Briga interna no STF paralisa investigação sobre Moraes e contamina campanha de Lula

    0

    A sessão plenária do Supremo Tribunal Federal (STF) que prometia esclarecer suspeitas de favorecimento ao ministro Alexandre de Moraes terminou em nova fratura dentro da Corte e empurrou qualquer decisão para depois das eleições. Enquanto ministros trocavam acusações sobre vazamentos e manobras regimentais, o processo foi paralisado por um pedido de vista de Flávio Dino, abrindo um vácuo institucional que respinga diretamente na campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

    A indefinição judicial — descrita por analistas como “espetáculo de horrores” — alimenta a desconfiança popular, deteriora a imagem do governo e oferece munição à oposição, que tenta colar em Lula a proximidade com Moraes, relator dos atos golpistas e responsável pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Pesquisas internas já registram queda na avaliação do Planalto em meio à crise, sinalizando que o desgaste no STF pode custar preciosos votos ao petista.

    Troca de farpas e manobras regimentais

    O plenário iniciou o julgamento de duas ações que pedem investigação formal sobre supostos pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filho de Moraes, advogado do Banco Master. Antes mesmo de penetrar no mérito, ministros se engalfinharam em debates processuais. Gilmar Mendes acusou o relator André Mendonça de “partidarizar” o caso ao liberar trechos sigilosos justamente na semana do 7 de Setembro, data explorada por grupos bolsonaristas.

    Mendonça rebateu, afirmando que “cumpriu o dever constitucional de transparência”. A temperatura subiu com dedos em riste e reclamações sobre vazamentos seletivos. Quando o clima já era de racha explícito, Flávio Dino pediu vista — adiando em até 90 dias a retomada do julgamento. Nos bastidores, ministros próximos a Moraes consideraram a atitude uma “tábua de salvação” temporária.

    Autodeclaração de impedimento de Nunes Marques

    Logo no início, Kassio Nunes Marques declarou-se impedido. Como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegou que precisa concentrar esforços no pleito municipal, mas a justificativa veio horas depois de mensagens, atribuídas a Vorcaro, sugerirem pagamento ao filho do ministro. A saída de cena gerou rumores de que outras autoridades podem aparecer nas conversas extraídas do celular do ex-banqueiro.

    Placar indefinido favorece o investigado

    Especialistas ouvidos por O Repórter lembram que, em matéria penal, um empate beneficia o réu. Caso o tema volte ao plenário completo, Moraes precisaria de pelo menos seis votos contrários à abertura de investigação para afastar de vez o risco de inquérito. Com Nunes Marques fora e Dino segurando o processo, o cenário torna-se favorável ao ministro acusado.

    Efeito colateral na corrida eleitoral

    Para o cientista político Leonardo Barreto, a paralisação “sacrifica” a candidatura de Lula ao impedir que o governo capitalize a recuperação econômica e as políticas sociais durante a campanha. “A opinião pública está hipnotizada pelo conflito no Supremo. Enquanto isso, a avaliação de ótimo e bom do governo cai, algo inédito em ano eleitoral”, observa.

    Embora Lula não apareça em nenhuma das supostas transações, a oposição reforça o discurso de que o presidente seria “protegido” por Moraes. Do outro lado, Flávio Bolsonaro é citado em diálogos pedindo recursos a Vorcaro, mas o foco da narrativa recai sobre a proximidade entre Executivo e Judiciário. A associação, segundo Barreto, pesa porque “o cidadão médio não distingue as esferas de poder; vê tudo como parte do mesmo sistema”.

    Queda na aprovação

    Levantamentos qualitativos enviados ao Planalto mostram erosão de cinco pontos na avaliação positiva do governo desde que o escândalo ganhou fôlego. O Planalto ainda busca estratégia de comunicação capaz de dissociar Lula do imbróglio, mas enfrenta barreira: qualquer defesa pública de Moraes poderia soar como ingerência indevida nos assuntos do Supremo.

    Como a crise se instalou

    O estopim foi a divulgação de mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, investigado por crimes financeiros. Trechos indicariam que recursos teriam sido repassados ao filho de Moraes em troca de facilidades regulatórias — suspeita que o ministro nega veementemente. A partir daí, parlamentares bolsonaristas protocolaram notícia-crime contra Moraes no STF.

    Coube a André Mendonça, designado relator por sorteio eletrônico, analisar a peça. Ele solicitou pareceres, autorizou quebras de sigilo e, na semana pátria, tornou público parte do conteúdo, alegando “interesse social”. O gesto acirrou ânimos dentro da Corte. Gilmar Mendes enxergou “uso eleitoreiro” e acusou o colega de transformar o tribunal “num palanque”.

    Presidência dividida

    Edson Fachin, como presidente temporário — a sucessão ocorre em novembro —, tentou conter o impasse propondo votar, separadamente, as preliminares e o mérito. A solução passaria por sua prerrogativa de votar duas vezes em caso de empate, mas o pedido de vista de Dino esvaziou a costura. Nos corredores, aliados de Mendonça falam em “virada de mesa”; já o grupo de Moraes diz que “o regimento foi respeitado”.

    Riscos de descrédito institucional

    Para além do impacto eleitoral, a sucessão de ataques mútuos aprofunda a fratura interna do STF e alimenta a percepção de que ministros atuam movidos por interesses pessoais. “Quando a discussão gira só em torno de ritos e não do conteúdo, o cidadão se sente enganado. Fica parecendo que ninguém ali quer esclarecer nada”, resume Barreto.

    Entidades da sociedade civil alertam para o desgaste na confiança nas instituições, já corroída por anos de polarização. Organizações de juristas pedem que a Corte adote critérios objetivos de impedimento e acelere julgamentos envolvendo seus membros. Até agora, porém, não há acordo para acelerar o caso Moraes.

    Próximos passos

    • Flávio Dino tem até 90 dias para devolver o processo; na prática, pode segurá-lo até a virada do ano legislativo.
    • Se devolvido antes das eleições, Fachin deve pautar novo julgamento; se não, caberá ao próximo presidente do STF definir data.
    • A Procuradoria-Geral da República pode oferecer denúncia ou arquivar, dependendo das provas colhidas até lá.

    Em meio ao suspense, campanhas ajustam estratégias. A do presidente aposta em exibir programas sociais e crescimento do emprego para deslocar o foco. Já a oposição investe em peças que vinculam o Planalto ao “silêncio conveniente” no STF. Nos bastidores, líderes partidários temem que o embate jurídico contamine toda a agenda legislativa do segundo semestre, travando votações cruciais, como a reforma tributária complementar.

    Até lá, a Corte máxima do país segue mergulhada em um impasse que, para muitos, já extrapolou o jurídico. A cada novo adiamento, cresce a sensação de que a luta interna por poder no STF cobra seu preço não só do processo eleitoral, mas da própria credibilidade do sistema de Justiça.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.