Uma ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, acentuou a crise entre Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e a própria Corte. Delegados relatam que foram chamados a seu gabinete para discutir a Operação Compliance Zero e, surpreendidos, ouviram a determinação de produzir um relatório sobre as mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro — material que, dias depois, revelaria ligações do empresário com o colega de Corte Alexandre de Moraes.
A convocação, feita no fim de semana anterior à reunião de 24 de agosto, omitia qualquer menção a Moraes ou a suposto vazamento de informações sigilosas. Para investigadores, tratou-se de “reunião cilada”, criada para que Mendonça atribuísse formalmente à PF a coleta de evidências que pudessem alcançar o outro ministro, sem assumir que esse era o objetivo real.
Reunião surpresa no gabinete
O encontro foi solicitado pelo gabinete de Mendonça a integrantes da equipe que conduz a Compliance Zero, desdobramento do caso Banco Master. Quando os delegados chegaram, ouviram inicialmente explicações sobre pontos corriqueiros da investigação. Logo em seguida, o ministro colocou sobre a mesa uma decisão — redigida sem data — mandando a PF identificar todos os interlocutores de Vorcaro que apareceram em conversas sobre possível acesso antecipado a decisões da 10ª Vara Federal de Brasília, responsável pela primeira ordem de prisão contra o banqueiro, em novembro de 2025.
Parte dessas mensagens já constava em relatórios anteriores da própria PF e embasara reportagem que sugeria Moraes como possível contato de Vorcaro nas horas que antecederam a prisão. Mesmo assim, os investigadores nunca haviam confirmado a identidade do interlocutor. Para Mendonça, essa lacuna precisava ser resolvida; para a corporação, a convocação representou mudança abrupta de escopo e criou constrangimento pela suspeita de que o alvo real era um ministro do STF.
Conteúdo e rapidez do relatório
Instruída a entregar um documento único, sem fragmentos ou análises externas, a PF trabalhou aceleradamente. Três dias após a ordem, na quinta-feira subsequente, o relatório chegou ao gabinete de Mendonça. Entre os anexos estavam diálogos em que Vorcaro trocava informações sobre andamentos processuais ainda sigilosos, reforçando a narrativa de vazamentos internos e apontando, ainda que indiretamente, para Moraes.
O gabinete de Mendonça possui cópia integral do celular do banqueiro, mantida lacrada segundo assessores. A defesa do ministro sustenta que o pedido não configurou diligência investigativa — seria mero ato de supervisão judicial, restrito ao “material bruto” apreendido. Delegados envolvidos, no entanto, afirmam que a tarefa exigiu seleção e contextualização das conversas, indo além da simples remessa de arquivos.
Confronto entre ministros
Na segunda-feira seguinte à entrega do documento, Alexandre de Moraes foi ao gabinete de Mendonça. O encontro, descrito por testemunhas como tenso, começou com Moraes acusando o colega de conduzir investigação contra ele. Mendonça rebateu, alegando que apenas repassara conteúdo que a PF considerou relevante. Moraes retrucou: afirmou que o colega mentia e exigiu envio imediato do material à PGR e submissão do caso ao Plenário do STF.
Diante da pressão e após a divulgação da existência do texto pelo portal Metrópoles, Mendonça decidiu retirar o sigilo do relatório no dia seguinte. A manobra, segundo interlocutores do ministro, visou transparência e afastar suspeitas de que estaria ocultando informações. Para aliados de Moraes, porém, a retirada de sigilo reforçou o caráter político da iniciativa, lançando luz sobre conversas desconexas que ainda carecem de perícia sobre autenticidade e contexto.
Reação da PF e da PGR
Internamente, a cúpula da Polícia Federal classificou o pedido de Mendonça como potencial abuso de autoridade, capaz de contaminar todo o inquérito do Banco Master. A avaliação foi compartilhada pela Procuradoria-Geral da República, que pediu ao STF a nulidade da ordem e de qualquer prova produzida a partir dela.

Imagem: Internet
Procuradores argumentam que o ministro atuou como verdadeiro investigador, função que a Constituição reserva ao Ministério Público e à PF, e não ao Judiciário. Sem provocação da PGR ou da polícia, acrescentam, Mendonça teria inaugurado etapa investigativa própria, criando riscos de contaminação processual e questionamentos sobre imparcialidade.
Ponto de fricção institucional
- A PF sustenta que foi surpreendida, mas cumpriu a ordem para evitar conflito com o Supremo.
- A PGR vê precedente perigoso: ministros requisitando peças investigativas de ofício.
- No STF, a situação rachou gabinetes: parte dos ministros considera legítimo o controle judicial; outra parte teme escalada de confrontos internos.
Argumentos do gabinete de Mendonça
Auxiliares do ministro insistem que não houve “investigação paralela”. Segundo eles, a decisão apenas requisitou à PF dados já disponíveis nos autos, sem exigir buscas, quebras ou diligências externas. A convocação teria sido “genérica” porque, por praxe, detalhes sensíveis não circulam por e-mail ou memorando; a referência ao nome da operação bastaria.
O ambiente, contudo, era carregado de simbolismos. Mesmo sem mencionar Moraes na decisão escrita, Mendonça sabia que a imprensa atribuía a ele os diálogos com Vorcaro. A lacuna deixada pela PF em não identificar o interlocutor pressionava o Supremo. Para delegados, a “cilada” impôs à corporação a escolha entre obedecer ao ministro ou sustentar que nada mais poderia ser feito com o material disponível.
Impacto sobre a Operação Compliance Zero
- A defesa de investigados já cogita alegar vício processual, citando influência do Judiciário sobre a produção de provas.
- Delegados temem que toda a investigação contra o Banco Master sofra questionamentos, retardando o oferecimento de denúncia.
- Advogados de Moraes preparam argumentos de suspeição e violação de prerrogativas caso o Plenário avance na análise.
Próximos passos no Supremo
Com o pedido de anulação protocolado pela PGR, a decisão de Mendonça será submetida ao Plenário do STF. Caberá aos 11 ministros dizer se houve desvio de competência e, em caso afirmativo, qual o destino das mensagens de Vorcaro e dos desdobramentos que apontam para Moraes.
Entre ministros ouvidos reservadamente, há preocupação com o desgaste institucional. Parte defende que o tribunal encaminhe todo o material ao Ministério Público, sem tocar no mérito, para esfriar a crise. Outra ala entende que o próprio Supremo deve esclarecer se houve vazamento e quem participou das conversas com Vorcaro, evitando suspeitas de autoproteção.
Enquanto o impasse segue, o relatório mantém seus efeitos colaterais: aumenta a desconfiança entre delegados e magistrados, estimula questionamentos sobre os limites de atuação do Judiciário no controle externo da atividade policial e cria, no coração do STF, um embate pessoal entre dois ministros que ultrapassa questões processuais e ameaça contaminar votações colegiadas.
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