De gavetas a porta-luvas, passando por fundos de sofá e bolsos de casacos antigos, os brasileiros mantêm fora de circulação quase R$ 32 milhões em moedas de 1 centavo. O valor corresponde a 3,19 bilhões de unidades ainda existentes, apesar de a produção ter sido interrompida há quase duas décadas.
O montante retido se equipara ao total de peças de 25 e 50 centavos em circulação, mas, na prática, a menor fração do real quase desapareceu das transações diárias. Mesmo assim, o Banco Central garante a validade legal de cada moeda e segue contabilizando-as em seu balanço do meio circulante.
Bilhões de peças que já não passam pelo caixa
As últimas moedas de 1 centavo deixaram a Casa da Moeda em 2004. No ano seguinte, o Banco Central optou por interromper a cunhagem depois de colocar mais de 3 bilhões de unidades na praça. A decisão foi motivada por dois fatores principais: abundância de estoque e custo de fabricação acima do valor facial.
Produzir saiu caro demais
Na época, cada lote de mil moedas exigia desembolso de R$ 86,53, ou seja, pouco mais de 8 centavos por unidade—oito vezes o valor inscrito no verso do metal. Em pleno esforço de combate à inflação e de racionalização de gastos públicos, manter o ritmo de produção deixou de fazer sentido.
Fenômeno do “entesouramento”
Embora as peças continuem oficialmente em circulação, pesquisas do Banco Central indicam que a maior parte foi simplesmente retida pela população. O fenômeno, conhecido como entesouramento, ocorre quando o dinheiro físico é guardado em casa em vez de voltar ao comércio. Segundo a economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), o histórico de inflação elevada faz com que o brasileiro considere pouco prático carregar metal de baixo valor no bolso: “É peso demais para quase nenhum poder de compra”, resume.
Custo exagerado não é exclusividade brasileira
O dilema do 1 centavo ganhou paralelo recente nos Estados Unidos. O penny, correspondente americano, deixou de ser cunhado no fim do ano passado. Em dez anos, o preço de produção de mil unidades saltou de US$ 1,42 para US$ 3,69, corroendo as finanças do Tesouro norte-americano. Lá, como aqui, o valor nominal ficou muito abaixo do gasto com metal, energia e mão de obra.
Pix, cartão e pedágio automático passaram na frente
Desde a criação do Plano Real, campanhas tentaram estimular o uso de moedas, principalmente em pedágios, onde o troco miúdo era importante para reduzir filas. Hoje, cabines automáticas e pagamentos via tag acabaram com o apelo. Já no varejo, a expansão do Pix superou notas e cartões na preferência dos consumidores, eliminando a necessidade de trocos centavo a centavo.
O destino das peças de cobre
Apesar de inexpressivas no bolso, as moedinhas podem valer muito mais na prateleira de um colecionador. Exemplares raros, com tiragem limitada ou defeitos de cunhagem, chegam a ser anunciados por até R$ 100 em sites especializados.

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O que eleva o preço de uma moeda comum
- Quantidade emitida: quanto menor a tiragem, maior a procura.
- Estado de conservação: peças sem marcas de circulação, chamadas “flor de cunho”, são as mais disputadas.
- Diferenciais de fábrica: erros como a cunhagem descentralizada, apelidada “boné”, podem multiplicar o valor.
Erro “boné” vira objeto de desejo
Nesse tipo de falha, o disco se desloca antes do carimbo e parte do desenho fica fora do centro, deixando área lisa no campo da moeda. Segundo Bruno Pellizzari, presidente da Sociedade Numismática Brasileira, peças com esse defeito chegam a ser vendidas por dezenas de reais, dependendo do grau de deslocamento e do estado de conservação.
Banco Central não planeja extinguir 5 e 10 centavos
Questionado, o Departamento do Meio Circulante do BC informou que não há discussão sobre parar a fabricação das moedas de 5 e 10 centavos. Apesar de sofrerem impacto semelhante da inflação, essas denominações ainda cumprem papel relevante no troco do varejo. A produção segue ativa e dentro dos custos considerados aceitáveis pela autoridade monetária.
Como devolver ou usar as moedas esquecidas
Quem encontrar punhados de 1 centavo em casa pode depositar normalmente em qualquer agência bancária, utilizar em pagamentos presenciais ou trocá-las por cédulas nos caixas que aceitarem. Embora raramente solicitadas, as instituições financeiras são obrigadas a receber as peças, pois elas mantêm curso legal.
R$ 32 milhões parados: impacto é maior do que parece
Os quase 32 milhões de reais retidos equivalem a pouco menos de 0,01 % de todo o meio circulante em espécie, mas refletem um gargalo logístico. Cada lote de moedas custa espaço de armazenamento, transporte e contagem. Quando somadas, as 3,19 bilhões de unidades atingem cerca de 20 mil toneladas—peso similar ao de três torres Eiffel.
Alternativas estudadas em outros países
Canadá, Austrália e Nova Zelândia também aposentaram seus centavos metálicos. Nessas economias, valores fracionados passaram a ser arredondados para facilitar o troco, prática chamada “rounding”. No Brasil, porém, o BC descarta a medida: criaria diferença entre preço à vista e no cartão, além de exigir mudanças em sistemas fiscais e no próprio Código de Defesa do Consumidor.
Moeda pequena, discussão grande
No fim das contas, a moeda de 1 centavo permanece como curiosidade histórica e obstáculo prático. Ela existe, tem valor, mas pouca utilidade na rotina. Até que a legislação seja alterada, continuará valendo cada centavo—e custando bem mais do que isso ao País, seja em cobre, seja em espaço nas gavetas domésticas.