Entregadores de aplicativo que insistiram em continuar trabalhando durante o Breque Geral dos Apps foram cercados, ameaçados e impedidos de retirar pedidos em Brasília. Imagens divulgadas nas redes sociais nesta terça-feira (1º/9) mostram motoboys usando a força para obrigar colegas a aderir à paralisação nacional.
A Polícia Militar do Distrito Federal foi acionada após um comerciante denunciar que o tumulto atrapalhava o funcionamento do estabelecimento. Câmeras internas ajudaram a identificar os envolvidos, mas nenhum dos participantes aceitou registrar boletim de ocorrência.
Agressões flagradas em vídeo
Nos registros que circularam pela internet, um entregador se aproxima do balcão para retirar um lanche e, antes que consiga partir, é agarrado firmemente por outro motociclista. Em outro ponto da capital, cinco motoboys formam um círculo em torno de um colega, impedindo que ele deixe o local com a encomenda. Durante o empurra-empurra, o pacote é atirado ao chão, e a discussão se intensifica.
De acordo com relatos colhidos pela PM, a confusão começou quando os manifestantes passaram a vigiar portas de restaurantes para garantir que ninguém furasse o movimento. Após recolher declarações do proprietário e checar as imagens, os policiais encontraram os autores das agressões. Apesar da identificação, vítimas e agressores preferiram não formalizar queixa, limitando a atuação da polícia à orientação das partes e dispersão do grupo.
O que é o Breque Geral dos Apps
Mobilizado por grupos de mensagens e perfis em redes sociais, o Breque Geral pede melhor remuneração e maior transparência das plataformas de entrega. A orientação aos trabalhadores era permanecer off-line ao longo do dia, além de participar de buzinaços e carreatas em diferentes cidades do país para pressionar empresas e governo.
Principais demandas
- Valor mínimo por corrida: R$ 10 para trajetos de até 4 km.
- Pagamento por distância: R$ 2,50 por quilômetro rodado acima do percurso básico.
- Custos operacionais: reajuste que cubra gasolina, manutenção e depreciação da moto.
- Bloqueios de contas: divulgação dos critérios de suspensão e direito de contestação.
- Modalidade “+Entregas”: revisão de áreas e horários fixos que, segundo os motoboys, reduzem ganhos.
A categoria também pressiona o governo federal a editar uma medida provisória que estabeleça remuneração mínima nacional. Outra fonte de insatisfação é o Projeto de Lei Complementar 152, considerado insuficiente para garantir renda e proteção previdenciária aos entregadores.
Paralisação atinge outras capitais
Embora os episódios de coação tenham chamado atenção em Brasília, manifestações aconteceram simultaneamente em diversas regiões. Em São Paulo, cerca de 100 motociclistas se concentraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, e seguiram em carreata pelo Centro e pela Avenida Paulista. Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza também registraram atos, alguns com bloqueio parcial de vias e buzinaço.
A amplitude nacional mostra que o descontentamento não se resume a grandes centros. Em cidades médias, a adesão se deu principalmente pela retirada voluntária dos trabalhadores dos aplicativos, reduzindo o número de entregadores disponíveis e atrasando pedidos.
Risco de violência entre colegas
O episódio no Distrito Federal expôs pela primeira vez, de forma pública, o uso de força física entre motoboys durante paralisações do setor. Especialistas em relações de trabalho alertam que a ausência de representação sindical tradicional aumenta a tensão dentro da categoria, já que decisões são tomadas em grupos informais sem mecanismos claros de mediação.
Para o professor de sociologia do trabalho da Universidade de Brasília, Carlos Mendes, a falta de instâncias formais de diálogo com as empresas alimenta a radicalização: “Quando não há canal institucional, a negociação vira luta de força. Quem tenta trabalhar sente-se traindo o movimento, e a pressão escalona”.

Imagem: Internet
Até o início da noite, as principais plataformas de entrega afirmavam não ter registrado incidentes graves de segurança, embora confirmassem atrasos em capitais onde a adesão foi maior. Nenhuma empresa informou reajuste imediato das tarifas.
Próximos passos da mobilização
Organizadores do Breque prometem nova paralisação caso não haja resposta concreta das plataformas. Eles querem reunião presencial com diretores de empresas para negociar correção de tarifas ainda neste semestre. Na Câmara dos Deputados, o bloco da Frente Parlamentar em Defesa dos Trabalhadores por Aplicativo pretende propor emendas ao PLP 152 para incluir piso de pagamento e custeio de INSS.
Enquanto isso, entregadores que dependem exclusivamente da renda diária relatam preocupação. “Se eu paro, não pago o aluguel; se eu continuo, risco apanhar”, desabafou um motociclista que preferiu não se identificar. Ele alega ter circulado fora do uniforme para evitar retaliações. A dupla vulnerabilidade — financeira e física — reforça o clima de incerteza que domina o setor.
Posicionamento da PMDF
Procurada para comentar, a Polícia Militar informou ter reforçado o patrulhamento em áreas com maior concentração de restaurantes e aplicativos. A corporação orienta trabalhadores a acionar o 190 diante de qualquer tentativa de coação. “A manifestação é legítima, mas atos de violência configuram crime”, diz nota enviada à imprensa.
Até o fechamento desta reportagem, não havia registro de novos confrontos na capital federal. O comando da PMDF ressalta, porém, que a ausência de boletim de ocorrência prejudica a abertura de inquérito e a eventual responsabilização criminal dos agressores.
Cenário permanece indefinido
As cenas de agressão em Brasília ampliaram o debate sobre a precarização e a urgência de uma legislação que contemple modelos de trabalho mediados por aplicativos. Enquanto empresas, governo e entregadores não chegam a um consenso, o risco de novos confrontos paira sobre um serviço que se tornou essencial em tempos de pandemia e mudança nos hábitos de consumo.
Para quem depende das entregas, resta torcer para que o impasse seja resolvido em mesa de negociação, não na rua. Até lá, motoboys dividem a pista entre a necessidade de garantir o sustento diário e a pressão crescente por direitos trabalhistas — um equilíbrio frágil que, nesta terça-feira, se rompeu de maneira mais violenta no coração do país.
