A divulgação de um reajuste de 5,5% nos repasses às organizações de assistência social da cidade de São Paulo virou palco de campanha eleitoral. Convidadas pela secretária municipal da pasta, Eliana Gomes, as gestoras de entidades filantrópicas foram recebidas, na noite de quinta-feira (17), em um salão repleto de cartazes que pediam voto para a primeira-dama, Regina Nunes (MDB), e para o ex-secretário de Habitação Sidney Cruz (MDB). O anúncio, feito na tradicional Pizzaria Moraes, no Bixiga, ocorreu sem qualquer referência eleitoral no convite original, mas acabou marcado pela exibição maciça de material de campanha.
A movimentação gerou desconforto entre participantes e levantou suspeitas sobre uso de estrutura pública para fins eleitorais. A prefeitura nega vínculo entre o reajuste e a propaganda, mas admite que o encontro foi organizado pela secretária responsável pela assinatura da portaria que deverá oficializar o aumento já nesta segunda-feira (21).
Convite neutro e promessa de diálogo
Em mensagem enviada às dirigentes de organizações sociais, Eliana Gomes descreveu o encontro como “um diálogo sobre desafios e perspectivas da assistência social”. Nenhuma menção a candidatos ou pedido de apoio apareceu no texto. A categoria aguardava, porém, a confirmação de um reajuste prometido desde o ano passado e reforçado após protesto realizado em agosto, quando trabalhadores fecharam parcialmente o Viaduto do Chá para pressionar a gestão municipal.
Pressão antiga por recomposição
A necessidade de aumento nos valores pagos pela prefeitura ganhou força depois da publicação, na terça-feira (15), de um decreto que remanejou recursos de outras secretarias para a assistência social. A movimentação indicava que o índice seria, de fato, anunciado. Representantes das entidades, que administram equipamentos como abrigos, centros de acolhida e serviços de convivência, afirmam que a defasagem ultrapassava 30% em relação aos custos atuais.
Atmosfera de campanha em restaurante histórico
Logo na entrada da Pizzaria Moraes, inaugurada em 1933 e ponto tradicional do Bixiga, as convidadas depararam com um palco ladeado por banners de Regina Nunes e Sidney Cruz, além de um telão que exibia imagens dos dois candidatos. Segundo relatos, a surpresa se transformou em desconforto: o jantar, anunciado como evento técnico, revelava um forte caráter político-eleitoral.
O anúncio no microfone
Do palco, Eliana Gomes confirmou o reajuste de 5,5% e disse que a portaria seria publicada no Diário Oficial. Em vídeo gravado após o encontro e divulgado nas redes sociais, ela atribuiu o aumento ao prefeito: “A gestão Ricardo Nunes investe em pessoas”, declarou, sem citar o ambiente de campanha no qual a fala ocorreu.

Imagem: Internet
Quem pagou a conta?
Em nota inicial, a Secretaria Municipal de Assistência Social informou que todo o jantar fora custeado por Eliana Gomes, que recebe salário de R$ 34,7 mil mensais. Questionada novamente, a pasta mudou a versão e afirmou que “os custos foram pagos pelos próprios convidados”. Mulheres presentes contestam: garantem não ter desembolsado nenhum valor. Funcionários do restaurante confirmaram a existência de comandas individuais, mas não souberam informar quem arcou com a despesa total.
Doações de campanha não registradas
Até quinta-feira (17), a Justiça Eleitoral não registrava nenhuma doação da secretária às campanhas de Regina Nunes ou Sidney Cruz. Caso o jantar seja caracterizado como gasto eleitoral não declarado, as candidaturas podem ser alvo de representação por abuso de poder político e econômico.
Posicionamentos e riscos jurídicos
Procurada, a equipe do prefeito Ricardo Nunes afirmou, por nota, que “a medida não está condicionada a apoio político” e que a administração “não orienta, autoriza nem compactua com convocações para atos de natureza eleitoral”. O vereador licenciado Sidney Cruz disse não ter conhecimento prévio do jantar. Já Regina Nunes não se manifestou.
Histórico de investigação
O casal Nunes já é investigado por improbidade administrativa num caso envolvendo um videomaker contratado pela Secretaria de Direitos Humanos que, segundo o Ministério Público, produzia material exclusivamente para a primeira-dama. A exposição de propaganda em um evento oficial reforça a atenção de órgãos de controle sobre eventual uso da máquina pública em benefício de candidaturas ligadas ao prefeito.
