Com chuva três vezes acima da média, capital paulista bate recorde histórico de setembro

    0

    Em apenas metade do mês, a cidade de São Paulo já superou todos os índices de precipitação registrados para setembro ao longo de oito décadas de medições. Entre 1.º e 14 de setembro, o pluviômetro do Mirante de Santana, na zona norte, acumulou 253,8 milímetros de chuva, volume que corresponde a três vezes a média climática mensal (83,3 mm) e ultrapassa o antigo recorde de 1983, quando houve 243,1 mm no período inteiro.

    Os transbordamentos de córregos, alagamentos e deslizamentos provocados pelos temporais recentes deixaram vítimas em diferentes regiões do Estado. Mesmo com a previsão de redução das pancadas a partir desta terça-feira, 15, a manutenção de nuvens espessas e de uma massa de ar frio manterá a temperatura abaixo dos 20 °C e pode fazer o total pluviométrico avançar ainda mais ao longo das próximas duas semanas.

    Recorde consolidado antes da metade do mês

    A marca de 253,8 mm observada às 9 h de segunda-feira não só estabeleceu um novo patamar para setembro como empurrou para a segunda colocação o valor de 1983. Os anos de 1993 (206,7 mm), 2015 (201,7 mm) e 1957 (197,2 mm) completam a lista dos setembros mais chuvosos desde que a estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) começou a operar, em 1943.

    Segundo o meteorologista da Defesa Civil estadual, William Minhoto, o valor acumulado deve aumentar. “Há pelo menos mais dois episódios de instabilidade previstos, o que significa que esse recorde ainda pode ganhar folga até o dia 30”, afirmou. Para os órgãos de resposta, o dado serve de alerta: o solo permanece encharcado, elevando o risco de escorregamentos em encostas vulneráveis.

    Previsão: chuva perde força, mas frio persiste

    O centro de meteorologia Climatempo projeta diminuição nas pancadas a partir de terça-feira, com abertura parcial do tempo apenas na quinta, 17. A incursão de ar frio de origem polar sobre o litoral do Sul e do Sudeste impedirá aquecimento expressivo; a máxima prevista para a capital não deve superar 20 °C durante a semana. À noite, os termômetros podem ficar próximos dos 14 °C.

    A umidade elevada, combinada a intervalos de sol, favorece a formação de neblina nas primeiras horas da manhã e no final do dia. Motoristas devem redobrar a atenção em vias marginais e rodovias que cortam a Grande São Paulo. {internal_links}

    El Niño reforça as frentes frias

    O responsável por potencializar as frentes frias que atingem o Sudeste, explicam especialistas, é o fenômeno oceânico-atmosférico El Niño. Ao aquecer de forma anômala as águas do Pacífico Equatorial — já 1,8 °C acima da média, segundo medições internacionais —, o sistema altera o regime de ventos em altitude e concentra mais umidade sobre o Sul do Brasil, com desdobramentos até São Paulo.

    José Antônio Marengo, coordenador de pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), avalia que o El Niño deve ganhar força até o início de 2027. “Quando a anomalia alcançar 2 °C, poderemos classificá-lo como um El Niño muito forte”, disse. Ele pondera, contudo, que isso não garante verões excepcionalmente chuvosos. “Eventos extremos, como tempestades intensas e vendavais, podem ocorrer com ou sem El Niño — mas a probabilidade aumenta.”

    Impactos regionais

    • Norte e Nordeste: tendência de estiagem prolongada, com redução de vazão em rios importantes e risco à segurança hídrica.
    • Sul: chuvas volumosas e frequentes, com possibilidade de enchentes em bacias já vulneráveis.
    • Sudeste: alternância de ondas de frio e episódios de precipitação concentrada, cenário típico das fases fortes do fenômeno.

    Transtornos e ocorrências no Estado

    Os temporais das últimas semanas já provocaram inundações em bairros da capital, interrupções na Linha 9-Esmeralda da CPTM e quedas de árvores que afetaram o fornecimento de energia elétrica. No interior, municípios como Sorocaba, Campinas e Bauru registraram enxurradas, enquanto em Jundiaí o deslizamento de um talude deixou duas pessoas soterradas.

    A Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil mantém equipes em alerta máximo para acompanhar áreas suscetíveis a escorregamentos, especialmente em encostas da Serra do Mar e nos núcleos periféricos com ocupação desordenada. Moradores são orientados a acionar o serviço 199 diante de sinais de trinca em paredes, movimentação de solo ou estalos em estruturas.

    Como ficam abastecimento e agricultura

    Apesar dos transtornos urbanos, o excesso de água beneficia parcialmente os reservatórios do Sistema Cantareira, que começou setembro com 57 % de capacidade e subiu para 61 % após a sequência de temporais. Técnicos da Sabesp, porém, destacam que a infiltração no solo leva tempo para se converter em recarga efetiva dos mananciais, de modo que a situação ainda exige monitoramento.

    Na agricultura, produtores do cinturão verde enfrentam perdas em hortaliças sensíveis, como alface e morango, prejudicadas pelo solo encharcado. Em contrapartida, cafeicultores do interior relatam que as primeiras floradas podem ganhar vigor se houver pausa na chuva nas próximas semanas, condição essencial ao pegamento das flores.

    Recomendações de segurança

    1. Evite travessias de áreas alagadas; apenas 15 cm de lâmina d’água podem arrastar um adulto.
    2. Desligue aparelhos elétricos durante descargas atmosféricas.
    3. Em caso de raio, procure abrigo em locais cobertos e afaste-se de árvores isoladas.
    4. Mantenha calhas e ralos limpos para facilitar o escoamento.
    5. Baixe aplicativos de alerta da Defesa Civil para receber avisos em tempo real.

    Olhar para o restante do mês

    Com duas semanas pela frente, São Paulo tende a ampliar o recorde recém-estabelecido. Para o Inmet, cada milímetro que vier reforçará a excepcionalidade de 2026 em comparação com os 83 anos anteriores. Os meteorologistas ainda não apontam ruptura definitiva no padrão úmido, mas sinalizam que os intervalos secos devem aumentar gradualmente à medida que o ar polar se deslocar para o mar.

    Enquanto isso, órgãos públicos articulam ações de mitigação, e a população precisa manter a atenção. A marca histórica registrada no Mirante de Santana é, ao mesmo tempo, um feito estatístico e um lembrete do poder da atmosfera sobre a maior metrópole do país.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.