A busca e apreensão da Polícia Federal (PF) no gabinete e em endereços do deputado Cezinha da Madureira (PL-RJ) escalonou o clima de embate entre o ministro da Justiça, Flávio Dino, e a militância bolsonarista. Influenciadores ligados ao ex-presidente acusam Dino de tentar “transformar o Brasil num grande Maranhão”, referência ao estilo considerado impositivo que o ministro teria adotado quando governou seu estado natal.
A reação se deve ao fato de Cezinha ser próximo do ministro do STF André Mendonça, ícone para o eleitorado evangélico simpático a Jair Bolsonaro. Nos bastidores, aliados do ex-presidente enxergam a operação como um recado político e temem que novas investigações atinjam quadros religiosos que orbitam o Supremo e o Congresso.
O que motivou a ação da Polícia Federal
Autorizada pelo ministro Flávio Dino, a PF apura suspeita de tráfico de influência. O inquérito aponta que Cezinha, que não é advogado, teria recebido pagamentos de escritórios privados para defender interesses de clientes junto a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação encontrou indícios de que o parlamentar usava sua proximidade pessoal com André Mendonça e Nunes Marques, além da relação política com Gilmar Mendes, para tentar direcionar votos em processos sensíveis.
Segundo investigadores, documentos e registros de transferência de valores foram apreendidos, reforçando a linha de que o deputado operava como articulador externo, prática proibida pelas normas da Câmara e pelo Estatuto da OAB. O material passará por perícia, e depoimentos de assessores, religiosos e advogados ligados a Cezinha estão previstos para as próximas semanas.
A leitura bolsonarista: Dino contra Mendonça
Na avaliação de formadores de opinião do campo bolsonarista, qualquer ação que tangencie André Mendonça gera forte mobilização. O ministro, indicado por Bolsonaro ao STF, virou símbolo da representação evangélica na Corte, motivo de campanha constante de fiéis e pastores nas redes sociais. Uma fonte próxima a parlamentares do PL resumiu o sentimento: “Dino trata desafetos no Maranhão com mão de ferro e agora quer exportar o modelo”.
Nesse ambiente, a operação foi interpretada como tentativa de intimidação ao núcleo evangélico que orbita o Judiciário. Grupos em aplicativos de mensagem passaram a compartilhar vídeos pedindo “orações” por Mendonça e repudiando o que chamam de “perseguição judicial” contra congressistas alinhados ao ex-presidente.
A crítica do “Brasil como grande Maranhão”
- Expressão foi cunhada por militantes para sugerir que Dino reproduz no plano nacional métodos políticos que adotava como governador.
- Aliados de Bolsonaro alegam que o ministro usa a PF de forma “selecionada” para atingir adversários ideológicos.
- No Congresso, deputados do PL estudam convocar Dino à Comissão de Segurança Pública para prestar esclarecimentos sobre o caso.
Quem é Cezinha da Madureira
Ex-presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus e figura influente entre pastores, Cezinha da Madureira conquistou mandato federal em 2018 surfando na popularidade de Bolsonaro entre evangélicos. Mesmo após a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto, manteve trânsito no governo devido à pauta de costumes e à relação com o Advogado-Geral da União, Jorge Messias.
Em 2023, Cezinha liderou campanha para emplacar Messias no STF, movimento que não prosperou. Nos bastidores, interlocutores descrevem o deputado como “ponto de intersecção” entre o Planalto e a bancada evangélica. Essa rede de contatos agora está no centro da apuração que busca mapear pagamentos, agendas de reuniões e supostos favores trocados.

Imagem: Internet
Conexões que chamam a atenção dos investigadores
- Escritórios de advocacia: suspeita de repasses mensais para que o deputado intermediasse encontros com ministros.
- Gabinetes do Supremo: registro de pelo menos dez visitas de Cezinha a ministros em casos de interesse de empresários e políticos investigados.
- Pastores influentes: uso de redes religiosas para ampliar pressão sobre julgadores em processos que envolvem igrejas ou líderes evangélicos.
Impacto no governo e no Congresso
Para o Ministério da Justiça, a operação reforça a postura de “tolerância zero” com suspeitas de corrupção, independentemente de vinculação partidária. Interlocutores de Dino sustentam que o despacho favorável à PF seguiu critérios técnicos apresentados pela corporação, afastando a ideia de motivação política.
No Legislativo, contudo, o PL e siglas conservadoras articulam reação. A Frente Parlamentar Evangélica divulgou nota classificando a ofensiva policial como “desproporcional” e “ataque à liberdade religiosa”. A oposição também tenta aprovar convite para que Flávio Dino preste contas sobre o andamento do inquérito e sobre eventuais autorizações futuras.
Repercussão entre ministros do STF
Até o momento, nenhum magistrado se manifestou publicamente. Nos corredores da Corte, comenta-se que o caso pode reacender o debate sobre lobby e trânsito de parlamentares no tribunal, prática comum, mas pouco regulamentada. A ala mais cautelosa defende criar regras claras para receber congressistas, enquanto outra aponta risco de criminalizar contatos políticos inerentes ao sistema.
Próximos passos da investigação
A Polícia Federal trabalha para cruzar comprovantes de depósito, agendas oficiais e mensagens capturadas nos celulares apreendidos. Caso a suspeita de tráfico de influência se confirme, o Ministério Público deverá oferecer denúncia por corrupção passiva e advocacia administrativa, crimes que podem levar à perda de mandato e prisão.
Flávio Dino, por sua vez, enfrenta o desafio político de sustentar a narrativa de que as ações da PF não têm cor partidária, ao mesmo tempo em que convive com a acusação bolsonarista de perseguir opositores. A condução desse processo poderá definir o grau de resistência que o ministro encontrará no Senado, caso seu nome seja novamente cogitado para o Supremo ou para outras cortes superiores.