governança global”, mas não ofereceu novos projetos. A delegação, porém, conseguiu emplacar a menção à necessidade de combater a fome e de acelerar a transição energética em nações pobres, temas caros ao Palácio do Planalto.

    O que está por vir

    Para 2027, a presidência rotativa ficará com a África do Sul. Pretória planeja retomar o debate sobre criação de uma moeda de liquidação comercial que reduza dependência do dólar, proposta engavetada desde 2022. Há, contudo, dúvidas sobre adesão de Índia e Brasil, temerosos de que o mecanismo concentre ainda mais poder financeiro nas mãos da China.

    Dilema de identidade permanece

    Quase duas décadas depois da fundação, o Brics continua sem responder à pergunta que motivou o acrônimo criado por economistas: o grupo será apenas fórum de coordenação de economias emergentes ou tentará converter-se em aliança política capaz de rivalizar com G7 e Otan? A resolução diluída sobre o Oriente Médio deixa a dúvida em aberto, evidenciando que, por ora, unir mãos para fotos é mais fácil do que unir posições sobre guerras que remodelam a ordem global.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.