Marina Sena leva teatralidade ao limite, lota palco Sunset e divide gramado encharcado no Rock in Rio

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    Gritaria, braços erguidos e filas que se estendiam até os bares laterais anunciaram, antes mesmo das luzes se acenderem, o tamanho da expectativa em torno de Marina Sena. Na noite de domingo (13), a mineira de 29 anos transformou o palco Sunset do Rock in Rio em um teatro a céu aberto, lotando até as áreas de circulação e obrigando parte do público a disputar cada pedaço de grama artificial – que, por causa da garoa insistente, já virava lama.

    Em pouco mais de uma hora, Marina costurou um roteiro que misturou coreografias mascaradas, bonecos espancados e até um ato de arrancar “vísceras”, tudo isso temperado pelo encontro de vozes com a convidada Céu. A encenação, conduzida por um corpo de baile que parecia saído de um filme de terror pop, envolveu a multidão em clima de espetáculo, mais para ser assistido do que para ser cantado em coro, mas que, mesmo assim, encontrou eco em milhares de fãs.

    Público ocupa cada canto do Sunset

    A busca pelos melhores lugares começou cedo. As laterais, normalmente espaçosas, ficaram intransitáveis minutos antes do início, e quem chegou depois precisou se contentar com brechas entre guarda-chuvas. De cima do palco, a própria cantora notou o mar de gente e agradeceu: “Era meu sonho cantar neste festival”. O compromisso de encerrar a programação do Sunset ficaria para a sueca Zara Larsson, horas mais tarde, mas o maior fluxo se concentrou justamente no horário de Marina. No palco Mundo, Halsey e Twenty One Pilots ainda seriam as atrações principais da noite.

    Chuva fina, gramado encharcado e poças traiçoeiras

    A chuva não deu trégua durante boa parte do domingo. No momento do show, o chuvisco deixou o gramado sintético pesado, formando buracos que engoliam tênis e poças que refletiam as luzes coloridas. Para circular, era preciso desviar de pequenas crateras, esforço que se tornou quase coreográfico quando, em “Desmitificar”, Marina pediu para todos pularem. Os fãs obedeceram, mas sem tirar os olhos das armadilhas até então invisíveis do chão.

    Horror pop: a estética do espetáculo

    Marina abriu a noite vestindo um conjunto branco, rendas soltas e farrapos que balançavam ao vento frio. “Numa Ilha” e “Coisas Naturais” serviram de aquecimento, exibindo um canto anasalado que a plateia imitava em falsete, criando um curioso uníssono agudo. A virada dramática chegou em “Carta de Maria”: ao centro do palco, uma maca ladeava um espantalho inerte, e a cantora alternava carícias e tapas na figura inanimada.

    O clímax da encenação veio logo depois, em “Ouro de Tolo”, música autoral que ganhou contornos de macabra performance. Marina estapeou o boneco, afagou-lhe a cabeça e, num gesto coreografado, arrancou uma massa de “tripas” cenográficas, levantando-as como troféu. A plateia, ao mesmo tempo chocada e fascinada, respondeu com gritos que se confundiram entre susto e celebração.

    Encontro de vozes: a participação de Céu

    Num contraste calculado com a atmosfera sombria, Céu surgiu plácida, cabelos soltos e vestido esvoaçante. O timbre suave da paulista encontrou encaixe natural na tessitura de Marina, embora problemas de volume tenham deixado o microfone da convidada alguns decibéis abaixo. Ainda assim, a dobradinha em “Varanda Suspensa” puxou suspiros coletivos, e “Malemolência” – maior hit de Céu – incendiou corações nostálgicos.

    Emocionada, Marina disparou um “te amo” e recebeu sorriso largo em troca. Pouco antes, já havia confessado o desejo antigo de dividir microfone no Rock in Rio. Durante a parceria, parte do público ergueu celulares para registrar o momento histórico, transformando o Sunset num mar de pequenas lanternas.

    Releituras, sucessos e temperatura emocional

    O setlist costurou faixas de seus dois álbuns com mudanças de andamento que pareciam dialogar com o clima. “Por Supuesto”, sucesso que explodiu em 2021, chegou em versão mais lenta, quase contemplativa, ajustada ao vento frio que soprava lateralmente. A balada “Mágico”, por outro lado, quebrou a introspecção e puxou danças espontâneas, reacendendo os ânimos já no final da apresentação.

    Para o encerramento, Marina guardou energia extra. “Carnaval” levantou braços, e “Desmitificar” trouxe a ordem definitiva: “Quero todo mundo pulando!”. O comando foi obedecido com cautela militar, já que cada salto exigia cálculo preciso para não afundar no chão encharcado. Ainda assim, a vibração coletiva selou a noite como vitória no currículo da artista.

    Marina Sena leva teatralidade ao limite, lota palco Sunset e divide gramado encharcado no Rock in Rio - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Construindo casca em festivais

    A passagem pelo Rock in Rio consolida uma trilha que começou em palcos igualmente grandiosos. Em 2022, Marina estreou no Lollapalooza; no ano seguinte, encarou o The Town com um tributo a Gal Costa que dividiu opiniões e a levou a responder críticas nas redes sociais. O show deste domingo, porém, pareceu apontar amadurecimento: cenografia ambiciosa, narrativa coesa e segurança vocal, apesar do esforço físico intenso.

    Esse crescimento é visível na forma como o público já reconhece a assinatura da artista. Do falsete que virou meme aos arranjos que misturam pop, mpb e funk mineiro, Marina construiu identidade pronta para grandes festivais. A recepção no Sunset, com vias de acesso travadas, indica que a artista saiu do status de aposta para ocupar lugar de nome certo nas próximas edições.

    Voz anasalada, plateia em falsete

    Um fenômeno curioso acompanhou todas as canções: a multidão tentava reproduzir o registro agudo e anasalado de Marina, criando um coral quase infantil que ecoava pelos alto-falantes. Em faixas como “Mágico”, o resultado foi uma massa sonora que se sobrepunha ao backing vocal oficial, evidenciando o grau de identificação dos fãs com a estética vocal da cantora.

    Esse truque coletivo reforçou a ideia de espetáculo participado à distância: o público não subia ao palco, mas se transformava em coro temático, complementando a teatralidade proposta.

    Entre a lama e o êxtase

    Quando as luzes baixaram e a sonoridade ambiente voltou a dominar, o Sunset se parecia com um campo de guerra pop: buracos expostos, capas de chuva perdidas e fãs exaustos, porém sorridentes. Não houve desistências significativas durante o set, sinal de que o incômodo físico não superou a experiência sensorial.

    Com o gramado ainda encharcado, o festival se preparou para receber Zara Larsson no mesmo espaço, mas a sensação era de que o ponto alto da noite já havia acontecido. Marina Sena, ao sobrepor terror e delicadeza, entregou um show que ficará entre as memórias visuais mais fortes desta edição e, ao mesmo tempo, reforçou o protagonismo feminino na cena pop brasileira.

    Setlist aproximado

    • Numa Ilha
    • Coisas Naturais
    • Carta de Maria
    • Ouro de Tolo
    • Varanda Suspensa (com Céu)
    • Malemolência (com Céu)
    • Por Supuesto
    • Mágico
    • Carnaval
    • Desmitificar

    Entre gritos, chuva e sangue cenográfico, Marina Sena encerrou sua passagem pelo Rock in Rio como quem entrega não apenas música, mas uma experiência total – metade show, metade performance de arte contemporânea. Se o festival buscava provar que o pop brasileiro sabe ocupar espaços gigantes, a noite de domingo ofereceu a evidência mais visceral.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.