Impulsionado por um cheque de R$ 5,7 milhões assinado pelo baiano Carlos Seabra Suarez, o total de doações de pessoas físicas declaradas até agora na campanha de 2026 já soma R$ 374,9 milhões. Conhecido no setor de energia como o “Rei do Gás”, Suarez concentrou seus repasses em seis siglas situadas entre o centro e a centro-direita, ajudando a reforçar a predominância de legendas desse espectro ideológico no caixa eleitoral.
Os números constam da prestação de contas parcial divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento mostra que cinco empresários respondem, juntos, por quase R$ 17,3 milhões – valor decisivo para disputa de governadores, senadores e deputados nas regiões onde esses grupos mantêm interesses comerciais.
Quem são os maiores doadores pessoas físicas de 2026
Carlos Seabra Suarez – R$ 5,7 milhões
Fundador da Termogás e acionista de concessionárias como Potigás, Cergás, Algás e Compagas, Suarez assumiu a dianteira do ranking ao transferir R$ 1 milhão para cada uma das direções nacionais de MDB, PP, PSD, PSDB e União Brasil, além de R$ 700 mil ao PSB. Desde que empresas foram proibidas de doar, em 2015, ele passou a atuar como financiador individual, motivado pela defesa de marcos regulatórios que estimulem investimentos privados em infraestrutura de gás. O empresário também costura projetos como a usina UTE Rima, no Distrito Federal, e trava disputas judiciais que podem alterar contratos de térmicas no Amazonas.
Alexandre Grendene Bartelle – R$ 3,6 milhões
Cofundador da fabricante de calçados Grendene, Bartelle concentrou suas contribuições nos estados que abrigam as principais plantas da empresa. Ele destinou R$ 2,5 milhões à campanha de Luciano Zucco (PL) ao governo do Rio Grande do Sul, R$ 500 mil para Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo Executivo cearense e outros R$ 500 mil ao irmão dele, Cid Gomes (PSB), que tenta o Senado. Completa a lista uma transferência de R$ 100 mil para a ex-primeira-dama gaúcha Regina Becker Fortunati (PDT), candidata a deputada estadual. A escolha de nomes alinhados à pauta industrial e à simplificação tributária reflete interesses diretos do setor calçadista.
Rubens Ometto – R$ 2,95 milhões
Presidente do conselho da Cosan e da Raízen, Ometto mantém histórico de doações plurais. Em 2026, pulverizou recursos entre partidos que vão do PT ao PL. Foram R$ 200 mil a cada um dos deputados federais João Junior (Democrata-MG), Carlos Zarattini (PT-SP) e Antonio Carlos Rodrigues (PL-SP), R$ 150 mil ao petista João Ribeiro Barroso Filho (CE) e R$ 100 mil a cinco outros nomes de Republicanos, União Brasil, PSD, MDB e PL. No âmbito partidário, injetou R$ 1 milhão no MDB nacional, R$ 300 mil no PL do Tocantins e R$ 200 mil no PP de Mato Grosso do Sul. A estratégia mira interlocução com frentes ligadas a infraestrutura, agronegócio e transição energética, áreas vitais ao conglomerado que também controla a Comgás.
Robert Carlos Lyra – R$ 2,6 milhões
À frente da Delta Sucroenergia, Lyra direcionou R$ 1,5 milhão ao diretório nacional do PP e reservou o restante para candidaturas mineiras. Entre elas, o governadorável Flavio Roscoe (PL), que recebeu R$ 500 mil, e o deputado Reginaldo Lopes (PT), contemplado com R$ 205 mil. O perfil diverso inclui ainda R$ 200 mil para Nikolas Ferreira (PL) e R$ 50 mil para Betinho Pinto Coelho (União Brasil). As doações reforçam a relação do grupo sucroalcooleiro com temas como biocombustíveis, crédito agrícola e incentivos fiscais à produção de etanol.
Pedro Grendene Bartelle – R$ 2,45 milhões
Irmão de Alexandre, Pedro repetiu a aposta em campanhas do Nordeste e do Sul. O maior desembolso — R$ 1 milhão — foi para Elmano de Freitas (PT), candidato ao governo do Ceará. Outros R$ 500 mil foram destinados tanto a Ciro quanto a Cid Gomes. O empresário ainda distribuiu valores menores a postulantes de PL, PSB, PSD e PSDB, indicando estratégia de manter pontes em diferentes alas políticas.
Predominância de centro e direita na destinação dos recursos
Embora alguns cheques tenham alcançado siglas da esquerda, a maior parte dos milhões listados na prestação de contas foi parar em partidos do centro e da direita. Somente os diretórios nacionais de MDB, PP, PSD e União Brasil, por exemplo, receberam R$ 4,5 milhões de Suarez e R$ 1,5 milhão de Ometto, reforçando seus cofres em meio à disputa por cadeiras no Congresso e por governos estaduais.
O equilíbrio das doações chama atenção por ocorrer em pleno ciclo eleitoral marcado pela fragmentação partidária. Ao optar por repasses diretos aos diretórios, os empresários permitem que as executivas nacionais redistribuam recursos conforme prioridades estratégicas, ampliando a influência sobre as chapas proporcionais.

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Impacto regional
- No Rio Grande do Sul, o comando de campanha de Luciano Zucco saltou à dianteira das arrecadações estaduais graças aos R$ 2,5 milhões vindos de Alexandre Grendene.
- No Ceará, os irmãos Gomes — Ciro e Cid — reforçaram caixa com R$ 1 milhão oriundo do mesmo grupo empresarial, além de outros R$ 1 milhão de Pedro Grendene e R$ 1 milhão destinados a Elmano de Freitas.
- Em Minas Gerais, Robert Lyra tornou-se peça-chave para candidaturas do PL e do PT ao destinar quase R$ 1 milhão em doações locais.
Modos de atuação
Todos os empresários citados atuam em setores sujeitos a regulação estatal — energia, combustíveis, calçados, açúcar e álcool. A proibição de doações de pessoas jurídicas, em vigor desde 2015, não reduziu o interesse dessas corporações em acompanhar de perto o processo legislativo. Em vez disso, ampliou o protagonismo dos sócios, que utilizam seus CPFs para financiar campanhas alinhadas a seus projetos de expansão, segurança jurídica e redução de custos tributários.
Prestação de contas ainda é parcial
O Tribunal Superior Eleitoral continuará recebendo lançamentos até o fim da corrida eleitoral. Por enquanto, os R$ 374,9 milhões declarados por pessoas físicas representam cerca de um quinto do total arrecadado pelas campanhas. Quando forem somadas as parcelas dos fundos público partidário e eleitoral, a proporção tende a diminuir, mas o peso individual desses megadoadores continuará relevante, especialmente em disputas regionais menos favorecidas pelas direções partidárias.
Especialistas em financiamento de campanha destacam que a pulverização entre siglas ideologicamente distintas pode diluir riscos aos empresários, que mantêm interlocução aberta quaisquer que sejam os vencedores. Ao mesmo tempo, criticam a falta de limite agregado para doações de grandes fortunas, mecanismo que, na avaliação deles, reforça a influência de interesses econômicos sobre o processo democrático.
Até o momento, nenhum dos cinco maiores doadores ultrapassou o teto legal de 10% da renda bruta declarada no imposto de renda de 2025, mas entidades de transparência defendem que o TSE verifique, após as eleições, se houve triangulação informal por meio de laranjas ou de doações fracionadas em nomes de familiares.
O que vem a seguir
A etapa final da prestação de contas, prevista para novembro, deve confirmar ou alterar o ranking dos principais financiadores. Enquanto isso, partidos e candidatos seguem apresentando recibos e notas fiscais de gastos, inclusive os bancados com recursos próprios. A Justiça Eleitoral promete digitalizar todos os documentos para consulta pública, permitindo escrutínio de eleitores e entidades de fiscalização.
Com campanhas cada vez mais dependentes de publicidade digital, viagens e estruturas profissionais de mobilização, a expectativa é que a pressão sobre grandes doadores cresça. Resta saber se novos nomes despontarão até o segundo turno ou se o “Rei do Gás” manterá a coroa de maior investidor individual da eleição.
