O prestigiado Evett, casa de alta gastronomia com duas estrelas Michelin no bairro de Gangnam, em Seul, foi sentenciado a pagar 25 milhões de wons — aproximadamente R$ 92 mil — por utilizar formigas importadas como cobertura de uma sobremesa. A decisão, proferida em 16 de setembro pelo Tribunal Distrital Oeste da capital sul-coreana, considerou que os insetos não faziam parte da lista positiva de espécies autorizadas para consumo no país e ainda apresentavam índices de metais pesados acima dos limites permitidos.
Além da penalidade financeira, a Promotoria pleiteava um ano de prisão para a representante legal do restaurante, mas o juiz optou por aplicar apenas a multa, citando a colaboração com a investigação, a ausência de antecedentes e o reconhecimento do erro. Apesar disso, a sentença ressaltou o objetivo central da lei sanitária: proteger a saúde pública de ingredientes potencialmente nocivos.
Como as formigas chegaram ao prato principal da polêmica
Por cerca de quatro anos, entre abril de 2021 e janeiro de 2025, o Evett incluiu no menu degustação um sorbet inspirado no sikhye — bebida tradicional à base de arroz — coroado com três a cinco formigas desidratadas. Importados dos Estados Unidos e da Tailândia, os insetos eram oferecidos para acrescentar um toque ácido, segundo o restaurante. Fotografias anexadas ao processo mostram os pequenos animais inteiros pousados sobre o sorvete claro, detalhe que passou a circular em redes sociais de clientes curiosos.
A cobertura com formigas era opcional, defendem os advogados da casa, que contestam o número citado pela acusação — estima-se que o prato tenha sido servido cerca de 12 mil vezes. Ainda assim, a simples presença das espécies no cardápio já configurava infração, pois a legislação sul-coreana autoriza apenas dez tipos de insetos para uso culinário, e nenhuma das formigas importadas constava nessa relação.
Testes laboratoriais agravaram o caso
Durante a apuração conduzida pelo Ministério de Segurança de Alimentos e Medicamentos, amostras das formigas revelaram a existência de metais pesados acima dos níveis admitidos. O laudo reforçou a tese de risco à saúde coletiva e serviu como base técnica para a multa. O tribunal concluiu que, embora o ingrediente seja consumido em outras partes do mundo, ele não atendia às regras específicas do mercado sul-coreano.
Postura do restaurante: mea-culpa e promessa de mudanças
Antes mesmo da decisão, o Evett admitiu ter falhado ao não checar a lista positiva de insetos permitidos. Em comunicado encaminhado à imprensa estrangeira, a direção afirmou que a importação das formigas passou pelos trâmites aduaneiros regulares, mas reconheceu que tal procedimento não substitui a obrigação de verificar se o item pode, de fato, ser servido ao público.
O estabelecimento garantiu ter retirado imediatamente o ingrediente do menu quando a investigação foi aberta e declarou não ter conhecimento de intoxicações ou queixas médicas relacionadas ao consumo. Medidas internas, segundo o documento, foram adotadas para reforçar a triagem de novos produtos antes de sua inclusão nos pratos.
Quem comanda o Evett
Dirigido na cozinha pelo chef australiano Joseph Lidgerwood, o Evett ganhou notoriedade por releituras contemporâneas de insumos coreanos, técnicas de fermentação e produtos coletados na natureza. Lidgerwood, que também é acionista, não figurou entre os réus do processo porque não responde legalmente pela empresa perante as autoridades. O restaurante recebeu a segunda estrela Michelin na edição de 2025, reconhecimento que destacou o próprio sorbet de sikhye — embora sem mencionar as formigas.
Entenda o sistema sul-coreano para insetos comestíveis
Diferentemente de países que liberam qualquer espécie desde que não ofereça risco comprovado, a Coreia do Sul adota um modelo de “lista positiva”: apenas os insetos previamente aprovados podem ser comercializados como alimento. Atualmente, dez espécies — geralmente larvas, grilos e bichos-da-seda — compõem o rol permitido. Qualquer novidade deve passar por avaliação toxicológica, comprovação nutricional e registro oficial.
Ao importar diretamente as formigas sem verificar sua inclusão na lista, o Evett infringiu dois artigos da lei sanitária: uso de matéria-prima não autorizada e oferta de produto potencialmente prejudicial à saúde. A faixa de multa aplicada pelo tribunal ficou abaixo do teto máximo previsto, mas suficiente para deixar o caso como alerta ao pujante mercado gourmet de Seul.
Micelinhas não blindam contra infrações
O Guia Michelin, responsável pela cobiçada honraria que turbinou a fama do Evett, avalia apenas aspectos culinários: qualidade dos insumos, harmonia de sabores, domínio técnico, personalidade do chef e consistência ao longo do tempo. As inspeções são anônimas, pagas pelos próprios avaliadores e independentes de protocolos sanitários. Portanto, a chancela não isenta restaurantes de cumprir rigorosamente as normas de segurança alimentar.
Repercussão e lições para a cena gastronômica
Embora o valor de R$ 92 mil seja modesto perto do faturamento de um restaurante de luxo, a publicidade negativa pode custar caro a qualquer marca de fine dining. Críticos locais apontam que o episódio sublinha a necessidade de maior diálogo entre chefs inovadores e órgãos reguladores, sobretudo quando a criatividade envolve ingredientes incomuns.
Especialistas em segurança alimentar lembram que insetos podem, sim, ser fonte sustentável de proteínas, mas a cadeia deve obedecer padrões de cultivo, processamento e rastreabilidade. Quando essas etapas falham — como ocorreu com as formigas secas de origem estrangeira — abrem-se brechas para contaminações e litígios.
Do ponto de vista jurídico, advogados consultados veem a sentença como indicativo de que o Judiciário sul-coreano tende a privilegiar a pedagogia da multa em vez de encarcerar réus primários em casos sem vítimas diretas. Ainda assim, o precedente pressiona outros estabelecimentos a revisar cartas e fornecedores para evitar deslizes semelhantes.
Próximos passos do Evett
Procurada novamente após o veredito, a administração do Evett informou que não vai recorrer e que o foco agora é reforçar controles internos, sem alterar o conceito de “cozinha inovadora” que lhe rendeu aplausos internacionais. A casa segue aberta e mantém as duas estrelas, já que o Guia Michelin só se pronuncia sobre sanções sanitárias se elas comprometerem a qualidade culinária — o que, por ora, não ocorreu.
Enquanto isso, a Autoridade de Alimentos e Medicamentos planeja intensificar fiscalizações em restaurantes de alta gama, sobretudo aqueles que apostam em ingredientes exóticos. A aposta do órgão é que a visibilidade do caso Evett ajude a disseminar boas práticas e a diminuir a distância entre inventividade gastronômica e segurança do consumidor.
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