No apagar das luzes do Rock in Rio 2026, a sueca Zara Larsson ignorou a tempestade que molhava o Parque Olímpico desde cedo e abriu seu show repetindo “Midnight Sun” sob um temporal que nada lembrava o sol do título. Mesmo assim, por volta das 23h45, a popstar conseguiu fazer a plateia remanescente dançar, cantar e colorir o Palco Sunset com boias de golfinho e capas de chuva fluorescentes. O público, bem menor que em outras atrações, havia resistido ao aguaceiro apenas para vê-la antes da entrada do Twenty One Pilots.
A cantora foi a penúltima atração do derradeiro dia de festival, sucedendo Halsey. Em troca da fidelidade dos fãs encharcados, entregou 70 minutos de performance energética, vocais quase sempre ao vivo e um desfile de hits radiofônicos que misturou flerte, autoestima e muita coreografia. “Eu sei que está chovendo, mas vamos transformar isso aqui num dia de verão”, pediu, e foi atendida.
Verão em pleno dilúvio
Larsson apostou na mesma estética que a alçou ao estrelato no TikTok: cores neon, iconografia praiana e imagens que remetem a dias turbinados de vitamina D. No telão, a palavra “summer” piscava em fonte gigante, enquanto ela surgia de short jeans, top nas cores do Brasil com detalhes rosa-choque e salto agulha. O contraste entre a atmosfera solar do palco e o chuvisco constante sobre o público gerou uma cena quase cinematográfica, reforçada por infláveis de golfinhos balançando acima das cabeças.
A influência das redes
O tema não é gratuito. Foi justamente no TikTok que “Symphony”, single de 2015, voltou a ganhar fôlego graças a uma trend em que usuários narravam histórias tristes usando filtros coloridos, sons de água e emojis tropicais. A artista incorporou a viralização ao show: além dos golfinhos, efeitos de bolhas, pôr-do-sol digital e fumaça aromatizada de coco reforçaram a atmosfera escapista.
Setlist para não deixar o público parar
Sem intervalos longos, a cantora engatou “She Did It Again”, “I Would Like”, “Hot and Sexy”, “Wow” e “It Ain’t My Fault” em sequência, quase sem fôlego. Em “Pretty Ugly”, parou para brincar com a plateia: “Quem aqui é bonito? Vocês são lindos porque nem sempre precisam ser perfeitos”, disse, dialogando com a letra que fala sobre perder a linha sem perder o charme.
Banda 100% feminina e mínimo de playback
A acompanhar Larsson, uma formação só de mulheres — guitarra, baixo, bateria, teclados e duas backing vocals — deu peso orgânico às faixas. A escolha contrastou com a passagem da sueca pelo mesmo palco dois anos antes, quando recorreu mais a bases pré-gravadas. Agora, cada virada de bateria e solo de teclado soavam em tempo real, permitindo à artista improvisar melismas, mudar andamentos e instigar o coro do público.
Interação constante com os fãs
O momento mais comentado da noite aconteceu em “Symphony”. Larsson convidou uma fã da grade para o palco. A jovem, que avisou não falar inglês, compensou a barreira linguística com um rebolado seguro que arrancou aplausos e gargalhadas. Na pista, dezenas de pessoas imitaram a coreografia viral, unindo braços em forma de arco antes de girar o quadril — tudo registrado por celulares protegidos em sacos plásticos.

Imagem: Internet
Carro-cenário e maratona pelo palco
Incansável, a cantora ainda escalou a carcaça cromada de um conversível cenográfico, dançando ao lado de três bailarinas. O objeto, posicionado no centro do palco, serviu de mirante para que ela enxergasse quem se espremia longe das primeiras fileiras. A cada nova música, corria de um extremo ao outro, molhando os próprios sapatos nas poças que se formavam.
Baladas para abraços coletivos
Após meia hora de pop acelerado, o ritmo diminuiu com “Never Forget You” e “Blue Moon”. O efeito foi imediato: casais se enlaçaram, amigos se puxaram para perto e um coro doce abafou a chuva. Zara, percebendo a resposta, preferiu deixar os microfones da banda mais baixos e conduziu o refrão quase a capela, sustentando notas longas que ecoavam entre capas de chuva prateadas.
Despedida com repeteco de ‘Midnight Sun’
Para encerrar, a artista retornou ao ponto de partida: “Midnight Sun” ganhou reprise com nova explosão de luz amarela e papéis laminados. “Mesmo encharcados, vocês brilharam como um dia de verão”, agradeceu antes de desaparecer atrás do telão. O relógio já marcava pouco depois da meia-noite — e a chuva, teimosa, continuava.
Entre a garoa e o calor pop
Àquela altura, quem precisava de guarda-chuva? O público do Sunset, embora reduzido, saiu com a sensação de ter vivido um pequeno carnaval fora de época, alimentado pela energia de uma artista que transformou o pé d’água em catarse coletiva. Na sequência da noite, o palco se prepararia para o rock eletrificado do Twenty One Pilots, mas os golfinhos infláveis ainda balançavam, lembrando que, por uns instantes, o inverno carioca virou litoral sueco em plena madrugada.
