Um dos momentos mais comentados do fim de semana musical em São Paulo ocorreu já perto da meia-noite de sábado (12), quando Maria Bethânia, 80 anos, ergueu a mão no palco do Coala Festival, formou o “L” com os dedos e bradou “eu voto Lula presidente!”. O gesto político veio acompanhado de um repertório repleto de sucessos e de uma leveza rara na trajetória da artista, que costuma prezar por apresentações ensaiadas ao milímetro.
O público, que lotava o Memorial da América Latina apesar da ameaça de temporal e da queda de temperatura, respondeu com coro entusiasmado. Assim terminou a primeira noite da 12ª edição do Coala, evento que começou alternativo e hoje mistura lendas da MPB a novos nomes do pop, do rap e do forró.
Bethânia: hits, poesia e descontração inédita
Conhecida pela postura sisuda e pela exigência de silêncio durante as declamações de poemas, Bethânia surpreendeu ao exibir sorriso largo, interagir de forma calorosa com a plateia e até arriscar passos de dança. Quem acompanhou a recente turnê da artista com o irmão Caetano Veloso em grandes arenas percebeu resquícios daquela atmosfera mais solta.
No setlist, desfilaram clássicos capazes de transformar o Memorial num coro gigante: “Brincar de Viver”, “Olhos nos Olhos”, “Fé Cega, Faca Amolada”, “Negue”, “Olha” e “Explode Coração”. Entre uma canção e outra, a voz potente permaneceu intacta, desafiando a passagem do tempo e o vento frio da noite paulistana. Ao final, o engajamento político selou o espetáculo e rendeu o assunto dominante nas redes sociais do festival.
Emicida consolida reinado caseiro
Antes da baiana, Emicida assumiu o palco com a confiança de quem dialoga há anos com a “comunidade” de fãs que frequenta shows pela cidade. Sua apresentação pinçou faixas de toda a carreira, com ênfase em “Emicida Racional Vol. 2”, projeto lançado no fim de 2025 em homenagem ao Racionais MCs. “A Chapa É Quente” ganhou roupagem percussiva turbinada por backing vocals femininos, enquanto trechos de Sandra de Sá, Belchior e Marcos Valle surgiram como citações espertas.
O rapper, sempre habilidoso no discurso, ainda ouviu a plateia entoar um grito de guerra irreverente: “Coala é delírio, melhor que o Rock in Rio”. A piada refletia o orgulho de quem trocou a viagem ao festival carioca, realizado no mesmo fim de semana, pela escalação paulistana.
Tarde de encontros inusitados
Zeca Veloso abre caminhos familiares
A maratona começou logo às 13h30 com Zeca Veloso, sobrinho de Bethânia, diante de um público ainda tímido. O cantor mostrou as canções do elogiado álbum solo de estreia e impressionou pelo falsete preciso, preparando o terreno — ainda que sem saber — para o grand finale encabeçado pela tia famosa.
Cícero e Duda Beat dividem delicadezas
Na sequência, o compositor carioca Cícero recebeu Duda Beat para um set de climas etéreos, harmonia que manteve o público atento apesar dos primeiros pingos de chuva. Baladas como “Tempo de Pipa” ganharam textura pop com o timbre melancólico da pernambucana.

Imagem: Internet
Marcos Valle e Ana Frango Elétrico brilham na diferença
O encontro mais surpreendente reuniu o veterano Marcos Valle, 82, à nova-iorquina de Madureira Ana Frango Elétrico, 28. O contraste de gerações se transformou em química sonora: Ana aparentou nervosismo inicial, rapidamente contornado pela segurança de Valle, que tocou o papel de tutor afetuoso. A plateia correspondeu com aplausos longos, especialmente quando “Estrelar” apareceu envolta em guitarras experimentais.
Auditório Simón Bolívar entra no mapa do festival
Pela primeira vez, o Coala ocupou também o Auditório Simón Bolívar, espaço coberto dentro do complexo do Memorial. No sábado, Rubel uniu pop, folk e MPB a uma orquestra, recriando faixas como “Quando Bate Aquela Saudade” em arranjos de cordas que fugiram do script habitual. A experiência se repetirá no domingo, quando Tom Zé levará seus experimentos sonoros ao mesmo palco fechado.
Programação de domingo aposta no forró e na memória do rap
O segundo dia do Coala 2026 promete manter o leque aberto de estilos. João Gomes, fenômeno do piseiro que se tornou figura onipresente em festas nordestinas, tenta avançar para um público mais heterogêneo e exigente. Já o encerramento ficará a cargo de Criolo, que celebra 15 anos do disco “Nó na Orelha”, trabalho que impulsionou sua carreira e dialoga diretamente com a trajetória de expansão do próprio festival.
Com ingressos esgotados e reputação consolidada, o Coala demonstra ter encontrado fórmula rara: misturar lendas consagradas a vozes emergentes sem perder a coesão. A adesão fervorosa mesmo sob risco de chuva — e o gesto político de uma das maiores intérpretes do país — apontam para um futuro em que a música brasileira segue sendo celebrada como manifestação artística e também como espaço de posicionamento.
A julgar pela reação da plateia no sábado, o “L” de Bethânia fez mais do que endossar um candidato; tornou-se símbolo da própria identidade do festival, onde música, afeto e convicções dividem o mesmo palco.
