Caminhada revive cortejo fúnebre de Luiz Gama e apresenta novos escritos do abolicionista em São Paulo

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    Cento e quarenta e quatro anos depois de o corpo de Luiz Gama percorrer as ruas de São Paulo acompanhado por 10% da população da época, 50 admiradores repetiram a rota, a pé, no último domingo (30). O grupo atravessou o centro histórico, do Brás ao cemitério da Consolação, para recordar o maior nome do abolicionismo brasileiro e renovar o compromisso com suas ideias.

    Organizada pela Sociedade Luiz Gama desde 2013, a caminhada reproduz o trajeto do funeral que, em 1882, uniu a cidade em torno do ex-escravizado que se tornou jornalista, poeta e advogado autodidata responsável por libertar centenas de cativos com base na legislação vigente.

    Passo a passo de um cortejo que parou a capital

    Da casa no Brás ao túmulo modesto

    A travessia começou diante da antiga residência de Gama, na Rua da Glória, bairro do Brás, onde o cortejo original se formou. Dali, os participantes seguiram pelas vias que ligam a zona leste ao centro, passando pela praça da Sé, pelo Largo São Francisco e pelo Tribunal de Justiça, até chegar ao pequeno jazigo próximo à entrada principal do cemitério da Consolação.

    Segundo Abílio Ferreira, 66 anos, coordenador da Sociedade Luiz Gama, só percorrendo o caminho é possível dimensionar o impacto emocional descrito pelos cronistas do século XIX. “É um exercício de empatia histórica; pisamos nas mesmas calçadas e tentamos sentir o peso daquele luto coletivo”, afirmou.

    Conflitos revividos diante do Fórum

    No Fórum João Mendes, o historiador Bruno Rodrigues de Lima, doutor em História do Direito pela Universidade de Frankfurt, lembrou aos caminhantes a rivalidade entre o magistrado que dá nome ao prédio e o abolicionista. “João Mendes combatia judicialmente Gama, mas era obrigado a reconhecer sua excelência jurídica”, comentou, explicando que esse tensionamento simbolizava a resistência das elites escravistas à atuação do advogado.

    Pesquisa revela textos esquecidos

    A edição de 2026 da caminhada coincidiu com o lançamento do quinto volume das “Obras Completas de Luiz Gama”, coleção coordenada por Bruno de Lima e publicada pela Editora Hedra. Intitulado “África-Brasil”, o livro reúne cerca de cem artigos e cartas em que o autor discute o cotidiano de africanos livres e escravizados no país.

    Caderno inédito sobre africanos emancipados

    Entre os documentos agora tornados públicos está o “Livro dos Africanos Emancipados”, catálogo manuscrito de 1864 encontrado por Lima em 2021 no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Nele, Gama registra os perfis de 124 africanos livres, indicando nome, idade, ofício e circunstâncias da libertação. “É uma fonte primária raríssima que mostra Gama atuando como escrivão e como observador atento da comunidade africana”, explica o pesquisador.

    Caminhada revive cortejo fúnebre de Luiz Gama e apresenta novos escritos do abolicionista em São Paulo - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Nos quatro volumes anteriores já publicados, foram compilados mais de 800 textos recuperados em arquivos de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia — muitos deles assinados com pseudônimos ou atribuídos a Gama somente após cruzamento de caligrafia e estilo.

    Do porão à tribuna: a trajetória que inspira o presente

    Nascido livre em Salvador, Luiz Gonzaga Pinto da Gama foi vendido aos dez anos pelo próprio pai para quitar dívidas. Atravessou o Atlântico em um navio negreiro e chegou a São Paulo, onde permaneceu cativo até os 18, quando provou judicialmente a ilegalidade de sua escravização. Alfabetizou-se por conta própria, tornou-se tipógrafo, soldado, escrivão de polícia e, finalmente, advogado — mesmo sem diploma, autorizado pelos tribunais com base em notório saber.

    Ao longo de sua carreira, defendeu gratuitamente pessoas negras diante das famílias mais ricas do Império, denunciou torturas em jornais como “Diário de São Paulo” e “Correio Paulistano”, e estimava ter garantido a liberdade de pelo menos 500 escravizados. Morreu em 24 de agosto de 1882, seis anos antes da assinatura da Lei Áurea.

    Juramento renovado perante o jazigo

    Chegados ao cemitério, os participantes repetiram o gesto histórico registrado pelo escritor Raul Pompeia no dia do enterro: braços erguidos, prometeram manter viva a causa de “um Brasil sem reis nem escravos”. O ator e dramaturgo Max Lu, 50, que encarnou Gama em montagens teatrais, conduziu o rito. “Caminhar por onde ele caminhou é sentir a força de quem carregava na alça do caixão a gratidão pela liberdade”, declarou.

    Para Ferreira, a cena reforça a atualidade do legado do patrono da abolição. “Quando Pompeia descreveu pessoas chorando às janelas e lojas fechadas em sinal de luto, estava falando de uma sociedade que percebia a urgência da emancipação. Nosso desafio é lembrar que, embora a escravidão formal tenha acabado, as desigualdades que ela criou permanecem”, concluiu.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.