Kennedy Center pode fechar as portas nesta terça após rombo milionário e impasse com Trump

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    O maior palco de artes cênicas de Washington, o Kennedy Center, corre o risco de encerrar atividades já nesta terça-feira (15). Integrantes do conselho da instituição receberam um dossiê de 57 páginas que descreve um cenário de falência iminente e sugere o fechamento imediato do edifício principal para evitar novos prejuízos financeiros e acidentes com o público.

    Os documentos, obtidos por membros da direção, mostram que a queda brusca das receitas deixou o caixa incapaz de honrar salários e contratos de manutenção nas próximas semanas. A diretoria aposta em uma derradeira cartada: obter apoio financeiro do ex-presidente Donald Trump, que condiciona a ajuda a um reconhecimento público de seu papel no resgate do complexo cultural.

    Crise financeira se aprofunda

    Em projeções internas, o Kennedy Center previa arrecadar cerca de US$ 220 milhões no atual ano fiscal. A realidade, porém, deve ficar em torno de US$ 124 milhões, um tombo de quase 44%. Mesmo após cortes de gastos, o buraco estimado é de US$ 23 milhões (aproximadamente R$ 117 milhões). Sem nova injeção de recursos, a instituição admite o risco de insolvência já no próximo trimestre fiscal.

    A situação é considerada especialmente crítica porque o centro ainda precisa arcar com parcelas de financiamentos tomados para expansões anteriores, além de despesas fixas de funcionamento num prédio que recebe, em temporadas normais, mais de dois milhões de visitantes por ano. O quadro levou a diretoria executiva a contratar a consultoria Delta Consulting Group, que reforçou o alerta de urgência financeira e de segurança.

    Duas propostas sobre a mesa

    O conselho discute nesta terça-feira dois caminhos. O primeiro prevê uma campanha agressiva de arrecadação, liderada por Trump e grandes doadores privados, para cobrir o déficit imediato e criar um fundo permanente de doações. O segundo recomenda o fechamento temporário — mas indeterminado — do prédio principal, transferindo espetáculos para outros espaços até que haja dinheiro para uma reforma completa.

    Dirigentes favoráveis à permanência das atividades argumentam que parar as apresentações provocaria perda irreversível de público e patrocinadores. Já o grupo que defende a interrupção lembra que a instituição aprovou, em agosto, um plano de reforma orçado em US$ 250 milhões; manter o prédio aberto, dizem, apenas eleva riscos estruturais e gera despesas que não podem ser cobertas.

    Nome de Trump reacende disputa política

    O antigo presidente se ofereceu para liderar a captação de recursos, mas colocou como condição que sua participação seja destacada de forma visível. Uma das ideias levadas ao conselho sugere instalar uma inscrição na fachada atribuindo a ele a reforma, a restauração e a criação do fundo de doações.

    A exigência esbarra numa querela judicial. Em maio, decisão do juiz federal Christopher Cooper determinou que somente o Congresso americano tem poder para alterar a denominação oficial do Kennedy Center, mandando retirar placas que já incluíam o nome de Trump. A indefinição alimenta resistências internas: parte do conselho teme novo desgaste de imagem no momento em que a credibilidade da casa é crucial para atrair doadores.

    Gestão anterior na linha de fogo

    Os documentos circulados entre os conselheiros atribuem o déficit a “erros graves” da administração passada, que teria superestimado receitas e postergado manutenção essencial. A atual diretoria, empossada com o aval de Trump em março, sustenta que a proximidade com o ex-presidente já atraiu novos patrocinadores e que o reconhecimento público a ele é “condição indispensável” para manter esse fluxo de dinheiro.

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    Imagem: Internet

    Problemas estruturais pressionam decisão

    Além da crise no caixa, laudos técnicos classificam o edifício como “inseguro para ocupação contínua”. Durante uma tempestade em 4 de setembro, um pedaço de forro de gesso de 1,2 m por 1,5 m despencou de 18 m de altura — por sorte, não havia público no local. Inspeções subsequentes localizaram ao menos sete outros pontos de deterioração provocada por infiltrações.

    Corrosão e painéis comprometidos

    Engenheiros analisaram 278 painéis metálicos que sustentam parte da cobertura externa; 46 apresentavam corrosão estrutural grave e outros 93 tinham corrosão moderada. A estimativa é que cerca de um terço precise ser substituído imediatamente para evitar colapso. As estruturas de teto penduradas sobre áreas de circulação pesam cerca de 1,1 tonelada cada, aumentando o temor de acidentes.

    O relatório de segurança, anexado ao dossiê, conclui que adiar obras amplia “de modo significativo” os riscos para funcionários e visitantes, argumento usado pelos defensores do fechamento imediato. A recomendação técnica reforça a posição de Matt Floca, diretor-executivo nomeado por Trump, que desde fevereiro sugeria esvaziar o prédio por dois anos para acelerar a reforma.

    The Reach deve continuar em atividade

    Caso o conselho aprove o fechamento, a ala batizada de The Reach, inaugurada recentemente como extensão do complexo, permanecerá aberta. A direção planeja realocar apresentações de teatro, ópera e música para auditórios parceiros em Washington e estados vizinhos, numa tentativa de manter a programação e preservar empregos de artistas e equipe técnica.

    A estratégia, no entanto, envolve custos de locação e logística que ainda não foram detalhados. Sem verba garantida, alguns conselheiros questionam se a operação externa não agravará o rombo. Outra preocupação é o efeito sobre contratos de longa duração com companhias residentes, incluindo a National Symphony Orchestra e o Washington National Opera.

    Próximos passos

    A reunião desta terça-feira deve terminar com votação nominal. Se a maioria aprovar o fechamento, o público verá o Kennedy Center apagar as luzes poucas horas depois, algo inédito desde a inauguração em 1971. Caso prevaleça a proposta de captação emergencial, a diretoria espera anunciar, ainda esta semana, o calendário de doações e o formato da participação de Trump.

    Dentro ou fora de cena, o futuro do principal palco cultural da capital americana dependerá de mobilizar, em tempo recorde, centenas de milhões de dólares para cobrir o déficit, reforçar a estrutura física e resgatar a confiança de artistas, patrocinadores e visitantes.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.