O governo do Iraque anunciou, na manhã desta quarta-feira (29), uma reunião urgente de segurança para avaliar os ataques aéreos lançados pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita contra instalações usadas por facções alinhadas ao Irã em solo iraquiano. A investida bilateral ocorreu poucas horas depois de Washington relatar a interceptação de mísseis iranianos disparados contra tropas americanas no Oriente Médio, reacendendo o temor de uma escalada regional.
Segundo autoridades de Bagdá, as bases da Autoridade de Mobilização Popular (PMF, na sigla em inglês) atingidas ficam principalmente no leste do país e sofreram “vários mortos e feridos”, além de danos estruturais. Embora a PMF seja parte formal das Forças Armadas iraquianas, parte de suas brigadas atua de maneira autônoma e mantém laços estreitos com Teerã.
Da interceptação de mísseis à retaliação coordenada
O clima de tensão ganhou corpo na madrugada, quando o Comando Central dos EUA (CentCom) informou ter abatido mísseis balísticos disparados pela Guarda Revolucionária iraniana contra posições militares norte-americanas na Jordânia. Teerã admitiu o lançamento, alegando que mirou “instalações de ocupação”. Nenhum militar dos EUA teria sido ferido, segundo comunicado oficial.
Horas depois, Washington e Riad anunciaram uma ação conjunta no leste do Iraque. De acordo com os dois governos, os alvos serviam para o planejamento de ataques com drones contra infraestruturas petrolíferas sauditas. A monarquia divulgou nota dizendo não desejar “qualquer escalada”, mas prometeu responder a novas ameaças.
Como ficaram as posições iraquianas
- Quartéis da PMF em pelo menos três províncias foram bombardeados.
- Relatos preliminares citam mortos, feridos e “grandes perdas materiais”.
- Bagdá afirma que não foi informado previamente da operação.
O primeiro-ministro Ali al-Zaidi ordenou investigação sobre possíveis violações de soberania e convidou chefes militares, ministros e representantes das milícias a participarem de um conselho extraordinário ainda hoje. Fontes ligadas ao gabinete temem que o episódio repita o ciclo de represálias que marcou 2025, quando bases americanas no Iraque foram alvos de foguetes após ataques similares.
Reações de Teerã e repercussão global
O governo iraniano negou ter incentivado grupos aliados a atacar alvos sauditas e chamou as acusações de “grave erro de cálculo”. O Ministério das Relações Exteriores em Teerã sustentou que a resposta de EUA e Arábia Saudita “viola as normas internacionais” e advertiu para “consequências imprevisíveis”.
Em chancelerias ocidentais, o movimento é visto como sinal de que Washington pretende conter rapidamente ações consideradas hostis de Teerã, sobretudo após o fiasco diplomático em torno do estreito de Ormuz. A via marítima, por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial, voltou ao centro das discussões nesta semana, quando o Irã rejeitou proposta de Omã para uma administração regional compartilhada da passagem.
Impacto no mercado de energia
A sucessão de ataques mexeu com as cotações do petróleo. O barril do Brent, referência internacional, subiu mais de US$ 3 no pregão matutino, atingindo patamares que não eram vistos desde o pico de tensões de abril. Analistas atribuem a alta ao receio de interrupções no fluxo do Golfo Pérsico, já afetado por recentes ataques a navios mercantes.
Operadores também monitoram possíveis sanções adicionais ao Irã, que poderiam restringir ainda mais a oferta global. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita indicou que manterá o corte voluntário de produção acordado pela Opep+, argumentando que “estabilidade de preços é fundamental em tempos de incerteza geopolítica”.
Situação militar no terreno
Militares iraquianos relataram que os bombardeios desta quarta envolveram mísseis de cruzeiro e aeronaves não tripuladas. Testemunhas em Nasiriyah, Basra e Amara descreveram “explosões consecutivas” no início da noite local, seguidas pelo sobrevoo de jatos em baixa altitude. Socorristas trabalham para remover escombros em pelo menos duas bases da PMF.

Imagem: Media Office of the Prime Minister
Até o momento, Washington não detalhou quantas aeronaves participaram nem se forças americanas pisaram em solo iraquiano. A Arábia Saudita, por sua vez, limitou-se a dizer que a operação foi “pontual” e “cirúrgica”. Segundo fontes diplomáticas, os dois países usaram canais de comunicação para informar Israel e Emirados Árabes Unidos, mas não consultaram formalmente Bagdá.
Risco de cadeia de retaliações
Especialistas em segurança lembram que a fronteira leste do Iraque funciona como corredor logístico para facções ligadas ao Irã na Síria e no Líbano. Qualquer ataque nessa área, avaliam, pode acionar respostas de grupos como Kataib Hezbollah e Asaib Ahl al-Haq, que já realizaram disparos de foguetes contra bases americanas no passado.
O governo iraquiano teme, sobretudo, o desgaste interno. Aliadas do Irã detêm blocos influentes no parlamento e pressionam pela retirada completa de tropas estrangeiras. Num cenário de eleições municipais previstas para o fim do ano, novos bombardeios podem catalisar discursos anti-ocidente e comprometer a frágil coalizão de Zaidi.
Próximos passos de Bagdá
Entre as medidas analisadas na reunião de emergência estão:
- Solicitar explicações formais aos governos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita sobre os critérios da operação.
- Reforçar a defesa antiaérea em bases compartilhadas com a coligação liderada pelos EUA.
- Convocar o Conselho de Segurança da ONU para denunciar violação de soberania.
- Acelerar negociações com países vizinhos para criar um “mecanismo de desconflito” em território iraquiano.
Diplomatas em Bagdá indicam que o país pode buscar apoio da Rússia e da China para pressionar por uma resolução neutra nas Nações Unidas. Ainda não há, porém, consenso dentro do governo sobre a expulsão das tropas americanas que treinam o Exército iraquiano desde 2014.
O que dizem os atores externos
• Estados Unidos – A Casa Branca reiterou que agiu em “legítima defesa” após detectar planejamento de novos ataques contra interesses americanos e sauditas.
• Arábia Saudita – O Ministério da Defesa afirmou que as bases destruídas eram usadas para montar drones armados lançados recentemente contra refinarias no reino.
• Irã – Classificou a ofensiva de hoje como “provocação perigosa” e negou vínculo direto com as facções atingidas.
• ONU – O secretário-geral pediu “moderação máxima” e lembrou todas as partes de que o Iraque “não deve tornar-se palco de disputas por procuração”.
Cenário aberto e volatilidade crescente
Com a convocação da cúpula de segurança, Bagdá tenta retomar o controle político de uma crise que amplia incertezas no Oriente Médio. A simultaneidade de mísseis iranianos, interceptações americanas e ofensiva saudita impulsiona uma cadeia de ações e reações que pode escapar da órbita diplomática tradicional.
Analistas lembram que a última vez que EUA e Arábia Saudita atuaram em conjunto dentro do Iraque foi em 2003, ainda no contexto da invasão liderada por Washington. Desde então, o país tornou-se peça-chave na disputa entre Teerã e Riad pela influência regional. Se confirmadas novas baixas na PMF, a resposta das milícias pró-Irã oferecerá pista sobre a velocidade — e o alcance — da possível escalada.
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