Uma sequência de 450 bombardeios realizados pela Força Aérea da Arábia Saudita contra posições houthi na fronteira com o Iêmen, entre domingo e esta quarta-feira (16), acendeu novo pavio no conflito que vinha relativamente adormecido desde 2022. Horas depois, os rebeldes iemenitas pró-Irã responderam com um ataque de drones e mísseis ao terminal petrolífero de Yanbu, principal porto saudita no mar Vermelho, aumentando o temor de interrupção de até 4% do fornecimento mundial de petróleo.
Essa troca de golpes recoloca a guerra do Iêmen no centro da crise energética aberta pela disputa entre Estados Unidos e Irã. Desde o início das hostilidades em fevereiro, o barril já saltou de US$ 70 para US$ 108 nos contratos futuros, acirrando a pressão sobre a Casa Branca em ano eleitoral e sobre a economia global.
Frente terrestre volta a pegar fogo
De acordo com o comando houthi, os 450 bombardeios sauditas concentraram-se em províncias fronteiriças ao norte do Iêmen, onde os rebeldes consolidaram defesas depois de tomarem a capital, Sanaa, em 2014. Riad não divulga números de suas operações, mas aliados iemenitas abrigados em Áden confirmaram a ofensiva.
A ação encerra quatro anos de relativa calmaria no front, resultado de um pacto informal que congelara a guerra civil iniciada em 2015. A retomada dos combates foi precipitada em julho, quando o fortalecido conflito indireto entre Teerã e Washington devolveu fundos e armas ao movimento houthi, que passou a sustentar ataques pontuais a Israel e a concentrar forças ao longo da costa do mar Vermelho.
Yanbu sob fogo: o coração logístico de Riad no mar Vermelho
O contra-ataque houthi teve como alvo o complexo da Aramco em Yanbu, conectado aos campos petrolíferos do leste saudita por um oleoduto construído justamente para contornar ameaças no golfo Pérsico. Com o estreito de Hormuz instável devido à crise EUA–Irã, Yanbu se tornara a principal alternativa de escoamento. A Aramco não comentou publicamente os danos, mas executivos cogitam paralisação temporária do fluxo, algo que o mercado receia transformar em novo gargalo global.
Pressão sobre rotas energéticas
- Se o oleoduto que desemboca em Yanbu permanecer fechado, estima-se que até 4% do petróleo mundial fique retido.
- O preço do barril atingiu US$ 108, refletindo não apenas o ataque desta quarta, mas a percepção de que o Irã utiliza a escalada como carta de barganha com Washington.
- Empresas de navegação revisam rotas para evitar o estreito de Bab el-Mandeb, já sob mira de drones e mísseis houthis.
Disputa nos céus: F-15 teria sido abatido
O porta-voz militar houthi, Yahya Saree, afirmou que suas baterias antiaéreas derrubaram um caça F-15 saudita durante os bombardeios de quarta-feira. Até o fechamento desta edição não havia imagens de destroços ou confirmação de Riad. A Arábia Saudita costuma silenciar sobre perdas aéreas, mas a alegação, se comprovada, marcaria a primeira queda de um F-15 saudita desde o início do conflito.
Na véspera, defesas do reino haviam destruído um drone rebelde nas proximidades de Meca. A ação levou a Liga Árabe a condenar “qualquer ameaça ao local mais sagrado do islamismo”, enquanto os houthis negaram ter lançado o artefato.
Reação regional e impasse com Washington
Dirigentes sauditas teriam solicitado ajuda militar direta dos Estados Unidos, repetindo o apoio concedido a Israel no início da crise. A Casa Branca, preocupada com o custo político de abrir nova frente de combate a menos de um mês das eleições legislativas de novembro, recusou por ora a ideia. O presidente Donald Trump, pressionado pela disparada dos combustíveis, chegou a anunciar uma trégua inexistente entre Rússia e Ucrânia para tentar atribuir a escalada de preços a outro foco de tensão energética.

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Irã move as peças
Especialistas veem a ofensiva houthi como instrumento de Teerã para forçar Washington a relaxar sanções ou abrir negociação. Cada avanço rebelde no mar Vermelho adiciona prêmio de risco ao barril e reforça a posição iraniana na mesa diplomática.
Áden teme ser o próximo alvo
Enquanto isso, a cidade portuária de Áden, onde se abriga o governo iemenita deposto, vive expectativa de uma ofensiva relâmpago. Após anos de imobilismo, os houthis conquistaram praticamente toda a fachada litorânea do mar Vermelho e posicionaram drones e mísseis na entrada do estreito de Bab el-Mandeb, por onde transita boa parte do comércio Europa-Ásia.
Com a possível queda de Áden, os rebeldes consolidariam controle territorial capaz de sufocar não só os terminais sauditas, mas também rotas comerciais que respondem por bilhões de dólares em fretes anuais. Armadores calculam prêmios de seguro crescentes para cruzar a região, repetindo o cenário de 2023 a 2025, quando investidas semelhantes elevaram custos logísticos e contribuíram para inflação global.
Perspectivas imediatas
Analistas de energia projetam volatilidade prolongada no mercado de petróleo enquanto a Arábia Saudita não restabelecer pleno funcionamento de Yanbu e do oleoduto leste-oeste. Ao mesmo tempo, a ausência de resposta militar direta dos EUA coloca Riad diante do desafio de conter sozinha a artilharia houthi, agora municiada por avanços técnicos que incluem drones de longo alcance e mísseis superfície-ar capacitados a ameaçar caças de quarta geração.
Com os bombardeios se intensificando e o porto saudita atacado, diplomatas enxergam duas janelas possíveis: uma negociação mediada pela ONU, que já tentou cessar-fogo em anos anteriores, ou uma escalada que arraste Israel e Estados Unidos, ampliando o espectro do conflito no Oriente Médio. Por ora, a balança pende para o confronto, impulsionada pela alta do petróleo e pela arritmia do calendário eleitoral norte-americano.
