PF vê orientações de Eduardo Bolsonaro para movimentar verba do filme Dark Horse nos EUA

    0

    A Polícia Federal afirma ter identificado mensagens em que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro indica caminhos para que os repasses do banco Master ao longa-metragem Dark Horse fossem administrados nos Estados Unidos. O material, tornado público após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que flexibilizou o sigilo de inquéritos ligados ao banco, sustenta o pedido da PF para investigar supostos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

    Segundo a corporação, o parlamentar orientou o publicitário Thiago Miranda a “enviar o máximo possível” de recursos ao exterior “pelo modelo então em curso”. A captura de tela da conversa, encaminhada por Miranda ao banqueiro Daniel Vorcaro em 21 de março de 2025, é apontada como indício de que o clã Bolsonaro acompanhava, e possivelmente influenciava, a destinação dos R$ 61 milhões que o banco teria liberado para o projeto cinematográfico.

    Como surgiu a suspeita

    As primeiras referências ao suposto envolvimento de Eduardo Bolsonaro vieram a público em maio, após a divulgação de áudios e trocas de mensagens pelo portal Intercept Brasil. O material, confirmado pelo UOL, revelava que o ex-parlamentar defendeu manter o dinheiro “já nos EUA” para facilitar as transações entre contas norte-americanas.

    A PF anexou esse conteúdo a um relatório encaminhado ao Supremo. No documento, os investigadores pontuam que a disposição de Eduardo em “apresentar soluções” foi relevante para fundamentar a abertura de inquérito. O ministro André Mendonça, relator do caso, autorizou em julho o avanço das apurações nos crimes econômicos listados.

    Participação de Thiago Miranda

    Miranda, dono da agência que aproximou Vorcaro da família Bolsonaro, repassou a Eduardo e a outros interlocutores detalhes sobre os pagamentos. Em depoimento, o publicitário afirmou que o banqueiro destinou R$ 61 milhões ao filme. A PF considera Miranda elo-chave porque ele teria articulado reuniões presenciais e facilitado o tráfego de informações entre o núcleo político e o financeiro.

    O papel de Daniel Vorcaro

    Fundador do banco Master, Vorcaro é apontado como financiador direto de Dark Horse. Áudios em poder dos investigadores mostram o banqueiro demonstrando forte interesse no projeto: em janeiro de 2025, disse a um cunhado, Fabiano Zettel (preso em outra frente da operação), que o repasse para o filme era “o mais importante disparado” dentre seus compromissos.

    No mês seguinte, Vorcaro passou a se comunicar de forma direta com o senador Flávio Bolsonaro. No dia 20 de agosto de 2025, registros indicam um encontro presencial entre os dois em horário combinado por mensagem. Para a PF, o conteúdo corrobora a tese de que a família Bolsonaro tinha ingerência sobre a liberação dos valores.

    Do palco da CPAC ao grupo privado

    Eduardo Bolsonaro, conhecido por alinhar-se a manifestações conservadoras internacionais, aparece em foto de março de 2026 fazendo aceno ao público da CPAC em Dallas. Embora a imagem não tenha relação direta com o inquérito, investigadores destacam que o ex-deputado já mantinha naquele período forte trânsito nos Estados Unidos — contexto que reforçaria sua aptidão para sugerir modelos de movimentação financeira no exterior.

    Movimentação sob suspeita

    No relatório enviado ao STF, a PF descreve um esquema de três etapas:

    1. Captação de recursos no Brasil via banco Master;
    2. Transferência para contas ligadas ao projeto Dark Horse utilizando prestadores de serviço e intermediários;
    3. Remessa de valores aos Estados Unidos, onde parte da produção do filme ocorreria.

    As mensagens atribuídas a Eduardo Bolsonaro se enquadrariam na terceira fase, oferecendo, segundo a investigação, “orientação operacional” para que a quantia chegasse ao destino final sem barreiras regulatórias.

    Crimes em avaliação

    Com base nos indícios, a corporação apura:

    • Lavagem de dinheiro — ocultação da origem dos recursos mediante sucessivas transferências;
    • Evasão de divisas — envio de dinheiro ao exterior sem a devida declaração às autoridades brasileiras;
    • Corrupção — eventual troca de favores entre agentes públicos e o grupo financeiro responsável pelo aporte.

    O ministro André Mendonça acolheu todos os pedidos de diligência sugeridos pelo delegado responsável. Entre eles, estão a quebra de sigilo bancário e fiscal dos citados, a oitiva de envolvidos e o rastreamento internacional das transações.

    Supremo flexibiliza sigilo

    O avanço da investigação só se tornou público após o presidente do STF, Edson Fachin, solicitar a Mendonça a retirada de parte do sigilo que cobria o caso. Embora o relator tenha mantido em segredo a peça principal — que trata especificamente dos repasses ao filme — o levantamento parcial permitiu a divulgação do trecho em que aparecem as conversas de Eduardo.

    Com isso, o debate sobre a eventual responsabilidade do ex-parlamentar e de seu irmão ganhou tração no meio político. Parlamentares de oposição já falam em novos pedidos de investigação no Congresso, enquanto aliados minimizam as mensagens, alegando tratar-se de “opiniões” sem força executiva.

    Próximos passos da apuração

    Além das quebras de sigilo, a PF pretende ouvir novamente Thiago Miranda para esclarecer pontas soltas do fluxo financeiro, incluindo a menção a Altieres Santana na conversa repassada a Vorcaro. Os investigadores querem entender se o nome citado teria atuado como facilitador de remessas ou se apenas foi cogitado para tal função.

    Também está no radar a execução de cartas rogatórias aos Estados Unidos, onde bancos norte-americanos podem ser intimados a informar sobre depósitos ligados ao filme. Caso sejam confirmadas transações não declaradas, o Ministério Público poderá denunciar os envolvidos ainda neste ano.

    Repercussão entre investigados

    Até o momento, nem Eduardo nem Flávio Bolsonaro comentaram oficialmente as acusações descritas no relatório. Assessores próximos alegam que eles só irão se pronunciar após obter acesso integral aos autos. O banco Master, em nota anterior, sustentou que os repasses seguiram a legislação brasileira de incentivo cultural, mas evitou detalhar a rota internacional do dinheiro.

    O cineasta responsável por Dark Horse não consta entre os alvos do inquérito. A PF concentra sua atenção no circuito financeiro e político que, de acordo com os investigadores, extrapolou a mera colaboração cultural para assumir contornos de possível ilicitude.

    Sinais de pressão institucional

    No Congresso, líderes de oposição articulam requerimentos para que Eduardo Bolsonaro explique, na Comissão de Fiscalização Financeira, o teor das mensagens. A base governista, por sua vez, afirma que a PF “extrapolou” ao divulgar trechos sem que a defesa fosse previamente ouvida.

    Nos bastidores do Judiciário, ministros avaliam que o caso pode evoluir para a fase penal ainda durante o próximo semestre, a depender do resultado das quebras de sigilo e dos depoimentos cruzados.

    O que está em jogo

    O inquérito toca em três pontos sensíveis:

    1. Eventual financiamento irregular de produção cultural;
    2. Possível utilização do sistema bancário para fins políticos;
    3. Riscos de desgaste institucional para o STF, caso as decisões sobre sigilo sejam questionadas.

    Se confirmadas as suspeitas, os envolvidos podem responder a penas que, somadas, ultrapassam 20 anos de prisão, além de multas expressivas e perda de mandato, no caso de agentes políticos com cargo eletivo.

    Por enquanto, o núcleo da investigação segue atento ao calendário judicial. Com a reabertura dos trabalhos no STF após o recesso, novas decisões sobre diligências e sobre a ampliação ou não do sigilo parcial devem ocorrer nas próximas semanas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.