O anúncio do presidente argentino Javier Milei de erguer uma base naval na Terra do Fogo, aliado à promessa de punir companhias que pretendem explorar petróleo na região, levou o governo britânico a reiterar publicamente, nesta sexta-feira (4), que as Ilhas Malvinas “são britânicas porque seus habitantes assim desejam”. O recado partiu do ministro da Defesa do Reino Unido, Wes Streeting, que classificou as declarações de Milei como assunto de política doméstica argentina e garantiu: “Nosso compromisso com o arquipélago é absoluto e inabalável”.
A troca de farpas ressuscita a tensão sobre o território no Atlântico Sul quatro décadas depois da guerra de 1982, encerrada com a rendição argentina. Desta vez, o embate ganhou combustível extra com a possibilidade de intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e com um projeto anglo-israelense para perfurar o campo de petróleo Sea Lion, a cerca de 225 quilômetros das ilhas.
Novo tom de Buenos Aires
Durante pronunciamento em rede nacional na quinta-feira (3), Milei disse que a base na Terra do Fogo reforçará a presença militar em uma área “estratégica para o futuro do país”. O líder ultraliberal também declarou que os moradores das Malvinas “não têm um direito legítimo à autodeterminação”, sinalizando mudança de abordagem: até recentemente, ele defendia a diplomacia como via principal para retomar o controle das ilhas.
Segundo o presidente, “ventos de mudança favoráveis” sopram a favor da reivindicação argentina, numa referência direta a Trump. Milei interpreta as declarações do aliado norte-americano — que ameaçou rever a postura histórica de Washington sobre o tema — como uma “ameaça que não é inócua” para Londres.
Resposta imediata de Londres
Horas depois, Streeting usou a denominação britânica “Falklands” e afirmou que “as falas de Milei dizem mais sobre a política interna da Argentina do que sobre o futuro do arquipélago”. Ao reafirmar que qualquer tentativa de alterar o status das ilhas dependerá da vontade de seus 3.400 habitantes, o ministro ecoou a posição adotada por Downing Street desde o referendo de 2013, no qual mais de 99% dos residentes votaram por manter o vínculo com o Reino Unido.
Para Londres, o lançamento do projeto militar argentino configura passo unilateral e, por isso, desrespeita a resolução da Organização das Nações Unidas de 1965, que pede a ambos os países que evitem medidas que agravem o impasse e negociem uma saída pacífica.
Trump no tabuleiro
A aparição de Donald Trump no debate alterou o equilíbrio de forças. Embora a Casa Branca reconheça que o Reino Unido administra de fato as ilhas, historicamente evita pronunciar-se sobre a soberania. O republicano, contudo, sinalizou a aliados que cogita rever essa prática para pressionar Londres a ampliar gastos militares e apoiar operações norte-americanas, inclusive no Oriente Médio.
Pressão sobre a Otan e efeito cascata
Em entrevista à GB News, Trump deu a entender que não auxiliaria os britânicos em eventual conflito futuro pelas Malvinas. Especialistas veem na ameaça parte de uma “doutrina Donroe”, variação contemporânea da Doutrina Monroe, que pregava hegemonia norte-americana no continente. O cientista político Tomás Mugica, da Universidade Católica Argentina, avalia que Trump usa a questão “como barganha para que o Reino Unido atenda exigências ligadas ao financiamento da Otan e à guerra no Irã”.
Petróleo como faísca
A revelação de que a israelense Navitas Petroleum, ao lado da britânica Rockhopper Exploration, planeja perfurar o campo Sea Lion entre o fim deste ano e o início do próximo inflamou os ânimos em Buenos Aires. Estima-se que a área contenha 1,7 bilhão de barris de petróleo, tornando-a uma das descobertas offshore mais relevantes das últimas décadas.

Imagem: Internet
Milei prometeu punir civil e criminalmente qualquer empresa envolvida em “atividades ilegais” na plataforma continental que a Argentina reivindica. Mesmo com a rusga diplomática, as companhias sustentam possuir licenças válidas emitidas pelas autoridades locais das Malvinas. O mercado reagiu: as ações da Rockhopper caíram 6% na manhã desta sexta, enquanto os papéis da Navitas recuaram 2% na bolsa de Tel Aviv.
Calendário eleitoral e popularidade em queda
O endurecimento retórico ocorre a pouco mais de um ano das eleições nas quais Milei pretende buscar um segundo mandato. Levantamentos recentes indicam que 34% dos argentinos aprovam seu governo, contra 55% que o desaprovam. Analistas veem na escalada sobre as Malvinas uma tentativa de mobilizar apoio em torno de tema que une diferentes correntes políticas: a legitimidade da reivindicação de soberania.
Consenso interno, cenário externo incerto
Pesquisa após pesquisa confirma que a causa Malvinas reúne ampla maioria da população argentina, bem como das elites. Entretanto, especialistas alertam para o risco de superestimar eventuais ganhos diplomáticos. “É preciso ser cuidadoso com as expectativas de mudança na postura americana”, diz Mugica. O ex-secretário de Assuntos Internacionais para a Defesa, Juan Battaleme, acrescenta que, em caso de conflito, “Trump interfere”, mas sempre em linha com seus interesses estratégicos.
Guerra de 1982 ainda pesa
Quarenta e dois anos depois do confronto que deixou cerca de 900 mortos, a memória da guerra permanece viva. O Reino Unido mantém guarnição de aproximadamente 1.200 militares nas ilhas, além de caças Typhoon e um navio de patrulha offshore. Já a Argentina, cuja Constituição de 1994 inclui cláusula sobre a recuperação pacífica do território, tem investido em modernizar o aparato de defesa no sul do país, embora sofra restrições orçamentárias severas.
Cenários possíveis
- Diplomacia retomada: setores moderados em Buenos Aires e Londres defendem reabrir canais formais, fechados desde 2013, para avançar em temas como voos comerciais e pesca.
- Espiral de sanções: caso Milei cumpra a ameaça de punir petroleiras, o Reino Unido pode reagir com restrições comerciais ou ampliar a presença militar.
- Mediação internacional: a ONU mantém na agenda o convite para que as partes negociem; países sul-americanos podem tentar costurar algum tipo de diálogo multilateral.
O que está em jogo
Além de reservas estimadas em bilhões de dólares e de pesca abundante, as Malvinas ocupam posição estratégica próxima à Antártida e rotas de navegação que ganham importância com o degelo polar. Para a Argentina, recuperar o arquipélago seria coroar um projeto nacional de longa data; para o Reino Unido, ceder soberania significaria abrir precedente com repercussões em outros territórios ultramarinos.
Próximos passos
Milei determinou a criação de uma comissão interministerial para acelerar estudos de viabilidade da base naval, cujo orçamento ainda não foi divulgado. Londres, por sua vez, promete levar o tema a fóruns bilaterais de defesa e manter contato direto com os governos de Israel e Estados Unidos sobre a exploração de Sea Lion. Enquanto isso, a temporada de perfuração prevista pelas petroleiras segue no calendário, e a temperatura diplomática entre Buenos Aires e Londres volta a subir como nos tempos mais conturbados da década de 1980.
