Sem modernizar suas regras, a Organização Mundial do Comércio (OMC) calcula que o mundo caminhará para um prejuízo bilionário: até 2050, o Produto Interno Bruto global pode encolher 5,1% e as exportações recuar quase 19%. O alerta consta do World Trade Report 2026, principal estudo anual da entidade, divulgado nesta terça-feira (15) em Genebra.
O documento sustenta que a atual onda de protecionismo, subsídios estatais e exigências regulatórias fragmenta cadeias produtivas e esvazia o princípio multilateral que guiou o comércio nas últimas três décadas. Sem reforma, diz a OMC, a instituição perderá força para evitar novas barreiras, aprofundando uma crise que já reduziu de 80% para 72% a fatia do comércio global coberta pela cláusula da nação mais favorecida.
Quanto custa não agir
No cenário-base traçado pelos economistas da organização, a ausência de mudanças empurrará governos a erguer tarifas de forma descoordenada, espalhar normas técnicas incompatíveis e elevar a incerteza sobre investimentos. Além do recuo de 5,1% no PIB mundial, as vendas externas despencariam 18,6% até meados do século. Países de baixa renda sofreriam três vezes mais que a média, ampliando desigualdades.
A projeção se agrava em hipótese extrema, onde a OMC deixaria de existir e o comércio passaria a depender apenas de tratados bilaterais ou regionais. Nesse quadro, o tombo chegaria a 6,9% do PIB global e a 26,9% das exportações. Já um ambiente de cooperação reforçada — com regras atualizadas e adesão ampla — adicionaria 2,9% ao produto mundial e quase 18% às trocas internacionais no mesmo horizonte.
Impacto comparado
- Pior cenário (erosão do sistema): –6,9% do PIB e –26,9% das exportações.
- Inação (manutenção do status quo): –5,1% do PIB e –18,6% das exportações.
- Reforma e cooperação: +2,9% do PIB e +17,9% das exportações.
“A diferença entre um futuro cooperativo e outro fragmentado pode ultrapassar dez pontos percentuais do PIB real”, ressaltou o economista-chefe Robert Staiger, ao defender que “consertar o que está quebrado” é mais barato do que deixar o sistema definhar.
Por que o sistema está pressionado
1. Novo mapa de poder econômico
Desde os anos 1990, países em desenvolvimento quase dobraram sua fatia no comércio de bens e hoje respondem por 45%. O avanço, embora bem-vindo, criou distorções: nações ricas já não dispõem de tarifas a negociar, enquanto emergentes mantêm tetos aduaneiros altos, complicando novos acordos abrangentes.
2. Retorno da política industrial
A proliferação de subsídios trilionários, o uso estratégico de empresas estatais e legislações que privilegiam fornecedores domésticos reacenderam suspeitas de concorrência desleal. Sem critérios claros, iniciativas legítimas, como incentivos à descarbonização, misturam-se a medidas que distorcem preços internacionais.
3. Comércio digital e cadeias globais
Somente em 2025, as transações digitais cresceram 10%. Dados atravessam fronteiras submetidos a legislações nacionais divergentes, para as quais as regras clássicas da OMC não foram desenhadas. Isso gera um mosaico de requisitos que empresas, sobretudo pequenas, têm dificuldade de cumprir.
4. Rivalidade geopolítica
Disputas por supremacia tecnológica e preocupações de segurança levaram potências a restringir exportações de chips, minerais críticos e equipamentos avançados. A tendência fortalece a formação de blocos rivais, reduz a interdependência e multiplica barreiras não tarifárias.
Quatro frentes críticas de reforma
Solução de controvérsias
Paralisado desde 2019, o órgão de apelação — instância final de julgamento de disputas — segue sem juízes porque os Estados Unidos bloqueiam novas indicações. A OMC propõe redesenhar o modelo para restaurar previsibilidade jurídica e evitar que países apliquem retaliações unilaterais.

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Subsídios e políticas industriais
O relatório recomenda critérios transparentes que distingam apoios compatíveis com objetivos globais (por exemplo, redução de carbono) de incentivos puramente protecionistas. A clareza ajudaria a pacificar tensões e evitaria corridas por subsídios que poucos países podem sustentar.
Participação proporcional de emergentes
Com peso crescente, economias de renda média terão de aceitar compromissos de abertura compatíveis com sua influência, sem perder de vista as diferenças de desenvolvimento. A entidade sugere cronogramas graduais e assistência técnica a nações de baixa renda.
Novas modalidades de negociação
Exigir consenso de todos os 166 membros para cada tratado virou missão quase impossível. A OMC avalia ampliar acordos plurilaterais, em que grupos de países interessados avançam em temas específicos — comércio eletrônico, serviços ou meio ambiente — preservando a arquitetura multilateral.
Caminhos possíveis na mesa de Genebra
Os diplomatas discutem uma reforma de “duas velocidades”. Primeiro, destravar o mecanismo de disputas até 2027, data-limite informal fixada na última Conferência Ministerial. Em paralelo, trabalhariam em pacotes temáticos, como regras para fluxos de dados e subsídios verdes.
Outra aposta é a reforma do artigo sobre nação mais favorecida, preservando o princípio de não discriminação, mas permitindo iniciativas piloto entre grupos menores. A ideia é testar compromissos antes de estendê-los a toda a membresia, reduzindo a resistência política.
O que está em jogo
- Poder de impedir guerras tarifárias sucessivas.
- Estabilidade para investimentos de longo prazo em cadeias globais.
- Efeito distributivo: sem reforma, países pobres perdem renda mais rápido.
- Poder de mediar subsídios voltados à transição verde.
- Inserção de pequenas empresas na economia digital.
Para Staiger, o sistema multilateral “não precisa ser demolido, mas sim adaptado”. Ele considera que muitas pressões atuais resultam do próprio sucesso da OMC em integrar novas economias: “Os fundamentos continuam sólidos; o que mudou foi o ambiente”.
Enquanto o debate avança, o relógio corre. Cada ano de inércia, conclui o relatório, consolida práticas protecionistas e aprofunda a fragmentação, elevando a conta que poderá, em menos de três décadas, subtrair o equivalente a 5% de toda a riqueza produzida no planeta.
