Em 12 de outubro, a velha Estação Anhumas, na zona sul de Campinas, chegará à marca de um século de portas abertas – feito raro entre os prédios ferroviários paulistas que sobreviveram ao declínio dos trilhos. Mesmo depois de 46 anos sem trem de carga, o endereço não só escapou da demolição como virou ponto de partida da famosa Maria-Fumaça que, aos fins de semana, leva centenas de passageiros até Jaguariúna.
O centenário coroa uma história de resistência: fechada em 1977, a construção de tijolos aparentes foi adotada quatro anos depois pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), que a transformou em quartel-general da Viação Férrea Campinas-Jaguariúna (VFCJ). De lá para cá, Anhumas voltou a receber apitos, se converteu em cenário de novelas globais e cimentou-se como uma das atrações turísticas mais procuradas do interior paulista.
Um século sobre os trilhos
A Anhumas que o público conhece hoje entrou em operação em 12 de outubro de 1926, a apenas 200 metros da estação original, inaugurada em 3 de maio de 1875. Batizada inicialmente de Anhumas-Nova, a construção substituiu a antecessora, que fazia parte da linha-tronco da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. A primeira edificação foi demolida após 41 anos de serviço, mas sua herdeira acabou atravessando diferentes ciclos do transporte paulista.
Quando nasceu, a estação integrava uma malha estratégica para o escoamento de café. Em 1971, a Mogiana foi absorvida pela recém-criada Fepasa, que unificou cinco ferrovias estaduais. Na segunda metade dos anos 1990, o controle da Fepasa passou para a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), também já extinta, selando o fim definitivo das operações comerciais na linha.
Data a data
- 1875 – Fundação da primeira Estação Anhumas.
- 1926 – Inauguração da atual edificação.
- 1977 – Suspensão do tráfego de cargas e fechamento do prédio.
- 1981 – ABPF ocupa o imóvel e inicia o projeto turístico.
- 2023 – Próximos 100 anos comemorados com programação especial.
Do abandono à revitalização
Quando o último vagão de carga passou pelos trilhos, em 1977, Anhumas ficou entregue ao mato alto e às infiltrações. A virada começou em 1981, quando a recém-criada ABPF alugou a área para instalar sua sede regional. Voluntários restauraram telhado, guichês e plataformas, pintaram paredes e reativaram antigos equipamentos de sinalização.
O modelo de gestão se replicou ao longo da ferrovia: estações como Tanquinho, Desembargador Furtado e Carlos Gomes também foram restauradas e hoje integram o passeio de Maria-Fumaça. A associação mantém todo o trecho de 24 quilômetros com recursos provenientes da venda de ingressos, parcerias e trabalho voluntário.
O trem turístico
Operada por locomotivas a vapor do início do século XX, a Viação Férrea Campinas-Jaguariúna realiza três tipos de viagem:
- Percurso completo – De Anhumas a Jaguariúna, com retorno; duração de 3h30.
- Meio percurso – Ida até Tanquinho e volta; 2h de viagem.
- Saída vespertina – Roteiro mais curto, tarifa única.
Os valores variam de R$70 a R$150, com meia-entrada, opção solidária e gratuidade para crianças de até cinco anos. Durante o trajeto, monitores explicam como funciona a operação do trem, músicos tocam modas de viola na varanda dos carros abertos e antigas fazendas de café compõem a paisagem às margens do Rio Atibaia.
Impacto econômico
Segundo a ABPF, mais de 100 mil pessoas embarcam anualmente na Maria-Fumaça. Hotéis de Jaguariúna registram aumento de 25% na ocupação em feriados prolongados, e restaurantes da região criaram menus que homenageiam a linha férrea. Um estudo da Secretaria de Turismo de Campinas aponta que cada visitante gasta, em média, R$185 na cidade.

Imagem: Internet
Cenário de novelas e cinema
O estilo arquitetônico da estação – portas em arco, marquise de ferro e piso de ladrilho hidráulico – chamou atenção de produtores de televisão. “Terra Nostra” (1999), “Sinhá Moça” (2006) e “Além da Ilusão” (2022) usaram o prédio como locação principal para cenas de partidas e chegadas de personagens. A estrutura também aparece na minissérie “Mad Maria” (2005) e no filme “Marighella”, dirigido por Wagner Moura.
Para receber as equipes, a ABPF monta camarins provisórios nos antigos depósitos e desloca as composições turísticas para outros horários. O aluguel do espaço ajuda a financiar manutenções caras, como a troca periódica de dormentes e caldeiras.
Programação do centenário
A comemoração dos 100 anos deve reunir exposição fotográfica, desfile de locomotivas restauradas e apresentações de bandas marciais que outrora animavam as festas de estação. Também está previsto o lançamento de um carimbo comemorativo dos Correios e a reedição de bilhetes talhados em cartolina, iguais aos usados no início do século passado.
Para o presidente regional da ABPF, a celebração reforça a importância de políticas públicas de preservação. “Anhumas mostra que patrimônio ferroviário pode gerar emprego, memória e lazer”, resume o dirigente.
Desafios e futuro
A proximidade da linha com áreas urbanizadas impõe vigilância constante contra furtos de metal e vandalismo. Além disso, a associação negocia com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) a renovação da concessão de uso da faixa de domínio, que expira na próxima década.
Entre os planos, está a retomada do trecho até Amparo, cidade que sonha em reeditar o fluxo turístico que viveu na primeira metade do século XX. Para isso, será preciso reconstruir pontes e renovar 30 quilômetros de trilhos, projeto estimado em R$40 milhões.
Por que a estação resiste
- Gestão comunitária – Voluntários respondem por 60% do quadro de manutenção.
- Autossustentabilidade – Receita do trem turístico cobre custos de operação.
- Patrimônio afetivo – A população de Campinas adota o espaço para eventos cívicos.
- Versatilidade – Locação para cinema e TV gera fonte extra de renda.
Enquanto outras estações se perderam na paisagem, Anhumas mantém o charme do apito a vapor e prova que trilhos históricos podem seguir relevantes. No próximo 12 de outubro, quando o sino tocar para anunciar a partida do trem, cada passageiro embarcará também na história de um século inteiro.
