Figura fundamental na consolidação da televisão brasileira, o ator e diretor Gracindo Jr. morreu nesta quarta-feira (2/9), aos 83 anos. A informação foi confirmada pelo filho, Pedro Gracindo, e encerra mais de seis décadas de atuação em praticamente todas as frentes das artes cênicas: rádio, teatro, TV e cinema.
Nascido Epaminondas Xavier Gracindo em 21 de maio de 1943, no Rio de Janeiro, ele carregava no sangue a vocação artística herdada do lendário Paulo Gracindo. Mas foi por mérito próprio que se tornou um dos primeiros contratados da TV Globo, em 1965, acumulando papéis icônicos e incursões na direção que moldaram o audiovisual nacional.
Da cabine da Rádio Nacional aos palcos do teatro
Aos 15 anos, em 1959, o jovem Gracindo Jr. passou em um teste para a Rádio Nacional, onde exerceu simultaneamente as funções de ator, redator e disc-jóquei. A versatilidade chamou atenção e sedimentou a transição para o palco. Dois anos depois, estreou no teatro com “A Escada”, de Oswald de Andrade, peça que marcou a passagem definitiva dos estúdios de som para a ribalta.
Chegada à recém-inaugurada TV Globo
Em 1965, quando a TV Globo abriu as portas, Gracindo Jr. integrou a leva inaugural de contratados. Participou da segunda novela da emissora, Rosinha do Sobrado, e emendou trabalhos em Padre Tião (1966) e A Rainha Louca (1967). Deve-se a esse início precoce a identificação quase imediata do público com seu rosto nas telas.
Papel compartilhado com o pai
Entre tantos folhetins, O Casarão (1976), de Lauro César Muniz, tornou-se referência obrigatória. Ali, Gracindo Jr. viveu o pintor João Maciel na juventude, enquanto Paulo Gracindo interpretou o mesmo personagem na maturidade. A dualidade de gerações em cena resultou em um dos momentos mais lembrados da teledramaturgia nacional.
Carreira atrás das câmeras
Não bastasse o reconhecimento como ator, ele se aventurou na direção dentro da própria Globo. Conduziu novelas como Memórias de Amor e Marron-Glacé, além de colaborador regular em programas de auditório e variedades, entre eles Fantástico, Os Trapalhões e Você Decide. A aptidão para coordenar elencos reforçou a imagem de profissional completo, capaz de transitar entre bastidor e holofote.
Palco sempre presente
Fora da televisão, Gracindo Jr. assinou mais de 20 produções teatrais, ora como ator, ora como diretor e produtor. O espetáculo “Paulo Gracindo, Meu Pai” destacou-se como tributo aos 50 anos de carreira de seu progenitor, misturando lembranças pessoais e história do rádio. Também coube a ele dirigir as duas últimas peças que contaram com Paulo Gracindo no elenco: “Num Lago Dourado” (1991) e “A História é uma História” (1993).
Passagem pelo cinema
Na tela grande, o artista alternou participações em blockbusters de apelo popular e produções de perfil autoral. Esteve com Os Trapalhões em “Na Serra Pelada” (1982) e “Na Arca de Noé” (1983), entrou em circuito internacional com “Floresta das Esmeraldas” (1985) e manteve-se ativo no século XXI em títulos como “Bufo e Spallanzani” (2001), “Primo Basílio” (2006) e “Segurança Nacional” (2010).

Imagem: Internet
Legado e influência
Discípulos e colegas reconhecem em Gracindo Jr. a combinação de disciplina de rádio, timing teatral e poder de comunicação televisivo. Nas redes sociais, atores de diferentes gerações lamentaram a perda e sublinharam o caráter agregador do veterano, sempre disposto a compartilhar histórias de bastidor e lições de set.
A partida do artista cria um vácuo não apenas afetivo, mas também de memória viva de épocas fundadoras do audiovisual brasileiro. Ele foi testemunha ocular da transição do preto-e-branco para o HD, do radionovela à multiplataforma, e manteve-se relevante ao longo dessas metamorfoses.
Família e últimas aparições
Gracindo Jr. deixa filhos, entre eles o ator e produtor Pedro Gracindo, responsável por confirmar o falecimento ao g1. Seu último trabalho de destaque na TV foi uma participação especial em produções da Record, emissora que, ao lado da TV Manchete, também contou com o talento do carioca nos anos 1980 e 1990.
O velório e os detalhes da cerimônia de despedida ainda não tinham sido divulgados até o fechamento deste texto. A família pede respeito à privacidade neste momento de luto.
Influência perene no ofício
A trajetória de Gracindo Jr. comprova a vitalidade de uma geração que abriu caminho para a dramaturgia que se faz hoje no Brasil. Entre formações de elenco e direções marcantes, sua assinatura permanece nos arquivos da Memória Globo, nos palcos que frequentou e nos filmes que ajudou a escrever na história do cinema nacional.
- 83 anos de vida, mais de 60 de carreira
- Atuou, dirigiu e escreveu para rádio, TV, teatro e cinema
- Pioneiro contratado da TV Globo em 1965
- Filho do também ator Paulo Gracindo; juntos, dividiram personagem em “O Casarão”
- Morto em 2 de setembro; causa não divulgada
