Duas gerações do trap carioca transformaram o Espaço Favela em um coro pulsante nesta sexta-feira (11). MC Cabelinho, cabeça de chave da noite, foi gradualmente conquistando o público até entregar um set explosivo ao lado de TZ da Coronel, convidado que acabou dividindo os holofotes e empurrando a vibração da plateia para outro nível.
O show encerrou a participação do rap nacional no último fim de semana do Rock in Rio 2026 e mostrou por que a cena periférica mantém força própria, ainda que disputando atenção com atrações internacionais de k-pop programadas para o mesmo dia do festival.
Quando o trap encontra o rock
Com calça e jaqueta brancas combinadas a botas caramelo, MC Cabelinho entrou em cena acompanhado de guitarra, teclado, bateria e um DJ responsável por doses generosas de autotune – ferramenta tão comum ao trap quanto as distorções às guitarras de um palco de rock. A afinidade entre bandas ao vivo e beats eletrônicos foi a chave para quebrar a apatia inicial de parte do público, formado majoritariamente por jovens que conheciam todas as letras, mas demoraram a soltar a voz.
Visual afiado e narrativa de quebrada
Filho de comunidade e parceiro de nomes como Gloria Groove e Ludmilla, Cabelinho aposta na sensibilidade para falar de amor, rotina e obstáculos da periferia. A presença de banda reforça essa mistura: a guitarra dialoga com rimas românticas, enquanto o autotune realça a melancolia que perpassa versos sobre saudade de casa ou a pressa em vencer na vida, sem deixar de lado o lado dançante.
Entrada de TZ da Coronel muda o jogo
Foi quando TZ da Coronel surgiu que o espetáculo virou confraternização. O rapper de Belford Roxo chegou acompanhado de um refrão já entoado em uníssono na grade: “Carta Aberta”. A multidão ocupou o vão entre passarelas e torres de som para pular ao ritmo de “Fogo e Gasolina”, “Eu Sou o Trem” e “Essência de Cria”. O carisma e a cadência grave de TZ equilibraram o tom sentimental de Cabelinho com um discurso pautado em ambição, território e conquista.
Dupla na grade e plateia de mãos erguidas
Em determinado momento, os dois desceram do palco e percorreram o corredor de segurança, provocando a habitual correria por selfies e vídeos. Foi o ponto de virada definitivo: celulares iluminados, gritos sincronizados e a banda seguindo o improviso, sem deixar o beat cair. Ali, tanto Cabelinho quanto TZ se mostraram mais à vontade, batendo nos coletes à prova de rima de seus figurinos e trocando versos sobre quem sonhava primeiro em cantar no Rock in Rio.
Repertório que espelha o cotidiano
O coração do set de Cabelinho girou em torno de letras que retratam a vida nas encostas cariocas sob uma ótica sentimental. Entre histórias de amores que resistem à violência urbana e confissões sobre traumas, o cantor reafirmou a intenção de “traduzir o corre” para fora do morro. Na prática, a combinação de temas sociais e refrões românticos se revelou fórmula certeira para manter a galera atenta mesmo nos momentos mais melódicos.
Hits que garantem coro imediato
- “Carta Aberta” – ponte de entrada de TZ da Coronel e maior explosão sonora da noite.
- “Fogo e Gasolina” – vibração contínua, com direito a roda de dança na área frontal.
- “Eu Sou o Trem” – letra sobre resiliência que ecoou além do espaço destinado ao show.
- “Essência de Cria” – faixa que sintetiza orgulho periférico e provocou choques de mãos entre desconhecidos.
Choque de agendas e possível esvaziamento
A escolha de colocar o trap na mesma data em que o festival reservou o palco Mundo para nomes de k-pop se provou arriscada. Houve quem dividisse atenção entre coreografias orientais e rimas nacionais, o que pode ter segurado parte da audiência longe do Espaço Favela no começo da apresentação. Produtores ouvidos entre a equipe de som consideraram que agrupar rap e R&B — como ocorreu em outro dia com Ne-Yo, Nelly, Budah e Xamã — teria favorecido a casa cheia do início ao fim.

Imagem: Internet
Favela no mapa, mas à margem do cronograma
A edição 2026 reforçou a importância do espaço dedicado a artistas de origem periférica, mas também evidenciou o desafio de encaixá-los em horários que maximizem visibilidade. Enquanto estrelas internacionais ocupam o prime time, rappers locais precisam vencer não apenas preconceitos históricos, mas também a logística do evento.
Próximos passos: álbum novo à vista
Antes de se despedir, TZ da Coronel aproveitou a maré de aplausos para anunciar a data de seu próximo disco, “Escorpião”, que sai em 28 de setembro. “Quando tudo começou, chamei esses produtores; foi tudo natural”, comentou, agradecendo à equipe por transformar beats caseiros em material de estúdio pronto para streaming.
Expectativa da cena
O lançamento é aguardado como passo importante para solidificar a ascensão do trap nacional a patamares de streaming que hoje já rivalizam com o sertanejo e o funk. Se o show no Rock in Rio serviu de amostra, a tendência é de que “Escorpião” amplie a audiência de TZ entre ouvintes que enxergam no discurso sobre território e ascensão uma continuidade da própria história.
Rock in Rio, rap e identidade
A performance desta sexta recoloca o debate sobre a representação do rap brasileiro dentro de grandes festivais. Mesmo após mais de três décadas de Rock in Rio, artistas da periferia ainda dependem do Espaço Favela para marcar presença, enquanto o trap, segmento de maior crescimento nos últimos anos, raramente acessa os palcos principais. Cabelinho e TZ mostraram que a conversa não se resume a nichos: suas canções atravessam fronteiras sociais e oferecem catarse a um público que reconhece no verso “sou cria, mas sonho alto” um retrato fiel do país.
No fim, a música falou mais alto
Entre a primeira batida e o último grave, passou pouco mais de uma hora. Tempo suficiente para MC Cabelinho consolidar-se como voz que rompe o morro, para TZ da Coronel confirmar o posto de promessa realizada e para o Rock in Rio registrar, mais uma vez, que a periferia guarda o fôlego que mantém vivo o espírito de festival: mistura, surpresa e encontro.
